Carta aberta ao Exmo Sr Doutor Mário Centeno

kafka2

Exmo Sr Doutor Mário José Gomes de Freitas Centeno, permita-me que o trate por Vossa Exa dado o seu currículo que, neste sítio feito de ignorantes como eu, é algo de absolutamente extraordinário e digno das mais sentidas vénias. Infelizmente nem todos nós , intelectualmente limitados, lhe reconhecemos o génio mas pronto, ter aceite o lugar de Ministro das Finanças sujeita-o à opinião pouco esclarecida de comerciantes, taxistas e cabeleireiras. Escrevo-lhe para lhe contar uma pequena história e pedir-lhe que a tome em atenção, queira Vossa Exa perdoar o atrevimento deste vosso criado.

Em 2009, quando o seu Partido governava este pobre país, era sócio gerente de uma pequena empresa fundada em 2001 após actividade como empresário em nome individual desde 1996. O crescimento e, quero crer, alguma sorte e muito trabalho fizeram-me tomar a opção de recorrer a investimento de outras pessoas e constituir uma sociedade de responsabilidade limitada. Nesse ano (2009) quando o Governo do seu Partido baixava o IVA e aumentava os salários dos funcionários públicos, já nós lá na pequena empresa tínhamos congelado aumentos dos mesmos um ano antes e procurávamos maneira de reduzir custos. Já tínhamos clientes a falir, crédito mal parado e levávamos porrada (perdoe a linguagem) de todo o lado. Em 2010 começámos a fechar pontos de venda, clientes faliram e ficaram a dever-nos o equivalente, nesse ano e respeitante a vendas de 2009, a 10% das vendas, dinheiro que nunca recebemos mas cujos impostos (IVA e IRC) pagámos como bons cidadãos contribuintes.

Em Outubro de 2010 após a tentativa infrutífera de dinamizar a economia através de uma despesa do Estado estratosférica (enquanto nós cá em baixo andávamos aos papéis já a tentar sobreviver) que, nitidamente, atirou com a dita para o terceiro círculo do Inferno, o seu colega Exmo Sr Doutor Teixeira dos Santos dizia que se os juros da dívida pública atingissem 7% teria que recorrer ao FMI. Essa taxa foi atingida em 9 de Novembro de 2010 mas, sacrificando-se eles próprios (bem hajam) pelo interesse público, ele e o Exmo Sr Engenheiro José Sócrates Pinto de Sousa (um abraço) acharam por bem não o fazer. Pois inevitavelmente esse pedido veio, como sabe, uns meses mais tarde já a situação, a nossa e a do pobre Estado, era quase irremediável.

Desde 2011 a 2013 despedi pessoas, renegociei contratos, fiz trinta por uma linha (perdoe a linguagem). Tentei segurar os empregos o máximo que pude. De 1996 a 2008, pessoalmente, fui poupando e acumulando alguns recursos que, pensava eu, me valeriam na velhice (bem sabe que daqui a alguns anos não posso contar com grande coisa da nossa respeitável e fantástica Segurança Social). Entre 2009 e 2013, tentando segurar os empregos que já tinham sido reduzidos em mais de 50% meti todas as poupanças acumuladas nesses anos na empresa que nesse ínterim já tinha passado a micro-empresa. Entretanto, sem mexer nos salários dos que comigo trabalhavam, reduzi o meu próprio salário em 60%.

O fundo do poço foi atingido em 2013, desde aí, creio que em virtude da adaptação às novas regras não-escritas do funcionamento da nossa economia, a micro empresa foi recuperando, com o apoio do Millennium BCP e dos fornecedores. Apesar dessa recuperação não me foi possível aguentar mais tempo os postos de trabalho que restavam, o volume de facturação e as margens não o permitiam. Assim, em Janeiro de 2015 passámos a nano-empresa. Seja como for, lá na nano-empresa e em outras dezenas ou centenas que conheço, sentiu-se uma recuperação que nos parecia sustentável a partir do primeiro trimestre de 2014. Ficámos optimistas outra vez (apesar da perseguição fiscal a que fomos sendo sujeitos mas pronto, tudo pela Pátria, tudo pelo Estado) e vá, no que nos respeita 2015 foi um excelente ano. Trabalhámos muito, regressámos aos lucros e a coisa parecia-nos risonha para o futuro.

Até que VExa e os seus camaradas, legitimamente, apesar de ao arrepio da vontade dos eleitores, foram escolhidos por cento e tal pessoas para nos Governar. O que me parece bem, o socialismo é no fundo a expressão da vontade de uma ou outra casta, que isto da vontade do povo ignorante deve ser controlado pela vanguarda esclarecida.

Nesta altura, considerando o enorme currículo de VExa e a sabedoria que tem ao longo dos anos derramado sobre nós, pobres ignorantes, quero crer que sabe o que anda a fazer. Bem sei que o que tem proposto desde que o Exmo Sr Doutor António Costa (Deus o proteja!) o escolheu, contradiz tudo o que tem escrito e afirmado ao longo dos anos. Por exemplo, sei que leu, perdão escreveu, “Trabalho, uma visão de mercado” e que foi co-autor de um estudo do Banco de Portugal sobre o salário mínimo que desaconselha o seu aumento nesta altura. Apesar de a sua acção desde que se projecta como Ministro das Finanças contradizer tudo o que foi fazendo ao longo de muitos anos e que provavelmente defendeu no seu doutoramento em Harvard (vénia, vénia, vénia) continuo com Fé em Vexa, esteve com certeza errado a vida toda e finalmente viu a luz. Bem haja. Queira no entanto descansar-me. Garanta-me que quem vai pagar o aumento do ISP não sou eu mas sim o meu carro. Que a periclitante situação das finanças públicas não se vai deteriorar à custa do favorecimento do rendimento dos funcionários públicos (a quem agradeço o esforço e sacrifício de cuidar pelo meu bem estar) e dos pensionistas ricos (são velhinhos coitados) que me entram em casa pela TV, levando quiçá a novas dificuldades não vá a DBRS fazer o seu papel. Sabe, é que se me obrigam a regressar a 2011 já não tenho poupanças que me permitam fazer sobreviver a nano-empresa. Além disso em 2009 éramos dois a garantir o rendimento cá de casa e agora sou só eu. Desde a bancarrota do Estado fiquei sem quase nada, restou-me o trabalho (muito) e quero crer que VExa vai ter o cuidado de não o por em jogo porque já não tenho mais nada para lhe oferecer.

Há uns anos escrevi uma carta destas a um antecessor seu no Ministério da Economia e ofereci-lhe alheiras pelo correio. A si não o posso fazer porque já não as posso pagar. Fica a intenção.

 

Melhores cumprimentos

Helder Ferreira – nano-comerciante

7 thoughts on “Carta aberta ao Exmo Sr Doutor Mário Centeno

  1. CarlosPinto

    Felizmente temos a liberdade de dizer o que queremos e expor a nossa opinião…conquistas de abril…infelizmente não serve de nada porque quem deve ouvir é surdo….um dia ficarão a votar sozinhos neles próprios.

  2. armando azeved

    todos estes papagaios de palavras baratas queriam que um ministro recem empossado que em 60 dias reposece aquilo que o anteror governo desfalcou .amigos vejam só o portas com tanta raiva de não pertencer ao governo até saíu do cds o coelho agora anda á caça do falhanço deste governo pra ser dono do país senão vejam só (não me voltem a chamar para eu ser bonbeiro do governo ) esse que pague á segurança social e preste contas ao país do que ele levou pra casa ou foi têso

  3. Luis Silva

    A liberdade conquistada em ABRIL permite, além deste tipo de DESABAFO, o “estrangulamento” do Zé Povinho e, perdoem-me os desempregados ansiosos por um milagre, o “abafamento” dos que, nos dias que correm, fazem das tripas coração para sobreviver e manter os poucos postos de trabalho nas suas nano ou micro-empresas (tenho adiado a entrada neste mundo de dores de cabeça mas este ano lá terá de ser porque com 50 anos estou “velho” para ser elegível …).
    O Zé e a Maria enquanto ansiarem por um qualquer cartão de “beneficência”, vulgo CUNHA, continuarão a ser esmifrados (a menos de um qualquer direito adquirido), seja por quem quer que esteja no TACHO!
    SOLUÇÃO: eu sei qual seria mas os meus REBENTOS “impedem-me” de dar início À REVOLTA!

  4. “Até que VExa e os seus camaradas, legitimamente, apesar de ao arrepio da vontade dos eleitores, foram escolhidos por cento e tal pessoas para nos Governar. O que me parece bem, o socialismo é no fundo a expressão da vontade de uma ou outra casta, que isto da vontade do povo ignorante deve ser controlado pela vanguarda esclarecida.” Este parágrafo é esclarecedor das ideias de quem o escreveu… daí que tenho algumas dúvidas sobre a veracidade da estória. Aliás estórias tristes como esta existiram muitas, nomeadamente no decorrer dos últimos 4 anos. Estórias que terão sido tantas como foram as dezenas ou centenas de milhares de portugueses que não sentiram, tal como o Hélder Ferreira sentiu, a “(…)recuperação que nos parecia sustentável a partir do primeiro trimestre de 2014. (…)” e acabaram por sair do país. A verdade não está neste ou naquele lado, com este ou com aquele dirigente político, com esta ou com aquela teoria económica. O que vejo nas opiniões escritas é uma divisão política que toma formas de divisão “clubística”. Defende-se e ataca-se como quem defende o “seu” clube. Ou seja, a defesa e/ou o ataque às diferentes posições são feitas com parcialidade, com o recurso à mentira, por vezes descarada. Isto de ambos os lados da barricada… O que eu vi, foi:

    – Depois de a “direita” ter ficado como a formação com o maior número de votos nas legislativas de 2015, porém abaixo dos 40%, e a “esquerda” com os 2ª, 3º e 4º lugares, porém com mais de 50% dos votos, pareceu-me indiscutível que a maioria dos votantes (relembro, mais de 50%) estava a favor de uma mudança de política. Como é possível ainda existir quem defenda que “(…) Até que VExa e os seus camaradas, legitimamente, apesar de ao arrepio da vontade dos eleitores, foram escolhidos por cento e tal pessoas para nos Governar (…)”? E que continue a achar que perante a política de “salvação” do anterior governo PSD/CDS, o novo governo tem uma política de “desgraça”…? Será possível ser-se, racionalmente, tão parcial? Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão… Não existem soluções milagrosas e, passados que foram 4 anos de uma política que não terá sido a melhor para mais de metade dos portugueses que se interessam e votam, e votaram na mudança, como quereriam aqueles, que tendo tido menos de 40% dos votos, manter uma política que apenas expressava a vontade de uma minoria, uma minoria considerável mas, contudo, uma minoria?

    Como portugueses devemos fazer um esforço, cada um de nós, para que o país vá para a frente. Um pequeno esforço de cada um serão 10 milhões (10 000 000) de esforços e que poderão servir para nos erguer como país. Se a este esforço, que apenas depende de nós, se juntar um combate, eficaz, a todo o tipo de corrupção, estou em condições de garantir que um crescimento de 2%, 3% ou mais, será possível. Assim todos o queiramos e façamos o esforço que o nosso Pais merece. FORÇA PORTUGAL!!!

  5. Pingback: Bostas | O Insurgente

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