Como se escreve uma boa crónica

 

Não é frequente ler-se uma boa crónica. Menos ainda uma excelente. Tive essa sorte no número de Dezembro da revista ‘The Oldie’, num artigo de William Cook sobre a sua viagem a Dresden, na Alemanha. Ou melhor: sobre as suas muitas viagens àquela cidade descaracterizada pelos bombardeamentos aliados na Segunda Guerra Mundial e após 40 anos de ditadura comunista.

Cook intitula a sua crónica de ‘Dresden’s miracle rebirth’. Ele começa-nos por contar que o seu pai nasceu naquela cidade durante a guerra e sobreviveu aos bombardeamentos de 1945. A primeira vez que Cook conheceu Dresden foi em 1995 e viu uma cidade cheia de 50 anos feridas. No entanto, foi regressando ao longo dos anos e sempre que o fazia encontrava-a melhor. Mais animada, mais arrumada, mais organizada, desenvolvida. Um sítio onde o bem-estar e a melhoria do nível de vida se sentia (e se sente) ao virar de cada esquina. A partir daqui, Cook guia-nos pelas principais atracções da cidade. Algo que faz muito rapidamente até porque o artigo não é longo, duas páginas apenas, ainda por cima com uma enorme fotografia da Frauenkirche de Dresden numa, e um anúncio à The Oldie Travel Insurance, na outra.

É a partir de certa altura, já perto do fim, quando Cook nos conta que no decorrer da sua última viagem decide visitar a casa onde o pai nasceu que a crónica atinge o seu auge. Ele esclarece-nos que, como a casa fica nos arredores, não foi atingida pelas bombas e ainda existe. Depois de convencer os seus actuais donos a entrar, dirigiu-se e deixou-se estar por uns momentos no quarto onde o pai nasceu e a avô assistia aos bombardeamentos pela janela. Ela fê-lo até ao dia em que apanhou o último comboio para Hamburgo antes da chegada do Exército Vermelho. Nessa outra cidade alemã, a avó partiu para Inglaterra onde viveu, o pai de Cook cresceu, mais tarde conheceu a mãe deste e ele depois nasceu. E é quando o cronista nos conta isto, ao mesmo tempo que contempla o quarto da avô e pensa na sorte que teve em existir e ser feliz, que nos tira o tapete do pés e nos faz perceber que está a compreender porque razão se encontra ligado a Dresden e a tem visitado tantas vezes durante tantos anos. É que, ao mesmo tempo que escreve, e se assim não é assim o parece, Cook compreende que, tal como aquela cidade, também a sua família, a sua avô, o seu pai e ele próprio renasceram. Naquele quarto, sobreviveu-se; noutro país, na Inglaterra, a vida surgiu novamente e seguiu o seu rumo até chegar aquele momento em que Cook e Dresden se encontram e se revelam no destino comum que os une.

É nesta altura, bem no fim da crónica, na última linha, que percebemos que o que acabámos de ler, apesar de inserido na rubrica de viagens, depois de um artigo sobre uma estância de esqui e antes doutro sobre uma viagem ao Japão, que não estivemos a ler um texto sobre um destino turístico, mas uma viagem pessoal, interior, de um homem e de uma cidade. Sabemos que fomos enganados e ficamos agradecidos por isso. Porque são partidas deste género que fazem uma boa crónica, que causam uma surpresa que vale a compra de uma revista.

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