O que há de errado em estimular a procura por via do consumo

Rodrigo Adão da Fonseca no Blue Lounge

Não me interpretem mal, sou completamente a favor que todos possam ter o máximo rendimento possível. Leia-se: possível.

A primeira falácia, porém, das medidas de reposição salarial protagonizadas pelo PS passa por esquecer que, na perspectiva da economia nacional (vista como um todo), salários da função pública e as pensões não configuram rendimento, mas um custo. Não há nesta classificação nenhum juízo moral. Ao afirmar-se que os salários da função pública e as pensões são um custo, não se está a dizer que o trabalho público não tem utilidade ou validade, nem que os pensionistas não têm direitos e expectativas juridicamente formadas e moralmente legítimas. O que se reconhece é algo que é economicamente óbvio: salários e pensões pagos pelo Estado não resultam da criação de riqueza, mas de impostos presentes ou futuros (dívida).(…)

A segunda grande falácia do estímulo da procura por via de uma suposta reposição de rendimentos é que é claro que boa parte do montante transferido será gasto em bens importados, desviando recursos para o exterior, o que dilui e muito o que poderia ser a valorização do nosso setor produtivo. Não há qualquer problema em consumir bens importados, desde isso seja feito no quadro de uma economia equilibrada, que não acumule défices públicos ou na balança de transacções com o exterior. No momento atual, em que o valor dos juros é negligenciável, o peso dos desequilíbrios e da acumulação de défices não se faz sentir em toda a extensão, mas engordar o stock de dívida só reforça as condições para um default a prazo que arrasaria/arrasará a nossa economia por uma geração.(…)

A aceleração da reposição dos salários dos funcionários públicos e dos pensionistas antes que esteja feita integralmente a consolidação orçamental tem assim um risco elevado: o de estarmos, para aumentar o consumo atual, novamente a acumular dívida que terá de ser paga no futuro, com juros.

O PS assume que esta reposição vai ser feita no quadro do cumprimento das regras impostas pela União Europeia e pelos Tratados em matéria de défice. Fico a aguardar pelo Orçamento de Estado que suporta semelhante exercício. É que, se já é mau defender uma reposição antes que a consolidação orçamental esteja terminada, mais grave será se as medidas do PS representarem um regresso à violação de défices que dificilmente será aceite por quem nos financia: com a miragem de voltarmos ao cenário de 2011, em que o pagamento integral de salários à função pública e pensões esteve em risco.

22 pensamentos sobre “O que há de errado em estimular a procura por via do consumo

  1. Charlie

    Conforme está escrito algures no segundo paragrafo, um dos efeitos imediatos do aumento dos rendimentos vai ser o aumento das importações. Nem é preciso ser especialista em Economia ou Finanças para antecipar. Custa é perceber porque é que especialistas reconhecidos nessas áreas, o ignoram.

  2. ric

    “Custa é perceber porque é que especialistas reconhecidos nessas áreas, o ignoram”
    A mistura de ignorância com desonestidade, em doses variáveis, costuma transformar “especialistas reconhecidos” em malfeitores conhecidos…

  3. jo

    Estas coisas parecem sempre tão óbvias.

    O problema é que após 4 anos a desvalorizar os salários, sobretudo os do sector privado, só conseguimos que multinacionais que já cá estão há mais de 50 anos abandonem o país, como está a acontecer com a Triumph.

    Os defensores da austeridade consideram que se deve desvalorizar salários para que os trabalhadores não consumam bens importados. Claro que isso pressupõe que o dinheiro fica no país se não for gasto pela ralé. Não lhes passa pela cabeça que os lucros que se obtêm à custa destes salários são exportados para paraísos fiscais. Ficamos assim sem os salários e sem o investimento, mas como quem foge é rico, não faz mal.

    Ao mesmo tempo as multinacionais sem terem aqui salários vietnamitas vão ou para o Vietnam, ou para junto dos consumidores. Aqui é que não ficam.

  4. Luís Lavoura

    salários pagos pelo Estado não resultam da criação de riqueza

    Que disparate. Então o trabalho de um médico do Serviço Nacional de Saúde não cria riqueza, mas o de um médico da Espírito Santo Saúde cria? O trabalho de um polícia da PSP não cria riqueza mas o trabalho de um segurança da Securitas cria?

    É claro que o salário pode estar mal calculado ou ser excessivo, mas isso tanto é verdade no setor público como no privado.

  5. Luís Lavoura

    não se está a dizer que o trabalho público não tem utilidade
    salários pagos pelo Estado não resultam da criação de riqueza

    Portanto: o trabalho público até pode ter utilidade, mas não cria riqueza. Que interessante.

  6. Luís Lavoura

    na perspectiva da economia nacional (vista como um todo), salários da função pública configuram um custo

    O mesmo se pode dizer dos salários dos operários da Revigrés ou da Autoeuropa. Eles também configuram um custo para a economia nacional como um todo. Seria muito mais barato se esses operários trabalhassem à borla.

  7. Charlie

    O que é propõe para fixar cá multinacionais que já cá estão à mais de 50 anos? Nacionaliza-las? E já agora, para atrair investimento? É capaz de responder a isto? É que vocês falam nos problemas mas soluções não se vê nada, muito pelo contrário até.

    Goste ou não, a verdade é que quanto maior o volume de importações mais dinheiro sai da nossa economia e é verdade que a desvalorização salarial serve para equilibrar a balança comercial. Mas como não consegue fazer um raciocínio sem se desligar da Santa invejazinha, esqueceu-se de explicar como é que se pode sustentar certos hábitos associados às importações com uma balança comercial altamente deficitária ou sem salários sequer.

    As Multinacionais são livres de irem para onde quiserem, e num pais com comunalha a ter influência no Governo e a criar obstáculos ao investimento, até é normal que se vão embora. Só quero ver é como é que os cultores do direito-adquirido resolvem o assunto.

  8. rrocha

    “Não há qualquer problema em consumir bens importados, desde isso seja feito no quadro de uma economia equilibrada”

    segundo o Sr Rodrigo Adão da Fonseca as importações só são feitas pelos “salários da função pública e as pensões” o sector privado não consome productos importados estranho!!!

    Como matar 2 coelhos de uma cajadada de acordo com o Sr Rodrigo
    Opçao 1- Pagar o minimo possibel 50€ ? na funçao publica (sempre eles nao criam riqueza) e ficava a economia equilibrada e o défice externo também.

    Opçao 2 – Reduzir a poder de compra a todos os trabalhadores e pensionistas (acabar com o custo desses malandros que trabalham e ainda tem a descaradeza de querer um vencimento) leva a menos importaçoes ficava a economia equilibrada e o défice externo também.

  9. Luís Lavoura

    Charlie

    a desvalorização salarial serve para equilibrar a balança comercial

    A balança comercial portuguesa está equilibrada (ou antes, tem um ligeiro superávite) desde há três anos para cá.

    Nem se vê como possa ela desequilibrar-se muito, uma vez que ninguém está disposto a emprestar maciçamente dinheiro a Portugal. Repare que uma balança comercial deficitária exige, necessariamente, que alguém meta dinheiro (sob a forma de investimento, remessas de emigrantes, ou empréstimos) no país. Ora, hoje em dia ninguém mete dinheiro em Portugal, pelo que, necessariamente, a balança comercial não se pode desequilibrar.

    No passado a balança comercial portuguesa esteve desequilibrada porque os estrangeiros nos emprestavam maciçamente dinheiro. Agora já não emprestam, pelo que, mesmo que quiséssemos ter a balança comercial desequilibrada, não conseguiríamos.

  10. Charlie

    Mantendo durante algum tempo uma tendência com um nível de importações maior do que as exportações, a balança comercial ficará desequilibrada de certeza. É garantido. Não percebo é como é que há quem acredite que isso seja sequer possivel de manter durante algum tempo. É que de uma forma ou de outra, vai-se acabar por reduzir as importações, seja pela via da desvalorização salarial intencional, seja pela via de a economia ficar de tal maneira afectada com o nível de importações acabando por começar a gerar desemprego.

    Depois há outro pormenor importante: A realidade económica portuguesa não permite que o pais importe mais do que o que exporta, simplesmente porque é um pais pobre (embora haja por ai uns maluquinhos infantilizados com a ideia contrária por causa de um par de décadas de bem-estar) e para alterar essa realidade é necessário que se criem condições para tal com os resultados a só se verificarem, caso as escolhas sejam acertadas, numa escala temporal de várias gerações.

  11. Caro RRocha,

    Se estamos a falar em aumentar os salários da função pública e as pensões, é essa variável que irá determinar o aumento das importações. O rendimento no sector privado manter-se-á constante (ou não, depende do impacto das restantes medidas a incluir no OE2016 que ainda não são conhecidas). Ao que acresce que o aumento da componente de salários da função pública e as pensões correspondem a uma transferência de recursos que têm um custo de oportunidade, mas para não complicar demasiado, não falei naquilo que são as “unintended consequences” de uma medidas destas.

    Por mim, o Estado deve pagar aquilo que conseguir, desde que não acumule défices e não onere excessivamente a economia com impostos elevados. Os salários na função pública devem acompanhar a produtividade do país e o nível salarial aplicável às restantes profissões, como forma de equidade e justiça, tratando igual o que deve ser igual, e diferente, quando isso se justifique. Mas, reforço, sem acumular défices.

  12. António Natário

    Penso que o cerne da questão reside no tipo de consumo que é realizado. Vislumbro um aumento maciço de apostas no euromilhões e de chamadas para os programas generalistas de domingo à tarde. Tudo está bem quando acaba bem…

  13. Ricardo Batista

    O Luis Lavoura confunde os termos Balança Comercial e Balança de Capital. São coisas diferentes…

  14. Cfe

    Contabilisticamente os salários da função pública são sim um custo porem não se pode considerar que não produzam riqueza pois apesar de ser difícil mensurar ninguem pode negar que, por exemplo, a formação educacional da população gera riqueza ao país.

    Nada a ver com a Lavora que não percebeu que o custo de manutenção do setor público é sustentado por dinheiros privados.

  15. jo

    Também a riqueza produzida pela função pública é gasta pelos privados. A polícia não trabalha só para os funcionário públicos, nem os médicos do SNS atendem só o os trabalhadoress do setor público.

    Parece que os nossos liberais querem auferir dos serviços públicos mas não pagar por eles. Isso é muito pouco capitalista.

  16. jo

    Não sei qual é a solução para manter cá as multinacionais, mas está à vista que a solução que nos andam a impingir de baixar os salários para elas ficarem não funciona.

    Também o raciocínio que diz que se afetarmos as mais-valias do que produzimos aos salários se produz consumo estéril, mas que se ficar com o capital se produz investimento é uma treta. Não há garantia nenhuma que essa riqueza fica no país.

  17. A. R

    Temos então que fazer como a Grécia: 30 ou 40 jardineiros públicos para criara riqueza e mais polícias, e mais deputados, e mais realizadores de cinema financiados pelo estado, e turmas de 10 alunos.
    Na URSS, em Cuba etc é assim e a economia singrava velozmente.

  18. Baptisnata da Silva

    “Cfe em Novembro 30, 2015 às 19:07 disse:
    Contabilisticamente os salários da função pública são sim um custo”, não são bem um custo e uma transferência de dinheiro dos privados para os FP, apenas isso, o dinheiro não nasce, alguém paga.

  19. Cfe

    “não são bem um custo e uma transferência de dinheiro dos privados para os FP,”

    Já não lembro muito bem mas no método de partidas dobradas os salários (ordenados) a pagar estão no passivo e assim um custo sim senhor

  20. José Gonçalves

    Considero-me uma pessoa com ideais diferentes deste blog (classifico-me como centro-esquerda).
    Contudo, queria dar os parabéns por este artigo, é por este tipo de artigos que sigo o blog, para aumentar as minhas dúvidas e me obrigar a estudar mais certas matérias Não quer dizer que concorde com tudo do artigo, apenas que o artigo mostra muito bem a visão do escritor, e é algo que classifico como construtivo e promotor do debate.
    Nos ´últimos tempos este blogue tem tido poucos artigos destes e tem se preocupado mais em ataques, que sendo coerentes, deviam de ser feitos aos dois grandes blocos partidários e não a apenas só um.
    Que venham mais artigos construtivos e continuem,

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