A cátedra dos jumentos

kafka2A necessidade do transcendente é imanente (perdoe-se-me a contradição) à condição humana. Nesse sentido percebe-se que a maioria dos ateus substituam a religião por outra coisa qualquer, nomeadamente as ideologias com ênfase nas totalitárias que para tudo têm resposta. Vem isto a propósito de ter ouvido hoje (com grande esforço e sacrifício, sublinho) a Dra Elisa Ferreira, prestigiada figura do meu Porto, a debitar asneira na ETV. Percebo que pessoas menos prestigiadas que a Dra Elisa Ferreira como a menina Mortágua ou o Professor Louçã, em virtude da fé, andem pelos quelhos onde se parece mover a senhora para quem o dinheiro dos contribuintes é o “dinheiro do PS”. A Fé é de difícil discussão. Ora bem, falando de cátedra, como falam quase todos os ignorantes, a insigne figura portuense, queixava-se dos baixos impostos e burocracia(!) sobre as empresas neste ou naquele país (Holanda por exemplo), chama-lhe imoral e pouco ético. Insurgia-se conta a Zona Franca da Madeira e a a race to the bottom da concorrência fiscal no que respeita às corporate taxes. Infelizmente, a cada pouco, lá tenho que vir eu com esta história. Já são dois artigos no DE e vários posts neste blogue.
Ora bem, para a Sra Dra “Dinheiro do PS”, com certeza são os carros que pagam o IUC ou o ISV, não são pessoas. Saiba que uma empresa é um objecto ainda mais inanimado que um carro e, pior, abstracto. Ou seja, pode dizer-se que as empresas pagam impostos no mesmo sentido em que se pode dizer que são os carros que pagam o IUC ou as casas que pagam IMI.
No fim de qualquer cadeia fiscal está uma pessoa a pagar o imposto, seja ele qual for. No caso do IRC quem o paga (que são pessoas) depende essencialmente de duas coisas: dimensão e abertura da economia. Assim, pagam-no três tipos de pessoas: accionistas, trabalhadores – sob a forma de salários mais baixos – e consumidores (preços mais altos). No caso dos EUA, por exemplo, dada a dimensão da economia, o IRC recai mais sobre os accionistas que no caso português, por este ter uma economia pequena. Além de pequena é uma das economias mais abertas do Mundo, estando por isso sujeita à concorrência internacional, o que torna a subida dos preços (o IRC seria mais pago pelos consumidores) mais difícil. Ao ser mais aberta torna também o capital ainda mais móvel o que salvaguarda essencialmente os accionistas. Assim, em Portugal, repito, uma economia pequena e aberta, quem paga o IRC? As empresas são ficções jurídicas que só servem para organizar capital e trabalho, empresas pagam tanto os impostos, como os carros pagam ISV ou as casas pagam o IMI. Em Portugal o IRC é essencialmente pago pelos trabalhadores. Ou seja, neste caso, vir com merdas sobre a dicotomia impostos sobre empresas/impostos sobre o trabalho é idiota. Os impostos sobre as empresas somam aos impostos sobre o trabalho, são os mesmos que pagam ambos. Eliminar o IRC (o imposto mais estúpido do Mundo) favorece quem trabalha, investe ou consome, não há mais ninguém a ser favorecido.

10 thoughts on “A cátedra dos jumentos

  1. É imoral o nível de impostos que uma sapataria paga. Não se percebe porque razão o empresário não a instalou na deserto do Sara. Lá, aonde não há estradas, nem água potável, nem esgotos, nem forças de segurança nem estruturas de saúde, etc., é sem dúvida um oásis para quem odeia impostos…
    Só tem um problema. É que lá os sapatos têm pouca clientela!

  2. Gil

    Quer-me parecer que os ilustres comentadores ignoraram uma passagem importante do que o Helder Ferreira disse: “Ao ser mais aberta (a economia portuguesa) torna também o capital ainda mais móvel o que salvaguarda essencialmente os accionistas”. Ou seja, quem tem possibilidade de mudar de ares (entenda-se: quem tem dinheiro), foge ao pagamento de impostos. Que me perdoe o manoloheredia, mas uma pequena sapataria não atingiu esse estatuto. O problema é que esta seria a realidade por muito baixos que os impostos fossem.O problema é que uma Europa nunca será unida enquanto tal puder acontecer.

    A parte desagradável da história não está no pagar de impostos- está no modo como eles são gastos.

  3. joao

    Um bom texto manchado por uma frase da mais ptofunda igorãncia: “percebe-se que a maioria dos ateus substituam a religião por outra coisa qualquer, nomeadamente as ideologias com ênfase nas totalitária”

  4. Jmmc

    Escusava de meter tudo no mesmo saco,pode perfeitamente ser-se ateu e não ser alucinado como os exemplos mencionados no post😉
    Fora isso, totalmente de acordo.

    P.S.: só uma pequena nota, quando atribuímos o título de “imposto mais estúpido do mundo” corremos sempre o risco de ter de rever essa classificação porque os governos trabalham afincadamente para inventar um ainda mais estúpido🙂

  5. Rodolfo

    Hélder Ferreira – Não entendi um ponto. Porque diz que nos EUA, o imposto é pago principalmente pelos accionistas? No meu entender, se o imposto entra em jogo, a relação rentabilidade/valor da empresa diminui e portanto afasta investimento das empresas. Também penso que quanto mais dinâmica e fluída uma economia é, mais o imposto é partilhado pelos intervenientes (accionistas, trabalhadores e consumidores). É claro que há outros factores, como a existência de barreiras na economia. Por exemplo, a dificuldade em despedir pessoas, ou as taxas de financiamento elevadas, coisa que Portugal anda sempre na linha da frente nos rankings europeus.
    Além disso, penso que o Hélder deve fazer uma distinção aqui entre ‘patrões’ e ’empregados’. Ambos são incluídos no conjunto dos ‘trabalhadores’ pelo Hélder, mas não são percepcionados como tal pelo resto da população. Olhando nesse sentido, o IRC em Portugal (já que Portugal tem bastantes barreiras) cai bastante nos ‘patrões’.
    Corrija-me se estiver errado🙂

  6. É claro que o custo do IRC é transferido para os trabalhadores e consumidores.

    Só os estadistas e socialistas é que não conseguem ver isso.

    A minha dúvida é se são mesmo cegos ou se são burros.

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