O futuro do CDS-PP

A decisão de Paulo Portas de não continuar a liderar os destinos do CDS-PP após um longo consulado de quase duas décadas abriu uma caixa de pandora cujos contornos vão demorar alguns meses a clarificar. Li com atenção aquilo que escreveu o nosso AAA, no Observador e, sem discordar, não quero deixar de por aqui acrescentar algumas linhas ao que por lá se publicou.

Paulo Portas cumpriu um papel importante na reabilitação de um partido que havia sido dilacerado pelo deslumbramento provinciano de um país que se rendeu ao realpolitik cavaquista e guterrista, rendição essa reforçada pelo adormecimento ideológico que se seguiu à queda do Muro de Berlim e pela falsa sensação de progresso económico que a adesão à UE trouxe para Portugal, que esvaziou grande parte do debate político em Portugal nas duas últimas décadas. Portas conseguiu que o CDS-PP integrasse dois ciclos de governação, com isso atraindo para a esfera do partido uma série de gente que pode, hoje, dar sequência sem dramas ao projeto político que ele iniciou.

Há inúmeras acusações que podem ser feitas a quem foi protagonista ao longo de quase duas décadas, muitas delas seguramente justas, outras, nem tanto, mas o que releva é que dificilmente, entendo, se poderia ter feito muito melhor, já que em grande medida, os que poderiam ter sido igualmente líderes de opinião à direita se foram escondendo nas suas ambiguidades, convencidos que não havia espaço nem justificação ou necessidade para levar a cabo uma afirmação ideológica que se opusesse verdadeiramente ao status quo emergente da Revolução. Se o portismo foi durante muito tempo, um projeto bastante solitário, em boa medida tal deveu-se a uma certa falta de comparência de muita gente supostamente muito válida que o deixou a solo a gerir a intendência.

Portas soube ser um líder nas suas circunstâncias, deixando cair o pano numa altura onde é útil que possam emergir novos protagonistas. Os últimos anos têm patrocinado profundas mudanças, bastante aceleradas, que exigem respostas em matéria política e ideológica bastante distintas daquelas que herdámos do 25 de Abril e dos quadros partidários nascidos do pós-guerra. Desde 1989 que as ideologias do século XX precisam de ser revisitadas, mas só as dificuldades e as perplexidades que entretanto se instalaram estão a forçar a emergência de novas configurações, infelizmente, em muitos casos, não passando de meras recauchutagens das ideias velhas de sempre.

Cabe agora ao CDS-PP escolher uma nova liderança, e não faltam potenciais bons protagonistas. O maior erro, porém, que num ciclo pós-Portas pode existir, é haver quem ceda à tentação de tentar afirmar contornos rígidos e bandeiras que estão hoje perto da caducidade, no campo ideológico, limitando uma certa pluralidade e as esquizofrenias próprias que um partido que aspira a ser Poder necessita. É fundamental que o CDS-PP, que tem hoje gente muito válida, seja capaz de agregar em seu redor algumas das respostas adequadas para os problemas que Portugal hoje enfrenta, pois esta é a única fórmula para que continue a ser válido aos olhos dos eleitores, num momento onde a tendência para a bipolarização é evidente. Essa capacidade de resposta não deve confundir-se com delimitações ideológicas de facção, ou grupais, que empurrariam o partido de novo para a irrelevância que lhe conhecemos no período cavaquista. Na minha forma de ver as coisas, o espaço das ideias, em especial as que dizem respeito ao centro-direita que valoriza a liberdade, deve construir-se sobretudo fora do quadro dos partidos, aos quais compete interpretar esses movimentos e absorver aquilo que de relevante importa para construir as suas respostas políticas. Não acredito no papel liderante dos partidos no campo das ideias; os partidos são corpos conservadores que se organizam para exercer o Poder (nas suas mais variadas configurações), sendo já um grande feito quando são capazes de representar as ideias dominantes numa sociedade que se deseja plural. Se o CDS-PP souber ser o intérprete de várias tendências no centro-direita, será bem sucedido. Se cair na tentação da “clarificação” de facção, corre o risco de se esvaziar aos olhos do seu eleitorado.

3 thoughts on “O futuro do CDS-PP

  1. Baptista da Silva

    O CDS tem é que assumir o seu espaço politico, sem cair em tentações de “partido dos reformados” ou “partido do contribuinte”, tem que definir um rumo e deixar-se de populismo.

  2. tendencia para a bipolaqrização? quando foram as eleições há menos de 2 meses em que os votos foram mais redestribuidos? será que este erro não influencia negativamente toda a composição?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s