O “austeritarismo despesista”

austeritarismo despesista Enquanto o resto do país os votava à mesma indiferença que habitualmente lhes dedica, os senhores deputados à Assembleia da República e os membros do “Governo da iniciativa do PS” entretiveram-se ontem e hoje a discutir a proposta de Orçamento de Estado que os segundos congeminaram. Procurando defender-se das críticas do PSD (algumas delas ajuizadas), o Ministro das Finanças Mário Centeno, repetindo aquilo que o Ministro da Propaganda João Galamba lhe terá dito para dizer, declarou que o Orçamento “não pode ser ao mesmo tempo austeritário e despesista”, acusando assim os seus opositores de serem incoerentes (ou pouco perspicazes) nas críticas que lhe fazem.

A tirada é bem pensada (o Ministro da Propaganda não pode ser acusado de não ser esperto), mas não escapa à evidência: o Orçamento pode ser “ao mesmo tempo austeritário e despesista”, e é efectivamente “ao mesmo tempo austeritário e despesista”. Não é, aliás, uma grande inovação. Nisto, os drs. Costa e Centeno limitam-se a repetir as proezas do governo anterior (e, para ser honesto, dos seus antecessores imediatos). Tal como se passava com os Orçamentos do governo de Passos Coelho, o projecto hoje aprovado no Parlamento estabelece uma carga fiscal que é “ao mesmo tempo” demasiado alta para que os portugueses possam prosperar e insuficiente para cobrir o volume de despesa com que se compromete. Tal como acontecia com o governo anterior, Costa e Centeno sabem que para serem despesistas para uns têm de ser, “ao mesmo tempo”, austeritários para outros. Os grupos de interesse e as clientelas a que se pretende agradar e “estimular” podem mudar consoante a cor partidária que se alça a São Bento, mas o princípio orientador é o mesmo: dar o mais possível a quem se julga que poderá retribuir em votos, indo buscar tanto quanto possível aos restantes, e atirando a diferença entre as duas parcelas (vulgo “défice”) para o futuro (com juros).

Infelizmente, e apesar do que diz Centeno, o “austeritarismo despesista” não só é possível como, em Portugal, parece ser a única alternativa possível. Enquanto o PS, como se tem visto, parece querer apenas mais do mesmo (o estatismo centralizador que, a partir de um qualquer Ministério lisboeta, define tudo pelo país fora, desde os programas escolares aos tempos de espera máximos nas urgências hospitalares, passando por quem vai para cada escola e a cada hospital; o “estado social” pretensamente igualitário, que ao querer dar tudo a todos, quer precisem quer não precisem, acaba por dar demais a quem não precisa, e pior, de menos a quem precisa), o PSD limita-se a propor menos do mesmo (o mesmo estatismo, apenas ligeiramente mais parcimonioso e consciente dos constrangimentos a que estamos sujeitos). Ninguém propõe algo que seja diferente e melhor. Enquanto assim for, este país não sairá do seu lento mas continuado apodrecimento.

16 thoughts on “O “austeritarismo despesista”

  1. Tiro ao Alvo

    “de mais a quem não precisa, e pior, de menos a quem não precisa”
    Não quereria escrever “de mais a quem não precisa, e pior, de menos a quem precisa”?

  2. Fernando S

    Bruno Alves : “Enquanto o PS, como se tem visto, parece querer apenas mais do mesmo (…), o PSD limita-se a propor menos do mesmo (o mesmo estatismo, apenas ligeiramente mais parcimonioso e consciente dos constrangimentos a que estamos sujeitos).”

    Com a sua abstenção militante nas ultimas eleições legislativas, o Bruno Alves contribuiu objectivamente para o “mais do mesmo [estatismo]” do actual governo PS aliado com a extrema esquerda !!

  3. Fernando S

    Carlos Conde,

    A tua analogia é sugestiva mas não serve para o efeito.
    A população de uma pais vai melhor ou pior, não morre nem desaparece de uma vez.

    PS : Dito isto, se porventura “tivesse de ser eutanasiado” “preferiria” um método com um menor sofrimento fisico e psiquico.

  4. Carlos Conde

    A única opção era o calibre da arma o método a utilizar não era passível de opção.

    A diferença entre estes malucos que arranjaram agora emprego no governo e a actuação da equipa que os antecedeu não é significativa.

  5. Portanto para o Carlos Conde, aumentar os impostos para pagar a divida e atingir a sustentabilidade é exactamente o mesmo que aumentar os impostos para sustentar a clientela e de permeio criar ainda mais divida…

    É uma lógica no mínimo curiosa.

  6. Fernando S

    Carlos Conde : “A única opção era o calibre da arma o método a utilizar não era passível de opção.”

    A limitação das opções torna a analogia ainda menos adequada …🙂

    .
    Carlos Conde : “A diferença entre … [o actual] governo e a actuação da equipa que os antecedeu não é significativa.”

    Não sei o que é exactamente uma “diferença significativa”.
    Mas, por pouca que seja, a diferença é suficiente para justificar opções.
    Quanto mais não seja entre o mal menor (bem maior) e o mal maior (bem menor).
    O que se está agora a ver em directo !!….

  7. Carlos Conde

    2 factos que não devem esquecer:
    Em Maio de 2010: « Passos Coelho começou hoje por pedir desculpa aos portugueses por ter dado o seu apoio ao Governo. Para o líder do PSD isso só aconteceu porque “quis salvar o país de uma situação que seria desastrosa” e porque as condições que impôs, nomeadamente um corte na despesa permanente mas um aumento temporário nos impostos foram aceites» permitindo assim o prolongamento do consulado do 44.
    Em Dezembro de 2015: « PSD viabiliza Retificativo com abstenção»

  8. JP-A

    Ou estes tipos estão mesmo a preparar-se para fazer o orçamento de 2017 em Outubro [sabe-se lá como] para não dar tempo de se saber sequer como a terra vai, ou são mesmo doidos. Diz que o Vieira da Silva afirmou na AR que “os senhores perderam as eleições”!🙂

  9. JP-A

    Diz agora um que este é o “tempo novo” com o apoio dos portugueses🙂
    Deve ter estado a ouvir o Vieira da Silva, ou então também já acredita no que diz.

  10. Oliveira

    Boa noite,
    Este é o meu primeiro comentário neste blogue (que acompanho diariamente). Muitas vezes concordo com o que aqui se escreve, muitas vezes discordo. Mas escrevo este comentário para felicitar um dos artigos mais lúcidos que já li sobre o OE para 2016. Pelo simples facto de não estar infetado pela mesquinhez cega nem dos salvadores nacionais do PS nem dos saudosistas do poder pafista.

  11. Não sou economista e não vou entrar em questões técnicas. Mas parece-me haver uma diferença significativa, que passa despercebida ao autor deste texto, entre a politica de impostos do anterior e do actual governo. Parece-me pacifico que apesar do sacrifício económico que significou para uma grande parte dos portugueses (políticos e banqueiros não incluídos), na realidade o crescimento económico de 1.5% no último ano provava que o caminho estava correcto, e estando correcto os cortes que eram “definitivos” mais tarde ou mais cedo deixariam de o ser. Recordo também a descida do desemprego (não me venham, com a léria da emigração porque ela existe desde os anos 60) e recordo a descida do défice das contas públicas, que seguramente, com as mesmas politicas, nos próximos anos iriam resultar em criação de mais emprego e estabilização da despesa do Estado, podendo aí sim, permitir debater que modelo de Estado queremos.

    Dizer que não vê grandes diferenças entre um governo que assumiu o dano para certas classes sociais ou tipos de rendimentos, com cortes salariais ou impostos mais elevados, é a mesma coisa que impostos ao consumo que apanham todos por igual e prejudicam especialmente quem.. tem menores rendimentos. Isto já para não falar da competitividade da indústria portuguesa, com os preços do petróleo a descerem, mas que não vão beneficiar a nossa produção industrial perante a concorrência estrangeira, onde a descida do petróleo se fará sentir na descida dos combustíveis.

    Significativo, significativo será que o autor do texto deve ser tão “estatista” lisboeta como os que identifica no texto… Sem provocação até porque não alinho na ilusão do Grande Norte dos tipos do Porto…

  12. Errata. Onde está “Dizer que não vê grandes diferenças entre um governo que assumiu o dano para certas classes sociais ou tipos de rendimentos, com cortes salariais ou impostos mais elevados, é a mesma coisa que impostos ao consumo que apanham todos por igual …” devia estar “Dizer que não vê grandes diferenças entre um governo que assumiu o dano para certas classes sociais ou tipos de rendimentos, com cortes salariais ou impostos mais elevados, e outro governo que aumenta os impostos ao consumo que apanham todos por igual …”

    Onde está “com os preços do petróleo a descerem, mas que não vão beneficiar a nossa produção industrial perante a concorrência estrangeira, onde a descida do petróleo se fará sentir na descida dos combustíveis.” devia estar “com os preços do petróleo a descerem, mas que não vão beneficiar a nossa produção industrial perante a concorrência estrangeira, onde a descida do petróleo se fará sentir na descida do preço dos combustíveis”.

  13. Pingback: Os 100 dias de Costa – O Insurgente

Deixar uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Alterar )

Connecting to %s