Um primeiro-ministro do CDS

1935486_10205638048765662_4588638628608411649_nO CDS pode, nos próximos 10 anos, eleger um primeiro-ministro. Esta afirmação pode parecer ridícula num país em que PS e PSD andam há mais de 30 anos a eleger alternadamente primeiros-ministros e numa altura em que a última sondagem dá menos intenções de voto ao CDS do que a Tino de Rans. Mas, também por isso, é a melhor altura para fazer esta reflexão.

A estratégia do CDS de Portas foi clara e tinha duas vertentes. A primeira era escolher um segmento alvo para cada campanha (os pensionistas, os contribuintes, os agricultores…). A segunda vertente era ter um discurso ao centro, semelhante ao de PS e PSD, capturando os votos dos descontentes com aqueles partidos. Esta estratégia teve o condão de impedir que o PSD voltasse a conquistar uma maioria absoluta (já lá vão 25 anos desde a última), levando o CDS ao governo duas vezes. A presença do CDS no governo por duas vezes reforçou esses quadros tanto pela prática de governação como pela capacidade de atrair novos talentos. Hoje o CDS é, para todos os efeitos, um partido de governo. Mas o peso do CDS no eleitorado não se alterou substancialmente. Hoje o CDS tem, mais ou menos, o mesmo peso eleitoral que em 1985. Isto acontece porque a estratégia seguida tem limitações óbvias.

Entretanto, o panorama político português alterou-se substancialmente nos últimos anos. A primeira grande alteração foi a forma como António Costa chegou ao poder, acabando com uma tradição de décadas em que o partido mais votado escolhia o primeiro-ministro. Quebrada a tradição, não é de esperar que se um dia PSD e CDS estiverem numa situação simétrica irão abdicar de assumir o poder. Num sistema partidário em que o partido que elege o primeiro-ministro não é necessariamente o que tem mais deputados, mas o maior partido de uma coligação com 50% dos deputados bastará, como Portas defendeu em tempos, que o CDS tenha 25,5% dos deputados para escolher um primeiro-ministro. Se os habituais 50% de deputados pareciam um patamar inalcançável, 25,5%, sendo complicado, não é impossível.

Mas será mesmo possível atingir os 25,5%? Isto leva-nos à segunda grande alteração no panorama político português: a transformação do eleitorado. A bancarrota de 2011 e a queda ruidosa de José Sócrates alteraram o posicionamento de muitos eleitores em relação ao estado, criando um novo segmento eleitoral à direita. Existe hoje um segmento muito maior de pessoas que desconfiam do estado e da capacidade dos políticos em melhorar a sua qualidade de vida (não estou aqui a falar de liberais, que continuam a ser poucos, apenas de pessoas menos estatistas). Estas pessoas não são uma maioria, mas são um segmento razoável. Agradar a este segmento, levará, necessariamente, a perder votos à esquerda. Levaria o CDS a perder a aura de partido simpático tido por alguns eleitores de centro-esquerda como segunda opção, mas também permitiria que o CDS fosse a 1ª escolha de mais eleitores. Ser a escolha firme de 20% do eleitorado pode ser mais valioso do que ser a 2ª escolha de 70%.

Um partido que aspire a ter 25,5% dos deputados (qualquer coisa como 22% dos votos) não precisa de ser admirado ou ter a simpatia de todo o eleitorado. O CDS não precisa, como até agora, de ser a 2ª escolha dos eleitores que habitualmente votam no PSD e no PS. Terá que trabalhar, isso sim, para ser a primeira escolha de 22% dos eleitores, mesmo que isso implique ser a última escolha de 60% deles. Por essa Europa fora não faltam exemplos de partidos (de todos os quadrantes ideológicos) que obtiveram votações a rondar os 30% com um posicionamento que os deixa distantes a maioria do eleitorado. Muitos destes partidos tinham há uma década intenções de voto inferiores a 10% e hoje estão em condições de liderar um governo. O CDS pode-se tornar mais um exemplo. Haja coragem para isso.

(Imagem involuntariamente cedida por Pedro Pestana Bastos)

8 thoughts on “Um primeiro-ministro do CDS

  1. jo

    “Hoje o CDS é, para todos os efeitos, um partido de governo. Mas o peso do CDS no eleitorado não se alterou substancialmente”

    A promeira assunção não toma em conta que o CDS não está no governo. A segunda não passa de uma conjetura que dificilmente será verdadeira.

  2. Rui Ferreira

    Carlos, o CDS não é visto como 2ª opção ou a escolha simpática do centro-direita pelos votantes de esquerda. Conheço vários e eles colocam o CDS em última opção, atrás do PSD. O CDS para estes senhores é “extrema direita”.

    Outro problema que existe, e este é grave e necessita de educação, é que as pessoas menos estatistas não fazem a mínima ideia se “menos Estado” está à dreita ou à esquerda no panorama político português. As pessoas até podem ser menos estatistas, mas muitos votam no partido do pai ou no partido mais populista ou menos corrupto. Ideologicamente, até pode ser possível que hajam muitos portugueses “menos estatistas”, mas boa parte deles acabará por votar em ideias “mais estatisticas” sem saber que o está a fazer.

    Os comunistas em Portugal são tidos como “os tipos simpáticos que defendem a malta”. Ninguém sabe que o comunismo tem no seu ideal taxas de imposto de 100%, que os comunistas são os maiores carniceiros da história ou do nível de proibições que a mesma ideologia impôs ainda recentemente na Europa (por exemplo, proibição de aprender inglês)

  3. António Ramos

    O raciocínio é interessante mas parte de uma premissa falsa: a de que o PSD ou o PS fazem coligação com o CDS se este tiver 22% dos votos, tendo este um discurso extremista. Tal não irá acontecer pois, nessa situação, o PSD fará coligação com o PS (ou vice-versa) e afasta o CDS da possibilidade de ter um Primeiro-Ministro.

  4. Joaquim Amado Lopes

    Carlos Guimarães Pinto,
    A ideia é muito interessante e até poderia resultar com um líder como Nuno Melo ou Adolfo Mesquita Nunes a apelar aos 25% do eleitorado mais realistas e informados. Mas com a socialista Assunção Cristas na liderança, o CDS arrisca-se a ficar mais próximo de ser “partido da lambreta” do que “partido do táxi”.

    Mas esperemos que muitos militantes do CDS leiam este seu artigo. Pode ser que venhamos a ter uma agradável surpresa.

  5. Não soaria a demasiado artificial?
    Para o que propõe é preciso ter uma identidade e soar a autenticidade.
    O CDS hoje está à esquerda do PSD, ainda mais socialista que PPC.

  6. lucklucky

    ccz1 diz tudo, excepto a ultima frase em que não sei quem ultrapssa quem para parecer mais “social”
    Estes conceitos utilitaristas não entendem que as coisas não podem nascer assim.

  7. André

    Esta imagem está incrível.

    Acredito que este cenário possa acontecer, principalmente com Assunção Cristas ao leme (Nuno Melo também tinha estaleca, mas colocar uma mulher agora é bem jogado).
    Se passos Coelho sair da liderança do PSD, essa tarefa fica ainda mais fácil.

  8. lucklucky

    Ah então a Assunção uma das mais Socialistas que até quer controlar o que as pessoas fazem com a sua propriedade é que vai chamar essa direita ao CDS?

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