Os dois resgates de Portugal: 2009/2010 e 2011

Este gráfico põe a nu de forma muito simples e inequívoca a mentira socialista corrente, segundo a qual teria sido o chumbo do PECIV, em 2011, que forçou o resgate. De facto, o resgate começou mais de um ano antes da chegada da troika. Confuso? Foi o que aconteceu. Vejamos porquê, mas, antes de mais, confiramos ao gráfico um título.

Fluxos de capital privado (vermelho), de financiamento ao abrigo do TARGET2 (verde) e do programa de assistência (laranja)

Fluxos de capitais privados, financiamento ao abrigo de programas de assistência e fionanciamento no quadro do Eurossistema (Target2)

Fonte: Bruegel.

O valores são acumulados e estão expressos em percentagem do PIB de 2007. A linha que contorna a área colorida é a linha do somatório das três rubricas expressas no título, que corresponde grosso modo à balança financeira da balança de pagamentos e é, grosso modo, o simétrico da balança corrente, negligenciando nesta igualdade o saldo da balança de capital e os erros e omissões.

Por outras palavras, alterando o sinal de «+» para «-», temos até mais ou menos ao primeiro trimestre de 2012 (o pico da curva azul), uma soma de défices da balança corrente (défices externos) ascendendo a 80% do PIB, e quer isso dizer que o país como um todo conheceu, ao longo dos 10 anos cobertos pelo gráfico, um acréscimo de dívida externa nesse montante.

Como é fácil de ver, até junho de 2009 as necessidades de financiamento externo do país – originadas no Estado, nas empresas e nas famílias – eram basicamente cobertas por fluxos de capitais privados. Predomina quase exclusivamente a cor vermelha em toda a área.

A partir de junho de 2009, assistimos primeiro, e até março de 2010, à suspensão dos fluxos de capitais externos privados, que se mantêm quase rigorosamente num montante acumulado da ordem dos 50% do PIB. Sucede que o país conserva elevadíssimas necessidades de financiamento, tanto para refinanciar dívida antiga, como para cobrir novos défices.

Para impedir a manifestação do colapso súbito do financiamento externo via capitais privados, entra o Eurossistema (BCE mais bancos centrais nacionais da área do euro) a fornecer a liquidez que deixara de ser possível mobilizar nos mercados (área a verde).

A partir de março de 2010 – atenção que o importante aqui é a datação, e é de 2010 precisamente, e não de 2011, que eu estou a falar -, não só já não é possível recorrer ao crédito externo privado para suprir as volumosas e persistentes necessidades de financiamento do Estado, mas também as das empresas e das famílias, como começa uma fuga de capitais verdadeiramente dramática. Ela prolonga-se, primeiro, até agosto de 2010. Desaparecem capitais ascendendo a um montante da ordem dos 20% do PIB em seis meses. A fuga de capitais privados conhece então uma pausa, mas em finais de 2010 é retomada e prolongar-se-á virulentamente até meados de 2012. Em pouco mais de um ano são quase integralmente revertidos os fluxos de capitais privados acumulados desde 2002 (a área a vermelho desce para níveis próximos do zero).

Em meados de 2012, o país tornara-se essencialmente devedor do Eurossistema e dos países e das instituições do programa de assistência, ou seja, de países europeus e do FMI, a tão vituperada troika que nos permitiu fazer uma transição relativamente suave para posições mais próximas do equilíbrio orçamental e do equilíbrio externo.

Tivemos verdadeiramente dois resgates: o primeiro, iniciado na segunda metade de 2009 e fortemente acentuado a partir do segundo trimestre de 2010, com a entrada em força do Eurossistema a substituir-se aos mercados no financiamento do Estado, das empresas e das famílias portuguesas; um resgate silencioso, impossível de manter por mais tempo com a fuga de capitais a atingir proporções épicas, a um país que fora expulso dos mercados, mas conservara elevadíssimas necessidades de financiamento; e um segundo resgate, o que foi acordado em maio de 2011 com os Estados europeus e o FMI, que passam a partilhar com o Eurossistema a função de financiadores externos, mas já com o país sob apertada vigilância da troika – BCE, CE e FMI.

Como facilmente se verá pelo gráfico seguinte, o montante em que em julho de 2011, estava a começar o programa de assistência, estávamos devedores do Eurossistema ascendia a perto de 70 mil milhões de euros, valor próximo do pacote do «segundo resgate».

Target2

Fonte: BCE.

Para uma datação rigorosa de paragens bruscas (sudden stop) de financiamento, nos diversos países da área do euro que por essa experiência passaram, ver aqui, por Silvia Merler e Jean Pisany-Ferry.

Para uma explicação circunstanciada do sistema TARGET2, ver aqui.

15 pensamentos sobre “Os dois resgates de Portugal: 2009/2010 e 2011

  1. Jorge Costa

    Vocês não sei quem sejam. Se se refere ao Insurgente, é um blog de gente altamente individualista, que não se reconhece em responsabilidades colectivas. Eu não me reconheço, em todo o caso. Respondo pelo que assino. Não sei a que mistura se refere, uma vez que não há mistura nenhuma. À dívida externa? Ela, com efeito, é feita de dívida do Estado e do sector privado. A capacidade/necessidade líquida de financiamento do país (face ao resto do mundo) é a soma das capacidades/necessidades líquidas de financiamento do Estado, das empresas, da banca e das famílias. E acumulação de saldos negativos dessa capacidade/necessidade dá a dívida externa que, com efeito, é dívida do Estado com dívida do sector privado, em grande parte concentrada na banca.

  2. A partir de meados de 2009 os “mercados” perceberam que Portugal estava numa trajectória de endividamento galopante sem capacidade de honrar essas dívidas. Portugal “não percebeu” e insistiu na receita. Passados menos de 2 anos estava à beira da bancarrota. Na realidade não é “não percebeu” mas sim “os seus governantes não quiseram perceber”. Como o autor fez notar, e muito bem, noutro artigo, essa trajectória já vinha de finais de 1997. Agora temos os mesmos outras vez no governo…

  3. O diagnostico parece estar correto, Portugal (e outros países da periferia) estiveram a receber capitais durante vários anos, e de repente esse fluxo parou (por altura da crise financeira).

    Mas isso quer dizer que a historia que a direita conta também não bate certo. Por muitos erros que o governo socialista anterior tenha feito, a razão do resgate foi a paragem desse fluxo de capitais, e o país iria precisar de resgate/ficar em crise qualquer que fosse o governo que lá estivesse (como aliás aconteceu com toda a periferia europeia).

  4. Luís Lavoura

    Não percebo em que consiste o “financiamento ao abrigo do TARGET2”. Poderia o Jorge Costa explicar? Quem fornece e quem recebe esse financiamento?

  5. Miguel Noronha

    “a razão do resgate foi a paragem desse fluxo de capitais”
    Claro. A ressaca também só acontece quando nos deixam de dar bebida.

  6. “A ressaca também só acontece quando nos deixam de dar bebida.”

    Esse tipo de comentários costuma estar associado a um discurso de irresponsabilidade fiscal da parte do governo. Mas sendo a causa a paragem do fluxo de capitais, deixa-se de poder atribuir a responsabilidade da crise ao governo socialista (quer tenha sido bom ou mau):

    “Suppose that the adoption of the euro suddenly made it more attractive for investors in the rest of Europe to buy assets in the periphery. This could have caused a large, exuberant capital flow from Europe’s core to periphery. […] As noted by Rudi Dornbusch in the context of the Mexico crisis of 1994, it’s not speed that kills; it’s the sudden stop.

    Crucially, sudden stops may happen even when a country is following all the right macroeconomic policies. As a result, financial crisis may be largely outside the control of a country that’s on the receiving end of a capital flow bonanza.”

    http://streetlightblog.blogspot.pt/2011/09/what-really-caused-eurozone-crisis-part.html

  7. Jorge Costa

    Acrescentei um link, no final do texto, para uma explicação que me pareceu boa do Sistema Target2.

  8. Miguel Noronha

    “Esse tipo de comentários costuma estar associado a um discurso de irresponsabilidade fiscal da parte do governo. Mas sendo a causa a paragem do fluxo de capitais, deixa-se de poder atribuir a responsabilidade da crise ao governo socialista”
    Todos os países da ZE foram sujeitos ao mesmo constrangimento mas nem todos tiveram que resgatados.

  9. Miguel Noronha

    QED. Mas a Espanha não foi resgatada e o problema da Irlanda (tal como a Espanha) foi endividamento privado.

  10. A Espanha foi resgatada, assim com a Irlanda (e a forma do resgate teve muito a ver com opções políticas europeias).

    Não me parece que esteja a ser intelectualmente honesto, não vale a pena continuar a responder.

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