Controlo público da banca?

Sobre o processo de venda da posição accionista do Estado no BANIF o secretário-geral do Partido Comunista Português, Jerónimo de Sousa, disse hoje o seguinte (meu destaque):

“independentemente da solução que possa ser encontrada”, [a situação do Banif] “demonstra a necessidade do controlo público da banca para evitar que se assista mais uma vez a uma sangria de dinheiros públicos para acudir aos desmandos e aos erros da gestão dos banqueiros”.

Gestores públicos não cometem erros? O risco para os contribuintes seria menor se os bancos fossem públicos?

"Vintage Bank Vault" - Brook Ward @flickr.com (creative commons)
“Vintage Bank Vault” – Brook Ward @flickr.com (creative commons)

A única forma de eliminar o risco para os depositantes é acabar com a fraude da reserva fraccionária. A banca, privada ou pública, está obrigado por lei a reter, nos seus cofres, apenas uma ínfima fracção do que neles foi depositado. Ou seja, os depósitos bancários não o são realmente. A melhor caracterização é que são “empréstimos aos bancos de fácil liquidez” (pelo menos para os primeiros a levantar dinheiro).

É maioritariamente por meio da aplicação a médio/longo prazo daqueles “depósitos” de curto prazo que o sector bancário obtém lucros (exemplo: crédito imobiliário ou empréstimos ao Estado). Qualquer corrida aos bancos evidencia, por isso, a escassez de fundos disponíveis a cada momento. E, para piorar a situação, a liquidez dos bancos pode ser ainda mais deteriorada quando gestores bancários, públicos e privados, cometem graves erros de avaliação em operações financeiras (bolha do mercado imobiliário e rating das dívidas públicas).

Jerónimo de Sousa quer fazer passar a mensagem que o Estado consegue melhor zelar pelas nossas poupanças. A história da alta inflação dos anos 80 do século passado em Portugal, da situação económica dos países comunistas além da Cortina de Ferro e da actual crise na Venezuela mostram que o secretário-geral do PCP não podia estar mais errado.

14 pensamentos sobre “Controlo público da banca?

  1. Pedro Pais

    Pergunto por curiosidade e ignorância
    Acho que é claro que uma das funções do sistema financeiro é poder transferir poupanças em investimento e servir de intermediário nesse “mercado”.

    Eliminando a reserva fraccionária, como se canalizam as poupanças das famílias (leia-se da maioria da população que tem uma literacia financeira baixa) para o investimento? (1 – Não se transferem e logo reduz-se significativamente o capital disponível para investir; 2 – fazem-se apenas através de outros meios nos mercados de capital (bolsas de acções, obrigações ou outros produtos financeiros); 3 – outra solução).

    Em qualquer dos casos acima, não estamos a reduzir a capacidade de remuneração das poupanças das famílias tornando os bancos meros “cofres”? E não estamos a reduzir o capital disponível no sistema logo tornando menos competitivo quem necessita desse meio de produção via financiamento (empréstimos ou outras formas)? E não estamos também a tornar impossível o acesso da maioria das pessoas a serviços financeiros de poupança e investimento porque não têm o conhecimento necessário para avaliar como funciona um mercado de capitais mais complexo?

    Entendo que há riscos na reserva fraccionária mas por outro lado esses riscos podem (e uso a palavra podem porque não sei fazer essa equação) ser compensados pelo aumento da eficiência na alocação de capital

  2. Pedro Pais, a baixa literacia financeira já existe. A grande maioria das pessoas pensa que os depósitos são seguros. O risco apenas não é percepcionado.
    Por outro lado, que acontece às poupanças das pessoas quando o Estado tem de cobrar mais impostos para financiar bancos?
    Eliminar a reserva fraccionária é não só uma redução do risco para os contribuintes mas, também, uma questão de transparência.

  3. Rinka

    É preciso ter lata para depois da crise actual ter nascido por culpa de gestores privados (Lehmann Brothers, Goldman Sachs, Bankia, Daxia, BES, BPN, BPP, BANIF etc) e ainda vir elogiar a gestão privada dando exemplos de gestão pública que nada têm que ver com o assunto da notícia citada (comparar a situação nos anos 80 ou da Venezuela é no mínimo patético)

  4. Rinka, recordar a história dos graves erros da gestão pública socialista e comunista é relevante para contrapor as palavras de Jerónimo de Sousa.

    Os gestores privados (públicos também) cometeram erros mas, devido à reserva fraccionária, quem pagou foram os contribuintes. E, aliás, o incentivo ao erro veio da bolha no mercado imobiliário criada pelas taxas de juro artificialmente baixas, fruto da política de estimulação dos bancos centrais (especialmente o FED).

  5. “Eliminando a reserva fraccionária, como se canalizam as poupanças das famílias (leia-se da maioria da população que tem uma literacia financeira baixa) para o investimento?”

    Muda-se o nome – em vez de se chamar depósitos, passa-se a chamar “titulos de investimento mobilizáveis a prazo”, ou coisa assim.

  6. “Gestores públicos não cometem erros? O risco para os contribuintes seria menor se os bancos fossem públicos?”

    Incentivos dos gestores públicos e dos banqueiros privados (os gestores privados estão a meio caminho entre os dois):

    – Se o negócio corre mal: o gestor público não perde nada ou quase, o banqueiro privado perde alguma coisa (alguma, porque o Estado – ou, no caso do BES, os outros banqueiros – fica a arder com um bocado)

    – Se o negócio corre bem: o gestor público não ganha nada ou quase, o banqueiro privado ganha muito com isso

    Por um lado, o banqueiro privado têm um maior incentivo a gerir bem que o gestor público (já que perde ou ganha mais de acordo com a má ou boa gestão); mas, por outro lado, como lucra quando as coisas correm bem mas o estado/outros banqueiros cobrem parte do prejuizo quando as coisas correm mal, têm também um maior incentivo que os gestores públicos para correr grandes riscos.

  7. rrocha

    Gestores públicos cometem erros? Sim
    Gestores privados cometem erros? Sim
    Os erros todos nos os cometemos e assumir a responsabilidades
    Mas os casos
    BES, BPN, Madoff, Lehmann Brothers , etc nao foram erros foram contas marteladas, venda de gato por lebre , desvio de dinheiro , conto do vigario, banha da cobra , vaidades …

  8. rrocha, em qualquer outro sector de actividade quando se cometem fraudes são apenas os accionistas e clientes dessas empresas a pagar. Na banca, a reserva fraccionária é fraude avalizada pelo Estado.

    Quanto a contas marteladas, lembrei-me também da bancarrota do Estado português durante o Governo de Sócrates…

  9. miguelmadeira,

    “[banqueiro privado] como lucra quando as coisas correm bem mas o estado/outros banqueiros cobrem parte do prejuizo quando as coisas correm mal, têm também um maior incentivo que os gestores públicos para correr grandes riscos.”

    Daí penso estarmos de acordo na necessidade de eliminar a reserva fraccionária.

  10. antónio

    Podemos discutir reserva fraccionária, padrão ouro e outras teorias mas quando o assunto é Jerónimo de Sousa a melhor coisa a fazer e no meu caso que sou católico é rezar um Pai Nosso e com especial ênfase naquela parte do livrai-mos do mal. Jerónimo é um fóssil do comunismo hediondo e empedernido.

  11. Com essa afirmação jerónimo apenas acabou de confirmar, mais uma vez, ser um hipócrita que distorce e usa a realidade a seu bel-prazer. Nada de novo no mundo dos fósseis…

  12. Pingback: Depósitos a salvo, contribuintes não | O Insurgente

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