A nacionalização dos interesses

O meu artigo de hoje no Diário Económico é uma resposta ao de João Galamba anteontem no Expresso sobre o Novo Banco.

A nacionalização dos interesses

Num artigo publicado esta semana no site do Jornal Expresso, João Galamba defende a nacionalização do Novo Banco. Entendendo que a socialização dos custos dos bancos nunca pode ser eliminada, Galamba conclui que a privatização dos ganhos não pode ser um dogma.

Para o deputado do PS, um banco público apresenta vantagens perante o privado porque naquele tanto as perdas como os ganhos são públicos. Ora, vamos lá então ver se vale a pena ser accionista forçado de um banco público: a Caixa Geral de Depósitos recebeu do Estado 900 milhões de euros que ainda não devolveu. Ao que se diz, precisa de mais 400 milhões. Em 2014, teve um prejuízo de 348 milhões de euros; em 2013, de 578 milhões; em 2012, de 395 milhões; em 2011, de 411 milhões. Pouca coisa quando o banco é público.

Mas a história não se fica por aqui: em 2010, quando a CGD também cometia os erros dos bancos privados, o banco público teve um lucro de 250 milhões. Em 2009 registou um lucro de 469 milhões, que se traduziu numa quebra de 46% relativamente a 2008. Ou seja, a CGD, o banco público – tal como os banco privados -, teve lucros na época de ouro, quando o dinheiro era barato e corria a rodos e a fiscalização fechava os olhos. No que é que o comportamento da CGD foi melhor que o dos bancos privados?

Galamba resolve este pequeno grande problema com uma frase: “No caso de bancos públicos, como a Caixa Geral de Depósitos, a socialização das perdas foi precedida por uma socialização dos ganhos, pelo que o problema não se coloca.” Já ouvi esta frase vinda de outro socialista pelo que deduzo que seja uma posição concertada dentro do Partido Socialista. É claro que não interessa a João Galamba que, na CGD, a socialização dos ganhos e dos custos seja forçada.

Não interessa que esses ganhos, que se dizem públicos, sejam utilizados pelo poder político, por pessoas como João Galamba e demais membros da direcção do PS para satisfazer interesses do Estado, que nem sempre são os das pessoas, dos accionistas forçados da CGD. Não interessa porque um banco público serve para muito mais que isso. Serve, e é aqui que está o ponto, como instrumento de manipulação do mercado, de intervenção nas empresas – como sucedeu na PT, na ZON, na Cimpor, na Galp e no BCP. Um banco público serve, entre muitos outros instrumentos utilizados pelo poder político, para encaminhar o país pela via de um desenvolvimento baseado na contracção de dívida. No que à CGD diz respeito, o que está em causa, além da socialização dos ganhos ou das perdas, são os interesses.

8 thoughts on “A nacionalização dos interesses

  1. chipamanine

    este idiota que escreva porque é que só 50% dos maquinistas do Metro compareceram ao serviço na noite da passagem do ano em vez de andar a dizer estas boutades falando de coisas que não sabe nem percebe

  2. Fernand Personne

    E depois? No Natal estavam escalados muito menos maquinistas do que na Passagem de Ano e não houve encerramento nenhum! (jornal da SIC, 20h, 5/1/2016)
    Pois é mas convenientemente “esqueceram-se” que no Natal há muito menos pessoas a viajar de metro e comboio do que na Passagem de Ano!!!
    Daaaaaahhhh…

  3. jo

    Claro que nos bancos privados os interesses dos acionistas e dos obrigacionistas estão todos protegidos. Menos quando o banco estoira porque as administrações, para garantirem prémios chorudos e pagamentos por debaixo da mesa, emprestam dinheiro sem garantias ao pequeno número de acionistas que controla o banco e a alguns amigos. Entretanto os amigos, tudo homens do empreendedorismo privado, vão à falência e não podem pagar as dívidas

    No fim é só vender a parte que têm na coisa antes de dar o estoiro e chamar o Estado para salvar o banco.

    Tem sido a história da banca privada em Portugal nos últimos anos,

  4. Parece então que o problema não é a banca ser privada ou do estado, mas sim da corrupção da classe política tuga. Em Portugal, em ambos casos, o poder político aproveita-se e favorece(u) a banca, como o BES e o sr. Salgado tão bem ilustram!

  5. lucklucky

    guna e porquê? A banca é essencial para um político mostrar que faz coisas.

    Se não há “crescimento” não há emprego, se não há emprego não se é reeleito. A maneira mais simples de haver “crescimento” é haver muitos projectos e juros baixos, temos uma década a viver a crédito fazendo coisas.
    Se as coisas que fizermos afinal não interessam, não valem ou valem pouco então não podemos pagar o endividamento. Os bancos e os países vão à falência.

    Não tem nada complicado.

    O complicado é percebermos que um país precisa de evoluir no que produz quando um determinado mercado está saturado Quando temos uma cultura onde não se aceita a mudança então estaremos sempre a investir nas mesmas coisas e não nos apercebemos de um mercado saturado.

  6. honi soit qui mal y pense

    A gente poderia ver o CV do Galamba para ter a certeza se ele sabe do que estará a falar ?

  7. lucklucky, “a banca é essencial para um político…”, quer seja pública ou privada. A tese do artigo aponto como problema da CGD ser estatal é o facto de ser instrumentalizada pelo pode; como o passado demonstra, a instrumentalização do estado pela banca e vice-versa é independente da primeira ser estatal ou privada, logo o problema (principal) não é esse. O problema é termos (sermos) uma cambada de oportunistas em permanente rotação entre interesses privados e cargos públicos.

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