Keeping up with Marcelo

candidatos Mais por obrigação do que por vontade, assisti a quase todos os debates entre os vários candidatos presidenciais, e a todos aqueles em que participou Marcelo Rebelo de Sousa. Talvez por se achar vários furos acima de todos os seus opositores (e talvez tendo razão), Marcelo disse e repetiu que estaria disponível para todos os debates que quisessem fazer, e pelo menos tanto quanto se sabe, assim foi. De Paulo Morais a Maria de Belém, todos tiveram o seu frente-a-frente com “o Professor”. Mas de todos, o mais interessante (porque mais revelador) foi logo o primeiro, em que Marcelo se sentou à mesma mesa com três candidatos marginais e praticamente desconhecidos: Cândido Ferreira, um médico militante do PS, o palrador motivacional Jorge Sequeira, e Vitorino “Tino de Rans” Silva, que só não é desconhecido porque se tornou famoso como “comic relief” de um Congresso do PS há uns anos.

Cândido Ferreira abriu as festividades com a leitura monocórdica de um discurso escrito, declarando que iria abandonar imediatamente o debate por não estar a ser posto em plano de igualdade com outros candidatos mais relevantes. Seguiu-se Jorge Sequeira, que “acompanhou” as preocupações do candidato leiriense, mas “sem a veemência” do seu predecessor – ou seja, sem abdicar dos seus trinta minutos de fama. O que depois teve lugar foi um autêntico lovefest entre Marcelo e “Tino”: sentados lado a lado, não pararam de tocar no braço um do outro de cada vez que um deles intervinha – sempre com o outro a interjeitar uma qualquer graçola ou elogio -, transformando a discussão numa amigável conversa do tipo que poderiam ter duas pessoas acabadas de se conhecer fechadas numa casa repleta de câmaras para entretenimento dos (cada vez menos)telespectadores com paciência para assistir à coisa.

Assim, este debate acabou por ser um microcosmos da própria “corrida para Belém”: um longo tempo de antena de Marcelo em que até os seus opositores participam, em que nenhuma ideia é discutida mas a sua personalidade é exposta para todos os eleitores verem e admirarem – “uma pessoa normal”, como “Tino” lhe chamou – tão confortável na companhia de Primeiros-Ministros e dignitários internacionais como ao lado de um calceteiro, a compararem alturas e tamanho do pé (felizmente, não abordaram as dimensões de outras partes do corpo), alguém que todos conhecem e com quem estão à vontade. Mas talvez esta familiaridade, de longe a principal força de Marcelo, seja também o seu principal problema.

Como já escrevi, Marcelo é uma espécie de irmã Kardashian ou de Castelo Branco, alguém que entra em nossa casa há anos e no entanto ninguém realmente o conhece.Nas noites de domingo, lá o víamos fazer o seu número, disparando isto ou aquilo sobre a actualidade, mas sempre fazendo de si próprio o centro de tudo. Não fazia comentário político; protagonizava um ‘reality show’ sobre um aspirante a candidato presidencial, que demorou 15 anos a ter o seu desfecho. E agora que parte para uma nova (e mais complicada) vida, não temos ideia do que possa vir a fazer dela. O político que outrora foi, até teve méritos, e talvez – talvez – pudesse ser um bom Presidente. Mas só conhecemos “O Professor” dos domingos à noite, e esse é apenas uma personagem.

Se há crítica que os adversários e críticos de Marcelo têm feito nestes últimos tempos é a de que ele já disse tudo e o seu contrário. Não é verdade: se exceptuarmos os três anos em que foi líder do PSD, em que foi contra a regionalização, e defendeu apolíticas como privatização da CGD ou da RTP, Marcelo anda há mais de quatro décadas a não dizer nada. Nos seus comentários, por entre achegas sobre futebol ou sobre se “a pequena Maddie” será ou não encontrada (Marcelo, “um optimista”, acredita que sim), “o professor” reproduzia declarações de outros que no fundo eram meras opiniões como sendo um facto (veja-se por exemplo, a forma como pegou nas declarações do Governador do Banco de Portugal acerca da saúde do sistema financeiro, aceitando-as acriticamente e agora as vê coladas a si como se tivesse ele próprio analisado a questão), e os seus comentários não passavam de uma análise da “eficácia” com que os “agentes políticos” conseguiam “passar” a sua “agenda”, independentemente dos méritos qualitativos das políticas propriamente ditas: recorde-se como elogiou rasgadamente Nuno Morais Sarmento (outro grande exemplo de como em Portugal o sucesso de alguém é inversamente proporcional à vergonha com que se foi abençoado) pela forma como este foi capaz de propor a privatização de um canal da RTP e depois acabar por criar um outro que não existia até então (a actual RTP3, que o foi sempre mesmo quando o nome era outro) – ou seja, não pela política que propôs, mas pela habilidade com que se safou. O problema do “Professor” não é o de ter muitas opiniões contraditórias, é o de as opiniões que se lhe conhecem ao longo da maior parte dos anos de vida pública que leva serem sobre tudo menos aquilo que interessa. Resta-nos esperar que os 5 ou 10 anos que passará em Belém se assemelhem mais aos três em que foi líder do PSD do que aos quarenta em que foi comentador.

6 thoughts on “Keeping up with Marcelo

  1. PiErre

    Como já alguém disse há uns anos, Marcelo é um cínico genial.
    Pelo sim, pelo não, não votarei nele.

  2. acho q a expressão é de Churchill… mas adaptando-a, creio q se pode dizer q Marcelo é o pior candidato, à excepção de todos os outros…

  3. lucklucky

    Não sei o que Marcelo tem de genial. Para isso era preciso existir qualidade no País, algo que não existe.
    Talvez só no futebol, vinhos e pouco mais.

  4. Concordo com tudo o que disse! Encaminha-se para o candidato mais popularista e brejeiro de entre todos! Assemelha-se cada vez mais ao “tipo do boné” mais conhecido como Mário Soares, homem do povo e coisa e tal… Enfim…é triste como um constitucionalista, prof. catedrático perde a presunção e a educação (veja-se o debate com a Maria de Belém e os modos como se referiu à senhora) só para ser eleito a qualquer preço. E ninguém precisa saber quem ele é ou ao que vem… E o povo pelos vistos é do que gosta!

  5. JS

    MarceloRdS, ou qualquer dos outros candidatos, em Belém será apenas uma “ego-trip”.

    Com esta Constituição, em vigor, quem é eleito directamente, em nome próprio, ou seja com justa representatividade -o Presidente da República e os Presidentes das Câmaras- dependem do orçamento que lhe é concedidos pelos não eleitos em nome, os “deputados”.

    Alguns Presidentes de Câmara inventam taxas e empresas camarárias. Se são reeleitos ….
    Os PRs exercem o seu magistério em simples mas muito desejada “ego-trip”.

    Entretanto na AR pura “taxation and spending without representation”.
    Não acham que já chega desta falta de “accountabilaty” ?

Deixar uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Alterar )

Connecting to %s