Apartheid laboral, com o silêncio cúmplice de CDS e PSD

income-inequalityAlguém decidiu que o Sistema Nacional de Saúde, que cobre desempregados e trabalhadores do sector privado, não era suficientemente bom para os trabalhadores do sector público. Para eles existe a ADSE, um sistema que permite aos trabalhadores do sector público usarem hospitais privados de forma quase gratuita, mediante o pagamento de um prémio de seguro. A ideia da ADSE é boa. Oferecer liberdade de escolha na saúde é uma boa medida. Que o estado deixe de ser prestador de cuidados de saúde para ser apenas financiador e regulador é um bom passo em frente na desestatização da saúde. Dito isto, permanece a desigualdade: apenas é dado o direito de escolha aos funcionários públicos. Enquanto os funcionários do sector privado apenas têm acesso aos seguros privados, o funcionários públicos têm acesso aos seguros privados e ao seguro público (ADSE). O seguro é público, mas não é de todos. Sobre o alargamento da ADSE aos cônjuges dos funcionários públicos mas não as restantes portugueses, Joana Mortágua disse esta coisa fenomenal ao Jornal de Negócios:

“A abertura da ADSE a outras pessoas que não funcionários públicos (e respectivos familiares) “não faz sentido”, porque “estaria a alargar o acesso de utentes aos hospitais privados com prejuízo claro para o SNS”. Por isso, “a ADSE deve manter-se como um sistema fechado aos funcionários públicos e às suas famílias”.”

Noutras palavras, o BE acha que a ADSE é um benefício para os funcionários públicos que deve ser reforçado, mas ao mesmo tempo considera que o (assumidamente inferior) SNS deve ser mantido por motivos ideológicos. Como os funcionários públicos não são merecedores de tal castigo, sacrificam-se os trabalhadores do sector privado, uma espécie inferior, para manter o SNS em funcionamento.

Que o BE, boa parte do PS e o PCP assumam sem pudores a defesa deste apartheid laboral, já não é novidade. Que o PSD e o CDS assistam a isto calados sem a coragem de dar um murro na mesa e obrigar pessoas como a Joana Mortágua a explicar aos portugueses porque é que não podem ter todos acesso à ADSE, já deveria ser mais surpreendente. Este silêncio cúmplice, esta cobardia em se afirmarem contra o tratamento desigual de funcionários públicos e trabalhadores do privado começa a ser exasperante. Todos aqueles trabalhadores do sector privado que votam e apoiam o PSD deveriam reflectir sobre esta passividade.

16 thoughts on “Apartheid laboral, com o silêncio cúmplice de CDS e PSD

  1. Pável Rodrigues

    …” Todos aqueles trabalhadores do sector privado que votam e apoiam o PSD deveriam reflectir sobre esta passividade.” E os que votam no CDS, não? Será que os do partido do táxi , agora sob a égide da social/socialista cristas, devem resguardar-se para na altura certa servir de moleta aos amigos do “chamuças”? O maior cego…

  2. JP-A

    A Avoila disse ontem algo ainda mais interessante para a TV (tenho até duvidas sobre se percebi bem): não concorda a menos que não se pague mais, caso contrário é sinal de que estamos perante uma privatização.🙂

  3. Rodolfo

    Parece-me uma boa estratégia para se querer liberalizar o sector da saúde usar a expansão da ADSE. Acho que as pessoas acolheriam melhor esse método do que o ‘cheque saúde’ ou algo parecido. Pode ser ridículo o comportamento da deputada do bloco, mas fornece um caminho por onde os liberais e conservadores possam conseguir enveredar.

  4. Anticapitalista

    Eu acho, tu achas, ele/ela acha, nós achamos, vós achais eles/elas acham!!!
    Só mesmo de pafistas ressabiados e salazarentos.
    Há tempos, um desses pafistas, assumidamente anti-comunistas, afirmava no “eixo do mal” do grande democrata fpb, que a tap tinha sido nacionalizada já aquela onda comunista que varreu Portugal com o 25 de ABRIL, mais recentemente o dito cujo afirmou na TSF que o psd luso nunca foi um partido de direita!?!?!?…
    Agora o brilhante autor deste texto inventou a tese que a adse foi criada depois do sns!!!!!!
    Enfim, quando a raiva aperta, da pena molhada em vinagre destes pafistas, só sai asneira, e, da grande e grossa!!!!

  5. João Silva

    apenas mais um pequeno passo para o futuro Partido Liberal que andamos a discutir no FB😛 peço desculpa Carlos mas tive de meter o dedo na ferida

  6. M. Coquim

    Carlos,

    Faltou mencionar o regime de excepção que vigora actualmente para os militares das Forças Armadas, pessoal da GNR e da PSP. Como é sabido, cada uma destas instituições possui o seu sistema próprio de assistência na doença. O governo anterior, através da Resolução do Conselho de Ministros nº 5/2015, publicada no Diário da República nº 15 – I Série de 22 de Janeiro, tentou pôr alguma ordem na casa, mas sem alterar o modelo de seguro em que assentam.
    No que concerne à assistência na doença, coexistem assim dois modelos – um para os cidadãos de primeira ( os servidores do estado ) e outros para os demais cidadãos – sem que se vislumbre uma mudança de paradigma.
    Curiosamente, em Espanha, foi pela mão de Filipe González, creio que em 1992, que se instituiu um modelo único de segurança social e um sistema único de assistência na doença!
    Para quando, em Portugal, a adopção da mesma medida ?

  7. André Miguel

    E isto já não viola o princípio da igualdade, confiança e essas cenas que a malta tanto gosta da nossa constituição???

  8. lucklucky

    “E isto já não viola o princípio da igualdade, confiança e essas cenas que a malta tanto gosta da nossa constituição???”

    O Tribunal Constitucional não existe para proteger a Constituição mas para dizer onde, quando e por quem pode ser violada.

  9. A ADSE está a necessitar de mais receitas. É tão simples quanto isso. Só adere quem quer.
    E os hospitais privados só têm médicos (profissão liberal para quem não sabe) com acordo ADSE porque isso lhes é vantajoso.
    A Direita vê o papão do socialismo em tudo… tristes figuras!
    Razão para ter medo dos socialistas teve a família Romanov.

  10. Baptista da Silva

    Eu sou cidadão de meio termo, pago SNS e seguro de saude, mas são 50 euros/Mês e a ADSE ganha-me aos pontos.

  11. Ricardo Arroja

    “A abertura da ADSE a outras pessoas que não funcionários públicos (e respectivos familiares) “não faz sentido”, porque “estaria a alargar o acesso de utentes aos hospitais privados com prejuízo claro para o SNS”. Por isso, “a ADSE deve manter-se como um sistema fechado aos funcionários públicos e às suas famílias”.”

    Inacreditável.

    Excelente post Carlos.

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