Bomba atómica (2) sobre mais de 10.134,1 Milhões de Euros ou o drama da concentração de risco

No  âmbito da gestão da carteira de investimentos, avaliada acima de 13.500 milhões de Euros com os dados de 2014, do sistema de capitalização da Segurança Social que está cometida ao IGFSS, um instituto público, tomou – se a decisão de pôr todos os ovos no mesmo cesto, ao aumentar a exposição a dívida pública portuguesa de um limite máximo de 50% para mais de 75% em 2012/13. Esta decisão foi tomada  ao arrepio de todas as sãs normas de prudência e conservadorismo que devem presidir à gestão de risco de um portfolio com as características  que este apresenta. Ao fim e ao cabo esta reserva (sistema complementar) para os reformados portugueses deveria ser à prova de bala da falência do Estado Português e da Segurança  Social portuguesa.

Tendo sido tomada esta decisão por um governo dito de direita e liberal demonstra bem o quão pouco liberal era a doutrina de quem fez um aumento brutal de impostos e protegeu os pobres, esbulhando a classe média. Um governo liberal nunca se permitiria colocar um instituto com Governance independente, como deveria ser um instituto que gere um património em prol e no interesse dos futuros reformados e não da conjuntura económica ou de política momentâneas orçamentais, nesta situação de risco elevado em que 75% do seu património total (com dados de final de 2014) estão concentrados num emitente – o Estado Português – e com 2/3 do valor global da carteira aplicado num tipo de instrumentos – as OTs .

Em abono da verdade e avaliada à luz do “market timing” esta decisão produziu variações positivas e avultadas (14,7% em 2014 por ex.) da rentabilidade da carteira que levaram a um aumento do património global gerido.

Mas se aquela decisão que tão generosos ganhos teve nos anos subsequentes devido à descida acentuada das yields da dívida pública portuguesa (gerando um valor de mercado acima dos valores de reembolso futuro da dívida !) não tiver sido revertida em 2015 – e olhando para as decisões da almofada de liquidez do próprio Tesouro entende -se que não o deve ter sido – irá ter um efeito devastador no valor da carteira, revertendo grande parte dos ganhos havidos no passado.

Um cálculo simplista de subida da yield das OTs  a 10 anos, de 2.3% para 3.5%, com uma “duration” média de 6-7 vezes, tem uma correspondência numa queda de valor entre 7.2% e 8.4% não anualizada neste início de ano de 2016 em que a dívida pública portuguesa  teve um mau comportamento. Sem dúvida uma pequena bomba (pouco atómica) em qualquer portfolio que seja avesso ao risco.

Se achavam, como eu , que o Estado não ia cumprir a promessa de uma reforma após 66 ou 67 ou 68 anos, porque já  anda a pagar há muitos anos para aqueles que para ela não contribuíram (ao contrário da minha geração que é vítima daquilo a que já se denominou de conspiração grisalha) então com as reservas da SS aplicadas maioritariamente em dívida pública portuguesa (um país cuja sustentabilidade é posta em causa pela governação da geringonça e em que os mercados não confiam), a certeza do não recebimento é quase total.

Ainda assim haveria uma salvação para este desastre anunciado. Bastaria usar as boas práticas de Governance e independência do IGFSS a que este instituto deveria estar sujeito. Se o IGFSS não re-investir um euro da sua carteira de dívida pública nas datas de amortização das OTs estaremos um pouco melhor. Isto partindo do pressuposto que os projectos de reestruturação da dívida pública do BE e do PCP, assim como a famosa bomba
atómica do reputado economista socialista Pedro Nunes Santos,  não funcionem nos próximos 6-7 anos…

Claro que esta sugestão será mera retórica aos ouvidos de quem vai decidir nesta matéria pois o mais provável é fazer precisamente o inverso e colocar mais dívida pública neste “pé de meia” da minha e vossa reforma.

Se a cidadania e a justiça existissem em Portugal haveria quem os processasse, mas para mal de todos nós não somos os EUA onde a bomba atómica existe e a justiça funciona.

Somos apenas uns bananas…

5 thoughts on “Bomba atómica (2) sobre mais de 10.134,1 Milhões de Euros ou o drama da concentração de risco

  1. Vasco

    Caro Manuel Puerta,

    Acrescento, o Vitor Gaspar colocou nas nossas reformas o ónus do cumprimento e pagamento da Divida pública,
    Na altura falava-se de um acordo de colocar o défice máximo de 3% na constituição.

    O Vitor Gaspar usou o socialismo para o colocar indirectamente-> através da SS.

  2. Jose Silva

    Caro Manuel Costa,

    Apreciei o seu texto por simplesmente diz tudo sobre este assunto.
    O único problema é que 95% dos portugueses percebe mais das contas do futebol do que destas…
    Dos 5% que têm a capacidade para as perceber, metade prefere discutir futebol, um quarto está em negação…
    Os que sobram quando falam sobre isto são simplesmente ignorados ou gozados.

    Seremos governados (conduzidos) pela ignorância e sem remissão.

  3. Não deixe este assunto cair no esquecimento apesar do desconhecimento e alheamento generalizado; volte a ele sempre que se proporcione, para que os cordeirinhos dos eleitores portugueses percebam como são tosquiados pela calada e que a treta de esquerda/direita são bolos para tolos.

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