Estado endivida-se para vender!

“O Estado teve de injectar cerca de dois mil milhões de euros no Banif, no âmbito do processo de resolução. Uma operação que afectou o défice público em 2015, mas que o Governo impediu que implicasse maiores necessidades de financiamento em 2016. Para isso, o Governo acordou com o Santander Totta, aquando da venda do Banif, que o banco espanhol teria de emprestar 1,8 mil milhões de euros ao Estado (…) Foi o Banco de Portugal, oficialmente, quem tomou a decisão, mas foi o Governo de António Costa que aprovou a injecção de capital público. Uma saída dos cofres do Estado que, sabe-se agora, viria a ser compensada por um empréstimo feito pela entidade que acabou por adquirir o banco, o Santander Totta. ‘Na sequência da medida de resolução do Banif, o IGCP emitiu também MTN (medium term notes, ou dívida de médio prazo) a dez anos, num montante de 1,8 mil milhões de euros’, informou o Tesouro na quarta-feira, 24 de Fevereiro, numa nota aos investidores. (…) os títulos de dívida vendidos pelo Estado vendidos pelo Estado contaram com uma taxa de cupão de 3,3%. Este valor acabou por ser superior aos 2,875% oferecidos na emissão sindicada também a dez anos, no final de Janeiro”., no Jornal de Negócios de hoje (p. 24).

A notícia divulgada hoje pelo Jornal de Negócios reforça a natureza da intervenção que levou à absorção do negócio bancário do Banif no Santander Totta. Recuperem-se, pois, os factos da intervenção de 20 de Dezembro de 2015. Na altura, foi comunicada pelo Banco de Portugal a decisão [de] “vender a atividade do Banif ao Banco Santander Totta, por € 150 milhões, no quadro da aplicação de uma medida de resolução.Nos termos desta decisão será transferida para o Banco Santander Totta a generalidade da atividade do Banif, com exceção de ativos problemáticos que serão transferidos para um veículo de gestão de ativos. No Banif permanecerá um conjunto muito restrito de ativos, que será alvo de futura liquidação, bem como as posições acionistas, dos créditos subordinados e de partes relacionadas. Os acertos associados à opção de delimitação do perímetro acordada entre as autoridades portuguesas, as instâncias europeias e o Banco Santander Totta, envolvem um apoio público estimado de € 2 255 milhões que visam cobrir contingências futuras, dos quais € 489 milhões pelo Fundo de Resolução e € 1 766 milhões diretamente pelo Estado.”. Porém, no dia seguinte, a Comissão Europeia já comunicava uma coisa diferente, afirmando que, fruto de garantias diversas (incluindo uma garantia ao Santander Totta de valor superior ao preço de compra do negócio bancário!!), o apoio público poderia afinal ascender a 3 mil milhões de euros.

Fast forward to February 2016, e temos que esta operação do Banif ficará nos cânones como a resolução bancária mais absurda de sempre! Senão vejamos. Para corrigir a falta de reembolso de uma parte dos Cocos que o Banif devia ao Estado, os tais 125 milhões de euros dos 400 milhões que deveriam ter sido integralmente reembolsados em finais de 2014, optou-se por uma solução na qual o Estado acabou por encaixar uma perda monumental, de potencialmente 3 mil milhões de euros (não obstante os prejuízos acumulados do Banif desde 2010, e dois aumentos de capital, um privado de 450 milhões e outro público de 700 milhões, que tudo somado também totalizaram perto de 3000 milhões), e através da qual o Estado (em termos líquidos) acabou por pagar ao Santander Totta pela venda do negócio bancário do Banif (expurgado, através de um “haircut” massivo, de problemas maiores). Ou seja, dois descontos. Um primeiro desconto via “haircut” (aqui, admito que “por cortesia” da DGComp, ou de outro alguém em Frankfurt). E um segundo desconto por via da garantia pública concedida ao adquirente (mesmo depois do já citado “haircut” massivo!). Dois descontos que em conjunto foram superiores ao valor de aquisição do negócio bancário do Banif. É obra!

Mais: como se tudo isto não bastasse, soubemos hoje que até o financiamento público da resolução do Banif, mormente a injecção de 1.8 bi que o Estado fez na resolução, beneficiará o Santander Totta. Porquê? Porque, confirmando-se a notícia do Negócios, o Governo (e aqui sublinho: o Governo, e não o BdP), a fim de financiar a sua contribuição para a resolução, terá decidido endividar-se junto do Santander Totta através da emissão de dívida descrita em cima, em vez de ter recorrido às suas reservas de caixa (os tais “cofres cheios”, cheios de dívida é certo) ou a uma emissão de dívida de curto prazo (a juro próximo de zero), ou até a uma emissão de médio e longo prazo como também fez em Janeiro (a um juro inferior ao juro pago nas MTN’s). Consequência? Na prática, através daquela emissão de MTN’s, terá sido concedido mais um desconto ao Santander Totta, em cima dos anteriores, desta feita de 600 milhões de euros (a preços de hoje, correspondentes a  3,3% sobre os tais 1800 milhões de euros durante dez anos). E assim, de desconto em desconto, pagou-se (e não foi pouco) para vender a parte boa (ou menos má) do Banif. Como disse, é obra!

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14 pensamentos sobre “Estado endivida-se para vender!

  1. JP-A

    Quem ouve a deputada europeia Elisa Ferreira (aka “Ms. Eh-o-dinheiro-do-PS”) a questionar a responsável da UE sobre a estranheza da notícia da TVI e a correlacionar o Santander com a TVI como ela o fez, de modo tão carregado e desconfiado, até estranha este “negócio”, mas pronto, isto é como os parafusos da linha do Tua. Quando vi aquilo até fiquei a pensar se ela não teria mudado de partido.

  2. Kubo

    Mutatis mutandis deverá ser essa a solução do Costa das Castas, para arranjar os milhões para os lesados do BES – por isso queria que o BP assumisse essa responsabilidade…

    Decerto para não aumentar mais uns 50 cêntimos nos combustíveis – dava muito nas vistas… – de forma a fazer cumprir a promessa de Carlos César: – “Se o Partido Socialista for Governo, deverá ser o Governo a ressarcir os lesados do Banco Espírito Santo”.

  3. Riccardi

    A questão chave foi a decisão do BCE retirar o estatuto de contraparte no fim do ano de 2015, forçando o BP e governo a tomar a decisão de venda num prazo que não daria para fazer operações diferentes. Este foi o resultado por terem empurrado o problema com a barriga para depois das eleições.
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    Anyway, retirar o estatuto de contraparte significa liquidar o banco. Literalmente. Ou vendeis a qualquer preço ou tereis de proceder a execuções em massa e devoluções imediatas de do’s dp’s aos clientes. Creio que o passivo exigível (depositos)do Banif andaria pela casa dos 9 mil milhões.
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    Perder 2 mil milhões talvez nao seja mau negócio em face daquilo que, se nadabse fizesse, iriamos perder.
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    O BCE esteve nas duas decisões mais importantes que nos causam prejuízos avultados. O BES e o Banif. Sempre combate mesma táctica. Prazos curtíssimos.
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    Isso indicia um propósito. Propósito que eu intuo ser forçar uma fusão bancária na ibéria para controlar futuros problemas em bancos portugueses e, ao mesmo tempo, dotar os bancos espanhóis de mais poder sobre a economia portuguesa no sentido de retirar risco a Espanha como um todo que poderia ser fortemente afectada se o seu principal parceiro (portugal) entrasse em derrapagem.

  4. Joaquim Amado Lopes

    De acordo com o PS, os 1,8 mil milhões de euros que foram emprestados pelo Santander não são para pagar portanto estamos bem.

  5. lucklucky

    Não entendi boa parte do texto.

    Um exemplo:
    “…e dois aumentos de capital, um privado de 450 milhões e outro público de 700 milhões, que tudo somado também totalizaram perto de 3000 milhões)…”

  6. Baptista da Silva

    Riccardi, embora veja no seu pensamento algo de conspirador, não tenho dúvidas que algo aconteceu. Mas eu sigo por outra via.

    SWAPS, há litigio aberto em Tribunais Internacionais, quer apostar que o Santander vai disfarçar a coisa e deixar cair?

  7. Buiça

    O BES e o Banif (e não só) estavam falidos desde que a República conivente faliu e as linhas de “ajuda” implicavam o Gaspar poder ver tudo o que lá havia dentro de altamente tóxico.
    Simplificando, o esquema é sempre o mesmo, no limite ponho 1 euro de capital, empresto mil: 500 para mim (99 dos quais vou usar para o capital em falta para cumprir os racios) e 500 distribuo por amigos. Enquanto houver quem acredite na qualidade daqueles “activos” tudo corre bem, posso mascarar de mil maneiras quem são os devedores, abrir e fechar empresas, dar-lhes ratings internos de altissima qualidade, que de uma maneira ou outra o dinheiro nunca volta. Sobretudo se no banco tudo for decidido pela mesma pessoa.
    O BCE não deu tempo…?! Haja santa paciência.
    O BCE apenas não quer saber se quem tem o dinheiro do banco é o presidente do benfica, o de angola, o do próprio banco ou duma construtora qualquer – se falta capital do verdadeiro ou ele aparece imediatamente ou manda fechar.
    As únicas questões que sobram são:
    Porque é que os cabecilhas não estão mortos, presos ou sequer puseram ainda os pés em tribunal e toda a face visível do assunto se centra na culpa do polícia?
    O Santander comprou só o governo ou a médio prazo Castela comprou 2 arquipélagos e 200 milhas de mar?
    Como é possível ainda ninguém ter processado a TVI que com uma simples notícia custou de um dia para o outro mil milhões ao banco/contribuinte?

  8. André Miguel

    O Buiça disse tudo, é mesmo isso sem tirar nem por.
    Os relatório dos auditores à banca nacional devem ser autênticos filmes de terror; mas porque não são públicos, já que os contribuintes andam a despejar lá dinheiro pelo menos desde 2008 (BPN)?! Que raio se esconde na banca nacional para que a nossa classe politica, de há uma década para cá, ande sempre com a palavra nacionalização na boca? O Banif não foi o ultimo, esperem pela próxima surpresa.

  9. lucklucky

    “lucklucky, ele deve somar isso aos 2 mil milhões que o Estado meteu lá.”

    Isso parece-me já está incluído nos primeiros 3 mil milhões.

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