O pai, o filho e o neto da democracia IV

Filho de João Soares? Não é tacho, é talento, por Diogo Faro no semanário Sol.

(…) “Essa malta das jotinhas é só tachos!”. A questão é que o talento do mini-Soares é tanto que nem disso precisou, basta passar os olhos pelo CV do craque. Licenciatura e mestrado em História e passagens de meses por cargos de secretariado e produção. Que máquina, que percurso brilhante! Aliás, é tão distinto que o perfil dele se evaporou do Linkedin desde que as notícias começaram a rolar. Era tão bom que se tornava injusto para o resto do mundo, com certeza, e não há necessidade de usar o seu talento para sambar na cara das pessoas que têm que trabalhar 30 anos e terem 45 alíneas no CV para receber o que o príncipe vai receber – 2800€/mês. Leva é já 4600€ de bónus no primeiro mês por ter omitido no CV, por pura humildade, o MBA em Londres, os anos como Director de Produção do Cirque du Soleil e a viagem de 3 anos por todo o mundo com 6 meses de voluntariado na Somália. Um anjo iluminado.

A verdade é que a parte visível do CV é de fazer inveja a qualquer um. Talvez não exactamente a qualquer um, mas pelo menos a quem ainda não se conseguiu inscrever nas Novas Oportunidades e a um ou outro analfabeto. “Ai, mas a CML disse que o contratou porque, começando pela licenciatura em História, ele tinha o perfil ideal para gerir eventos culturais”. Acho correctíssimo. Não queremos Feiras Medievais produzidas por bons produtores de eventos que acham que “bobos da corte” são os portugueses aos olhos de quem lhes atira areia para a cara.

Claro que, para tudo isto, ser filho do actual Ministro da Cultura e ter ido exactamente para esse pelourinho da CML é uma coincidência tão pura quanto um puto sem mãos ter 5 a digitintas e ser filho da professora de Expressão Plástica.

Por favor, queixem-se menos e trabalhem mais. Se houvesse uma alta taxa de desemprego, ainda percebia toda a indignação que isto gerou. Agora, assim? Poupem-me. Enquanto não perceberem que este país não é para velhos, nem para jovens não-partidários nem não-parentes de partidários, nem para quem acha que a meritocracia não devia ser uma ilusão, nem para quem tem ambições, nem para o Yannick Djaló, nem para quase ninguém, então vão andar sempre desiludidos. (…)

Leituras complementares: O pai, o filho e o neto da democracia, O pai, o filho e o neto da democracia II e O pai, o filho e o neto da democracia III.

2 thoughts on “O pai, o filho e o neto da democracia IV

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