Quem ganha e quem perde com o aumento do SMN?

Na sequência da FAQ sobre o Salário Mínimo Nacional, apercebi-me que existe um enorme equívoco sobre entre que agentes económicos se dá a transferência de rendimentos quando o salário mínimo aumenta. Muitas pessoas acham que a transferência ocorre das empresas (o capital) para os trabalhadores (trabalho). A nível micro isto é inteiramente verdade. Atente-se à seguinte figura:

Quem_ganha_com_SMN1

No entanto, o efeito macroeconómico é diferente. É aliás irónico que tenha sido Keynes o primeiro economista a alertar para a falácia da composição: efeitos micro podem ter resultados diferentes quando agregados, isto é, numa perspectiva macro.

O que efectivamente acontece quando agregamos este efeito é que a transferência mais significativa não é entre capital e trabalho, mas sim entre trabalho e trabalho, em particular daqueles que agora não conseguirão obter o emprego (e que, como tal, terão um salário de 0€), para aqueles que agora terão um aumento ou para aqueles que farão horas extra para evitar contratar um novo trabalhador. Note-se que também existe uma transferência para os detentores de máquinas (capital), no sentido em que os empresários procurarão agora adquirir mais capital para substituir o factor trabalho, tal como explicado na pergunta 7 da FAQ sobre o Salário Mínimo Nacional.

Quem_ganha_com_SMN2

 

5 pensamentos sobre “Quem ganha e quem perde com o aumento do SMN?

  1. Falta ainda dizer que muitas das vezes os que estão no “escalão”, em termos de salários, imediatamente a seguir ao escalão das pessoas que passam a ganhar o novo SMN, vêem o seu salário reduzido (estes efeitos spillover de que ninguém fala…).

  2. >”Muitas pessoas acham que a transferência ocorre das empresas (o capital) para os trabalhadores (trabalho)”

    Os trabalhadores não fazem parte da empresa? A transferência hipotética é entre os acionistas e os trabalhadores assalariados.

    >”A nível micro isto é inteiramente verdade.” + “o efeito macroeconómico é diferente”

    A dicotomia é entre o curto e o longo prazo, não entre micro/macro. A redução dos lucros no curto prazo leva no longo prazo à dispensa de alguns trabalhadores e à substituição por máquinas de outros. Isto verifica-se tanto ao nível da empresa individual como no conjunto das empresas.

  3. Gabriel Órfão Gonçalves

    A Raquel Varela disse, numa entrevista, que a profissão de caixa de supermercado era uma coisa que nem devia existir.

    Ora aí está: a SONAE, certamente inspirada pela Raquel Varela, anda a substituir caixas de supermercados por máquinas automáticas, em que é o cliente que tem de fazer todo o trabalho antes feito por uma pessoa que, por muito pouco que ganhasse, estava empregada. Já tentei encorajar todos os meus conhecidos a protestar nos próprios hipermercados da SONAE contra esta situação, exigindo que seja um empregado a fazer o que sempre foi feito nos super e hipermercados: passar os produtos pela caixa e dizer em quanto fica a visita. Ganharíamos todos: o caixa, o seu dinheiro; nós, o nosso tempo (experimentei uma vez para ver como aquilo funcionava: a paciência e o tempo perdidos são enormes; se tiverem dúvidas experimentem).

    Mas a carneirada gosta é destas coisas modernas: “Ai sou tão bom/boa, que agora até já sou eu que pego no leitor de código de barras!”.
    Ainda por cima isto é feito por uma empresa com uma posição monopolista: no concelho de Lisboa só conheço 3 grandes hipermercados: são todos do mesmo dono, e estão todos dentro de mega centros comerciais que são também do mesmo dono (e que é o mesmo dono dos hiper-mercados).

    Como não tenho nenhuma esperança em que um Governo ponha cobro a isto, espero ao menos que seja cada cidadão a pensar pela sua própria cabeça e a não querer o que a SONAE nos propõe com as suas máquinas automáticas: sermos trabalhadores não assalariados do hipermercado onde deixamos o dinheiro. (Eu raramente deixo dinheiro nestes sítios mal-frequentados.)

    Já agora: também gostam do tempo que perdem e das mãos sujas com que ficam quando vão a postos de combustíveis self-service? Gostam de trabalhar gratuitamente para a BP, a Repsol, a Galp, e por aí fora?

    Não é o Governo que vai resolver isto: é cada um de nós, com as suas acções. Eu prefiro pagar para que outros me façam o trabalho de passar as coisas pela caixa e para me porem combustível no carro.

    Aliás, nada disto fica mais barato, como nos querem convencer as empresas, quando dizem que se tiverem de contratar empregados tal acréscimo de despesa (para a empresa) se reflectirá inevitavelmente no preço do que compramos.

    É claro que se reflectirá, e não estou à espera de nada senão disso! Mas prefiro de longe essa situação a outra: pagar em impostos que se destinam ao subsídio de desemprego o dinheiro que de outra forma se destinaria a um posto de trabalho que considero – quer numa perspectiva altruísta, quer até numa exclusivamente egoísta – que me é extremamente útil.

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