Efeito fim de semana nos hospitais

Hospitais e efeitos de fim de semana. Por Pedro Pita Barros.

Simplesmente “gritar” que a culpa é da austeridade é contribuir para que a raiz destes problemas não seja tocada. É fácil dizer que se coloca mais dinheiro no sistema de equipas em prevenção na neurocirurgia, ou noutra especialidade, mas isso não impede que daqui a um ano (ou dois, ou seis meses) surja outro problema, devido novamente a falhas de organização, noutro ponto do Serviço Nacional de Saúde.

(…) Há vários aspectos de funcionamento dos sistemas de saúde, e de Serviços Nacionais de Saúde, que requerem atenção. Não é sequer uma especificidade nacional. O caso concreto que esteve na base da actual discussão é um exemplo dramático do que tem sido chamado “efeito de fim de semana”. Tomando a situação em Inglaterra, o “weekend effect” está presente na imprensa e na discussão política sobre o SNS inglês. Mas não é problema apenas dos países com Serviço Nacional de Saúde. Uma rápida busca revelou um recente trabalho sobre os Estados Unidos, normalmente criticados pela falta de cobertura mas não pela falta de qualidade dos cuidados prestados ou pela falta de meios tecnológicos, onde se concluiu “The weekend effect is seen across many medical and surgical conditions. We have illustrated this effect for ruptured aortic aneurysms in a nationally representative population in the United States.” (ver aqui o trabalho original) E há mesmo evidência para outros países da presença deste efeito (ver aqui). Nem sequer é um efeito recente (um artigo de 2001 no New England Journal of Medicine já referenciava confirmações deste efeito). Mesmo para Portugal, um trabalho de 2014 realizado na Escola Nacional de Saúde Pública indicava a presença deste efeito de maior mortalidade ao fim de semana (ver aqui). (e uma revisão de literatura mais profunda certamente irá encontrar mais documentação do efeito de fim de semana)

Obviamente, saber que os outros países e sistemas de saúde diversos apresentam o mesmo tipo de resultados em termos de mortalidade que não deveria ter ocorrido em condições de adequado funcionamento dos sistema de saúde não resolve o problema. Mas obriga a procurar outras causas e outras soluções.

8 thoughts on “Efeito fim de semana nos hospitais

  1. Lufra

    É muito mais fácil culpar a austeridade, e dá muito mais jeito que a culpa seja do anterior governo, do que encontrar os verdadeiros culpados, porque a culpa provavelmente está do lado de alguns dos intocáveis do politicamente correcto.

  2. antónio

    Atirar dinheiro para o SNS sem antes perceber o que corre mal a montante na sua organização é o mesmo que tentar apagar com água um fogo de uma fritadeira com óleo. A simples injeclão de dinheiro no SNS será desperdício e será asneira.

  3. jo

    Mais um santo que cai do altar.

    Dizia-se que o ex-ministro da saúde era um excelente organizador e tinha conseguido poupar dinheiro sem prejudicar o SNS. Agora os seus ex-defensores e amigos vêm clamar que os problemas da saúde não se devem a falta de dinheiro, mas a falta de organização. Organização que competia ao ministro que, pelos vistos, não a conseguiu fazer.

    Com amigos destes o Paulo Macedo está lixado.

  4. lucklucky

    Não me parece que alguém elogie o Paulo Macedo por aqui, alguém destrói Liberdade por exemplo ao ter elevado as Finanças ao nível de Autoridade – algo que não deveria acontecer com qualquer departamento do estado excepto em circunstâncias especiais.

  5. Fernando S

    jo : “Organização que competia ao ministro que, pelos vistos, não a conseguiu fazer.”

    O que o Ministro não conseguiu foi ir ainda mais longe no combate aos interesses instaldos, às corporações profissionais, ao gigantismo e à burocracia do SNS !…
    Nenhum Ministro é directamente e disciplinarmente responsavel pelo mau funcionamento de serviços que teem as suas proprias chefias e o seu proprio pessoal.
    Fossem quais fossem as restrições orçamentais nada justifica que um doente grave tenha ficado sem assistencia durante todo um fim de semana.
    Por todas estas razões e por aquilo que este drama concreto ilustra, é mais urgente do que nunca redimensionar rever o peso e o papel do Estado na saude !

  6. Caro Fernando S,
    o que disse quanto ao caso do hospital é óbvio, mas há sempre quem goste de fazer de conta, e por isso ainda bem que o disse.
    “é mais urgente do que nunca redimensionar rever o peso e o papel do Estado na saude !”
    Não podia estar mais de acordo, mas infelizmente neste País não há quem…

  7. Fernando S

    Caro asam,
    Estamos portanto perfeitamente de acordo quanto ao diagnostico e quanto ao objectivo e congratulo-me com isso.
    Dito isto, e como gosto de assumir tudo o que penso até ao fim, não sei se estaremos ainda 100% sincronizados quanto ao caminho e ao ritmo a seguir.
    Não sei se no governo Passos Coelho, a começar pelo então Ministro da Saude, haveria quem tivesse a perspectiva e a vontade de reformar a fundo o sistema publico de saude. Por exemplo, acabando com a quase gratuidade da saude publica para grande parte da população, aquela que tem ou pode vir a ter (com desagravamentos fiscais) rendimentos acima de um determinado nivel e que tenderia a assumir os riscos e os custos da sua propria saude, eventualmente através de sistemas de seguro privados.
    Mas estou convencido de que durante a ultima legislatura não houve tempo suficiente nem existiram sequer condições politicas para se ir ainda mais longe do que se foi.
    Com inumeras limitações e precauções politicas, o Ministro Paulo Macedo até fez muito e, sobretudo, fez muito do que era possivel e indispensavel tendo em conta a situação do sector da saude e a emergencia financeira em que o pais se encontrava.
    O que é certo é que o esforço que foi iniciado na legislatura anterior deve ser continuado e deve, logo que possivel, orientar-se para uma reforma profunda de todo o sistema actual de saude publica.
    Não sei quem o pode levar a cabo.
    O governo actual não é certamente, antes pelo contrario.
    A unica esperança, politicamente viavel nos tempos que correm, é de que uma futura maioria absoluta de direita permita ir ainda mais longe nesta direcção.

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