Mistérios do OE2016

Os orçamentos do estado são com elevada frequência exercícios criativos. Com o PS, a criatividade não raras vezes roça o onírico. Este orçamento, dos mais mal feitos, mais desleixados e mais pobres do ponto de vista conceptual de que me lembro, está carregado de inconsistências, coisas escondidas, etc. Para além, é claro, das escolhas erradas: todas. Mas há uma que me parece verdadeiramente extraordinária: a receita contributiva prevista.

RemCont

            Fonte: Ameco, 2015 e 2016 OE2016

Como é fácil de ver, e seria sempre de esperar, as contribuições sociais acompanham a evolução das remunerações totais na economia. Há ali uns picos de receita, mas são facilmente explicáveis. Os de 2013 e 2003 estão associados a regimes especiais e temporários de regularização de dívidas à Segurança Social. Quando não se encontra mais nada para safar o orçamento, há um perdão. Esta é a menos gravosa das justificações.

Para 2016, nada do género se antecipa. Esta afluência de receita contributiva não estava sequer prevista no Esboço de Orçamento do Estado. Entre esse documento e esta proposta de orçamento, vá-se lá saber porquê, Centeno e Vieira da Silva cozinharam não se sabe como mais 900 milhões de euros. Ao todo, há em 2016 1.300 milhões de euros a mais em contribuições do que em 2015, um acréscimo mais que duplo da evolução prevista para as remunerações (6,3% vs. 3,1%). Reparem; não é 1.302 ou 1.297 milhões a mais que se arredondam aqui para facilidade de exposição, não: é rigorosamente 1.300 milhões. Um acaso feliz.

Centeno, questionado em Comissão Parlamentar sobre o mistério da multiplicação das contribuições sociais, remeteu para Vieira da Silva, que deverá comparecer amanhã no Parlamento (comissão). Aguardo com expectativa a explicação deste passe mágico.

 

4 thoughts on “Mistérios do OE2016

  1. JP-A

    Outro mistério:

    “Era uma conta satírica e de paródia ao primeiro-ministro. Agora, o Twitter decidiu suspender o perfil fictício de Costa. Autores da página não foram notificados. PS garante que não denunciou a conta.”

  2. Os administradores delegados fazem orçamentos criativos para apresentar aos acionistas, quando prevêem que um orçamento realista seria sinónimo de não recondução no cargo.
    Os acionistas entendem a criatividade e aprovam os orçamentos criativos sempre que não têm ninguém para substituir o atual administrador delegado.
    Assim aconteceu na Portugal S.A.. É a vida…

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