Isto não se aguenta

Se não fôssemos um país doente, entregue a elites políticas tantas vezes vastamente ineptas e irresponsáveis, um país crente no seu futuro, crente de que tem futuro para além do fim do mês, talvez estivéssemos a discutir isto. Isto é um pequeno quadrinho que tem tudo para ser alarmante, se não se desse o caso de sermos o tal país bêbado, etc., que figura num capítulo final (Caracterização do sistema de pensões da responsabilidade da SS), excepcional, do parecer técnico do Tribunal de Contas à Conta Geral do Estado de 2014, que aqui reproduzo com a devida vénia.

Se não.png

A história é rápida de contar. As pensões são basicamente as pensões de velhice, mas também, numa segunda ordem de importância (€), as de sobrevivência e invalidez. Reza a lenda que deveriam ser financiadas com contribuições dos subscritores do sistema: os atuais pagam a sobrevida dos que já não podem, tal como estes em tempos pagaram para os que então já não podiam (velhos, viúvos, viúvas e incapacitados). E antes de ser lenda, assim foi.

A partir de 2012, como se vê, a coisa mudou: como se sabe, estamos cada vez mais velhos, há muito que temos cada vez menos filhos, a população está a minguar, embora cada um viva cada vez mais tempo.

O reflexo disso é um buraco, que vem sendo coberto por impostos, ou melhor, vem sendo coberto por défice, dívida, em vez de o ser por contribuições pelo atrás descrito regime de repartição, um buraco que é cada vez maior, e se nada for feito só pode ser cada vez maior, uma vez que nenhum dos factores que o originou se adivinha que possa regredir no horizonte antecipável.

Já estamos ali na casa dos mil milhões de euros. Entre 2010 e 2014, anos cobertos pelo estudo, a despesa com pensões do regime contributivo aumentou 12,6%. A receita das contribuições aumentou 0,3%. Naturalmente que algo mais, na margem disto, aumentará, com a melhoria, se e quando ela se verificar, no volume do emprego. Mas trata-se de ganhos sobre a margem do problema.

O contrato intergeracional, esse, foi rompido. Hoje a repartição envolve não apenas a atual geração ativa e a geração passada à inatividade, mas também a geração que ainda um dia há-de ser ativa – é esse o significado do financiamento pela dívida. As próximas gerações pagarão, então, as reformas dos mais velhos de então, mas também parte das reformas dos mais velhos de hoje.

Naturalmente que assim um dia a casa vem mesmo abaixo. Com estrondo.

9 thoughts on “Isto não se aguenta

  1. Como eu gosto de estrondos. São eles que fazem as pessoas ir à vida.
    Se o estrondo for suficientemente intenso pode ser que acabam com aquelas alcavalas dos políticos que o tc disse que é ilegal cortar.

  2. blitzkrieg

    E dizia recentemente o Medina Carreira que o que sobrava de impostos e contribuições, depois de cobrir as necessidades de financiamento do Estado Social, era algo como 3% do PIB. Ou seja, depois do Estado Social, tínhamos uns míseros 3% de PIB para tudo o resto. O pior saldo da União Europeia, com a maioria dos países a ter mais de 10%. Isto significa que temos o maior Estado Social de toda a Europa, vis-a-vis o que pagamos de taxinhas e impostos face ao PIB. O MAIOR ESTADO SOCIAL DE TODA A EUROPA!!! Um país falido, em bancarrota, mantém o MAIOR ESTADO SOCIAL DE TODA A EUROPA. O tal Estado Social que o patriarca Soares considerava uma herança intocável. Que os socialistas querem manter e reforçar. Que os sociais-democratas não conseguiram reformar durante 4 anos. O que realmente, mais cedo ou mais tarde, com ou sem nova Troika, nos vai estourar na cara. E nos bolsos. Em grande.

  3. Hugo Rego

    Que curioso… Esse aumento de necessidade de financiamento coincidiu com o mesmo anos em que o Estado integrou os pensionistas da banca. Na verdade, em 2012 nada mudou – o sector público fez um “negócio brilhante” com a banca. Mais um. Poderemos estar mais velhos mas nem assim mais sábios. Claro que a “cegueira” de alguns artigos de opinião também poderá ter que se lhe diga…

  4. Luís

    Claro que temos o maior Estado Social. Nós gostamos de nos dar ao luxo de ter vários Estados Sociais. Além do «oficial» temos autarquias que oferecem casas e obras domésticas, excursões a Fátima, cheques para a mercearias ou viagens a Cuba. Temos um sector monstruoso de IPSSs e Fundações a conviver com o Estado Social oficial, financiado com o nosso dinheiro. Muitos portugueses esqueceram a família para brincarem aos centros de dia, lares e infantários, mas é à família que vamos regressar.

    Deixo aqui uma história. A minha família tinha uma empregada que fazia 2 ou 3 horas à tarde de segunda a sexta. Não tinha outro emprego de Inverno, e tanto a mãe como a avó estão também no desemprego durante o Inverno. Deixava o filho no infantário, onde pagava 150 euros por mês. Que paga o resto da mensalidade? O Estado, é um infantário da Misericórdia financiado por nós.

    A minha mãe perguntou-lhe por que motivo não deixava a criança com as avós, pois assim pouparia 150 euros e a gasolina das deslocações. Resposta: «nós só podemos fazer a inscrição em Setembro, se precisarmos em Dezembro já não nos aceitam, têm vagas mas obrigam-nos em Setembro a assinar um contrato de fidelização de um ano, e se arranjar emprego a meio do Inverno, depois não terei vaga». A minha mãe sugeriu uma ama. Mas na vila não há.

    E fica aqui um exemplo do desperdício brutal de dinheiro que há neste Estado Social paralelo.

    Em Inglaterra, as amas podem receber crianças em casa e trabalham como trabalhadoras independentes. As pequenas vilas e aldeias estão cheias de casas de amas que trabalham por conta própria e recebem muitas crianças. Vejo-as a brincar nos jardins das moradias. Mas os ingleses são uns tiranos neo-liberais.

  5. tina

    Este é o Estado Social de uma República das Bananas, em que aqueles que fazem as leis, fazem-nas a seu favor, em detrimento do resto da população. Daí as reformas exageradas dos funcionários públicos calculadas com um fator multiplicativo acima da média europeia. Sendo um país pobre, com reformas chorudas, o resultado é este.
    .
    E as más notícias ainda estão para vir. Depois de Pedro Passos Coelho, nunca haveremos de ter mais nenhum primeiro-ministro com a coragem dele para enfrentar a ganância da função pública e dos seus sindicatos, As coisas vão ficar pior, os impostos sempre a aumentar para cobrir as necessidades desses xulos. Basta ver como a partir de agora os funcionários públicos vão começar a trabalhar só 35 horas por semana.
    .
    Quanto a mim, isto não é um Estado de Direito, é social-fascismo puro e vou-lhe abrir guerra à minha maneira. Ter sido parva é uma coisa de que não me quero arrepender.

  6. Luís

    Ferro Rodrigues disse há uns meses que não poderia haver redução da carga fiscal por causa do famigerado Estado Social.

    Fala-se em aumento do IVA para 24% ou 25% e aumentos de outros impostos, IRS ou IMI.

    Alguém terá de explicar como se duplicou a despesa bruta do Estado em 20 anos sem que o PIB crescesse.

  7. Luís Lavoura

    O défice da Segurança Social não é causado pela vida mais longa nem pela falta de filhos, ele é causado pelo aumento do desemprego.

  8. jo

    O envelhecimento paga pelas políticas deliberadas para privatizar a parte lucrativa da SS:
    Os vencimentos médios desceram, o que dificulta a cobertura.
    O desemprego aumentou.
    Foram integrados sistemas sociais que tinham outras fontes de financiamento.

    Nada disto conta para os nossos liberais, porque es«les sabem a verdade,
    N~ºao lhes deixam matar os velhos, logo é necessário tirar-lhes as pensões.

  9. tina

    “N~ºao lhes deixam matar os velhos, logo é necessário tirar-lhes as pensões.”

    Outro hipócrita de esquerda, que vive bem com o facto de haver milhares de reformados públicos a drenarem o Estado social com reformas chorudas de 2000 euros e mais, para as quais só em parte pagaram.

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