Uma grande vitória de Marcelo será uma enorme derrota da direita

Cheating

Algures no país real, marido fora, o canalizador sai de casa da vizinha às duas da manhã. Ela, em roupão de cetim, mal apertado, afirma ofegante que teve uma «inflitração». O marido acredita. A alternativa é pior.

Em Portugal existe um conjunto de eleitores que tudo o que têm em comum é não serem socialistas. Noutros países, este tipo de pessoas está espalhado por todos os quadrantes ideológicos e todo o tipo de partidos. Mas em Portugal convencionou-se chamar a este grupo de pessoas a “direita” (a partir de agora sem aspas).

Marcelo Rebelo de Sousa decidiu que tinha estes votos no bolso e que, por isso, iria lutar pelo eleitorado de Marisa Matias e Sampaio da Nóvoa.  Fê-lo porque pensa que basta estar um passito à direita do candidato mais próximo para garantir o voto de toda a direita. Marcelo tomou para si, várias vezes, a retórica da vergonha em pertencer à direita (ou seja, vergonha de não ser socialista). Alinhou o seu discurso com o daqueles que faliram o país e o farão novamente.

Dar-lhe uma vitória retumbante à 1ª volta é validar a ideia de que só essa retórica ganha eleições. Dar-lhe uma vitória retumbante à 1ª volta é enviar a mensagem ao PSD e ao CDS de que a melhor estratégia para ganhar eleições é ocupar o espaço à esquerda deixado vazio pela radicalização do PS.

O espectro partidário português já é profundamente desequilibrado hoje. Se a táctica de Marcelo for premiada nas urnas, ainda mais desequilibrado se tornará. Se o grande receio em não votar Marcelo é que Nóvoa ganhe as eleições numa segunda volta (practicamente impossível), imagine o que será uma eleição só com Nóvoas daqui a uns anos. É para isso que o voto em Marcelo contribuirá: para que haja cada vez menos alternativas não socialistas.

Enquanto a direita não demonstrar que o seu voto também pode ser perdido e que, por isso, também vale alguma coisa, continuará a ser negligenciada por candidatos e partidos. Não votar Marcelo à primeira volta é um pequeno passo para evitar isso. Com as eleições praticamente decididas (à primeira ou à segunda volta), a perda de votos à direita por parte de Marcelo é a única mensagem positiva que poderá sair de dia 24.

Para lutar por um espectro partidário que a represente, a direita tem que demonstrar nas urnas que não está no bolso de qualquer candidato que se apresente como mal menor. A direita tem que demonstrar que o seu voto também precisa de ser conquistado. A direita de bolso, que vota em todos os candidatos que se posicionam um passito ao lado do PS, tem o espectro partidário que merece.

12 thoughts on “Uma grande vitória de Marcelo será uma enorme derrota da direita

  1. “Nin” .. eu compreendi a questão e tem o seu Q de verdade. Mas acho que poderei dizer que essa questão do Marcelo é um copo meio-cheio , meio-vazio.
    O que pode ser a vergonha de pertencer à direita eu vejo como protecção.
    O que seria duas vitórias seguidas da esquerda sobre a direita? Ainda mais contra o “Grande Marcelo!” Seria o regresso dos Sócrates em grande.

    Em primeiro lugar temos um grande problema: A abstenção.
    E mais do que o seu grande numero , é importante perceber quem faz parte dela. Daquilo que vejo de quem não vota percebo que são precisamente as pessoas que conseguem distinguir propostas plausiveis (mais a esquerda, mais á direita, não importa) de um discurso de bota-baixismo ou de discursos do maravilhoso e do fantástico.

    E isso deixa aqui um problema… quem vota?
    Quer queiramos quer não ainda vivemos nesse país onde se vota “para impedir essa direita malvada” de chegar ao poder.
    Mas e sobre finanças? E a economia? Educação? Etc ?
    Isso não importa. O que é importante é que a “direita malvada não chegue lá!!”
    Este é o país real.. o país desse canalizador que referiu.

    E vai piorar.. há muita gente desiludida com o que se passou. Sim foi um golpe.
    Golpe legal.. mas foi um golpe. As pessoas sentiram que o seu voto afinal não conta. “Se isto é assim para quê votar?” Foi o desabafo mais ouvido… e parece que a abstenção vai ganhar mais adeptos no futuro, infelizmente.

    Para rematar.. talvez não seja vergonha, talvez seja estratégia. Era fácil para a esquerda atacar qualquer candidato de direita, ainda para mais depois de terem ganho .. perdendo.

  2. FilipeBS

    Ser eleitor não-socialista em Portugal é realmente frustrante. Entre uma dezena de candidatos não há nenhum que nos represente.

  3. Manuel M Lopes Rocha

    Discordo da análise do autor por vários motivos.

    Sou um eleitor de direita, convictamente liberal, e nada me consegue irritar mais do que a ignorância daqueles que, não tendo outros argumentos, decidem rotular a Direita como sendo defensora da corrupção, dos ricos, dos banqueiros… Tudo isto porque, afinal, somos “neo-liberais” e nunca nos preocupamos com as pessoas, mas sim com os “interesses”. Alias, esta campanha tem mostrado alguns exemplos desta retórica absurda e reveladora de uma grande ignorância. Os partidos de esquerda portugueses, incluindo o “moderado” PS, usam e abusam desta linguagem e, pior, estão convencidos que estão certos. Nunca votaria, pois, num destes partidos.

    Por outro lado, também tenho algumas reservas quanto aos programas e políticas pouco reformadoras de PSD e CDS. Não me conformo, por exemplo, no facto da reforma do Estado ter sido colocada na gaveta durante tanto tempo (e nunca verdadeiramente implementada). No entanto, votei na PaF porque me parecia a única opção viável para que não voltássemos aos anos negros do socialismo português.

    Todavia, faço parte da Direita que votará convictamente em Marcelo e explico porquê:

    As eleições presidenciais, dada a forma como a figura do Presidente está consagrada na CRP, não permitem, aos candidatos com aspirações a vencer, a apresentação de programas com forte tendência para uma ou outra area política. Nem tem o PR poderes que lhe permitam a implementação de um programa desse tipo. Isso é fácil quando se defende uma facção: por exemplo, é muito fácil para Edgar Silva afirmar que vai rejeitar leis que ponham em causa os direitos dos trabalhadores ou Paulo Morais dizer que irá demitir qualquer “governo que minta”. Pode soar bem a uma certa parte do eleitorado, mas não são soluções viáveis.

    E, sejamos francos, o que é que Marcelo poderia fazer para agradar a certo tipo de eleitor de Direita? Dizer que dissolvia a Assembleia da República assim que tomasse posse? Que vetava qualquer lei que lhe desagradasse? Que vetaria qualquer lei relativa ao aborto ou à adopção por casais de pessoas do mesmo sexo? Seriam opções que um candidato de direita poderia anunciar, mas duvido que vencesse as eleições , mesmo à 2ª volta. Estranho também que certa direita, agora tão crítica de Marcelo, sabendo que este tentaria avançar para o centro, não tenha apresentado um candidato próprio: por que é que Ribeiro e Castro, sempre incomodado com toda a gente, não avançou, por exemplo?

    Marcelo não está isento de críticas, pelo contrário. Não concordo com várias opiniões dele, como a sua defesa do Tribunal Constitucional. Mas não tenho dúvidas que é o candidato melhor preparado para exercer o cargo e que está em melhor posição para garantir a estabilidade política que o país precisa, assim como para voltar a aproximar os cidadãos das instituições e dos actores politicos nacionais. Parece-me, por ultimo, que se trata de um candidato verdadeiramente coerente na forma de fazer campanha: não quis cartazes, comícios, jantares e donativos. Que diferença para a candidatura do “tempo novo”…

    É verdade que, por vezes, Marcelo tem um discurso redondo, vago e sem se comprometer com esta ou aquela posição. Também já teve algumas posições próximas de Costa – mas isso significa que “alinhou o discurso por aqueles que faliram o país e que o vão fazer novamente”? Tenho visto um candidato a fazer isso: Sampaio da Nóvoa, que não cessa de expressar o seu agrado pela actual coligação de esquerda, de afirmar o seu amor pela escola pública e pelos valores de abril. Curiosamente, é o mesmo cuja campanha tem vindo a ser sustentada pela máquina do PS e por financiamentos estranhos, dado o seu elevado montante e o desconhecimento generalizado sobre o candidato Nóvoa. Se Marcelo fosse o preferido de Costa e do PS, que razão haveria para tanto apoio disfarçado a Nóvoa?

    O problema é que, apesar das sondagens recentes, e por mais que o Carlos Gumarães Pinto afaste esse cenário, Sampaio da Nóvoa pode mesmo ganhar. Os eleitores é que decidem e, infelizmente, podem muito bem, numa segunda volta, eleger o verdadeiro candidato do governo de esquerda. Em face deste cenário, e para evitar qualquer esperança de vitória de Nóvoa, que acarretaria consequências bastante negativas para o país e para os portugueses, entendo que o mal menor para a Direita – ainda que descontente – sera a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa à primeira volta.

    Manuel M Lopes Rocha

  4. Joaquim Amado Lopes

    Manuel M Lopes Rocha,
    É-me completamente indiferente quão “de direita” Marcelo Rebelo de Sousa se diga (não diz) ou alguns nos queiram fazer acreditar que é (não é). Marcelo Rebelo de Sousa é um catavento calculista e sem princípios nem qualquer ideia sobre o que será como Presidente da República. Fará a cada momento o que acreditar que ajudará à reeleição, independentemente das consequências para Portugal.
    Pode merecer o seu voto mas de certeza que não merece o meu. Nem à primeira nem à segunda volta.

  5. Miguel A. Baptista

    Não concordo 100% com análise. No entanto num pressuposto deveremos estar de acordo: se os candidatos estivessem todos reunidos (num debate por exemplo) e se lhes lançassem a frase “You’re all a bunch of socialists” poucas vezes ela teria sido tão bem aplicada.

    Resta a curiosidade de quando ela foi originalmente dita (de Mises para Friedman e Hayek) ela foi dita como insulto e os nossos candidatos a aceitariam como um elogio.

  6. lucklucky

    Este texto mostra a essência da situação. Principalmente incentivos e respectivos resultados ao longo dos anos.

    “Enquanto a direita não demonstrar que o seu voto também pode ser perdido e que, por isso, também vale alguma coisa, continuará a ser negligenciada por candidatos e partidos.”

    “Se o grande receio em não votar Marcelo é que Nóvoa ganhe as eleições numa segunda volta (practicacamente impossível), imagine o que será uma eleição só com Nóvoas daqui a uns anos. É para isso que o voto em Marcelo contribuirá: para que haja cada vez menos alternativas não socialistas.”

  7. Fernando S

    Manuel M Lopes Rocha : “faço parte da Direita que votará convictamente em Marcelo”

    Eu também !!

    Dizer que Marcelo tem a vitória assegurada à 2a volta é de uma grande ligeireza.
    Aqueles que preferem mesmo que Marcelo seja o próximo Presidente da Républica (e não Sampaio da Nóvoa) devem votar nele logo na 1a volta.
    Depois pode ser demasiado tarde e insuficiente.

    Muitos daqueles que agora dizem que Marcelo é tão mau ou pior do que os outros candidatos são os mesmos que antes das eleições legislativas diziam que se iam abster ou votar nulo porque a coligação PSD-CDS e o PS eram farinha do mesmo saco, isto é, tudo “socialistas”.
    Eu sei que alguns mudaram de perspectiva nas vésperas da eleição ou, pior ainda mas mesmo assim melhor do que tinham vindo a recomendar, acabaram por votar PàF no segredo das urnas.
    Agora que temos um governo de “maioria de esquerda” que já começou e vai continuar a “reverter” a politica do governo Passos Coelho (a tal que diziam que não era substancialmente diferente da que o PS de Sócrates fizera antes de 2011 e da que o PS de Costa se propunha fazer se fosse governo), gostaria que nos dissessem se ainda acham que o PàF ou o PS no governo é a mesma coisa e indiferente !!

  8. Spartacus Thraex

    No entanto, não dar uma vitória a Marcelo Rebelo de Sousa na primeira volta é arriscar, e muito, ter uma nulidade como Nóvoa como Presidente da República. Remember Freitas.

  9. Joaquim Amado Lopes

    Spartacus Thraex,
    Considerando o que Freitas do Amaral fez depois de 1986, acha que teria sido um Presidente menos “de esquerda” ou “nulidade” menor do que foi Mário Soares? (não confundir o Presidente Mário Soares – em particular o do primeiro mandato – com o ex-Presidente Mário Soares)

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