A grande oportunidade da Esquerda

Com o novo governo socialista, apoiado nesta maioria parlamentar, a esquerda tem o palco político para si. Tem uma oportunidade – aliás, “a” oportunidade -, finda a austeridade, e agora que as coisas estão melhorzitas como reconheceu António Costa aquando da sua “inqualificável chinesice”, para demonstrar que, em Portugal, a esquerda, essa figura mitológica, pode ser sujeito de um projeto político, económico e social, com um mínimo de coerência e de credibilidade capaz de encarnar uma solução viável para a vida nacional. Não há desculpas.

Esta aliança do PS pode, finalmente, impulsionar a tão desejada reconfiguração da esquerda socialista, o que lhe permitirá dedicar-se a problemas que lhe são, pelo menos em discurso e quando na oposição, muito queridos: a defesa cerrada do Estado social, a sociedade de bem-estar, o combate às desigualdades sociais, a distribuição equitativa de rendimentos, o combate ao desemprego e o Estado em tudo quanto é canto e cantinho. A pergunta que se impõe, então, é: será que teremos um PS com um socialismo ou com uma proposta social-democrata rejuvenescida, reformada, ancorada numa trapalhona operação de cosmética política assente em acordos com inimigos de outros tempos? É desta que a esquerda unida, como um todo, e a social-democracia, conseguem colocar verdadeiramente em causa e assumir-se como alternativa à terrível hegemonia neoliberal? Enfim, será que o PS, uma vez no Governo, não fará o mesmo que o centro-direita? Para que isso aconteça, o Governo de António Costa tem de enfrentar um desafio europeu: provar que, na zona euro, não há apenas um modelo para alcançar as metas do défice e da dívida e para melhorar a competitividade da economia.

O problema – que parece ter sido esquecido pelo dirigente socialista, do BE, do PCP e do PEV – é que esta atitude altamente arrojada do PS não corresponde à realidade europeia e não é posta em prática. Bem se vê que este será o primeiro volte-face do PS, o “choque com a realidade“, a “viragem do rigor”, já ocorrida noutras alianças à esquerda que prometiam, inclusive, uma “ruptura com o capitalismo”. Pois é, este PS está sozinho  e percebe-se que o fracasso não é de hoje: Blair, apesar do seu “compaigon de route“, Anthony Giddens, e de uma panóplia de intelectuais e pensadores reformistas, acabou por se tornar um “peso para a esquerda“, um “descartável“, como lhe chamou António Correia de Campos há tempos, num artigo em que exigia a necessidade de um debate sobre o caminho a seguir quando a esquerda (… imagine-se!) partilha o poder com a direita. Mas à luz do que sucedeu ontem, o que é verdadeiramente urgente é perceber como vai o PS partilhar o poder com a extrema esquerda, tendo em conta que, à partida, não fará o mesmo que o centro direita nem se subjugará aos comandos da extrema esquerda. 

Esta questão assume particular importância porque esta viragem à esquerda do PS esquece todo o “pragmatismo” que tomou conta dos partidos socialistas, sociais-democratas e trabalhistas membros da Internacional Socialista, no século passado, a partir da Terceira Via que foi adotada Europa fora. Para a extrema-esquerda, hoje suporte parlamentar deste governo socialista, esta transição não passou de uma conversão ao neoliberalismo, uma abdicação ideológica que permitiu o “rotativismo” no poder. E, bem vistas as coisas, o “arco da governação” parece manter-se, uma vez que nem PCP, nem BE, nem PEV compõem o novo governo.

Olhando para a Europa de hoje recolhemos alguns indícios sobre o resultado final deste novo governo: na Grécia, um governo em tempos de extrema esquerda vive em sobressalto com greves e protestos anti-austeridade; em Itália, um governo socialista, é alvo de críticas da esquerda sobre os níveis ainda altos de austeridade e, além disso, aplica o mesmo modelo de resolução do BES a quatro bancos; em França, os mais inocentes acreditaram que a chegada de Hollande seria a grande esperança, “uma doutrina de mudança alternativa para a UE”, mas vejamos como está hoje; o mesmo se diga, na Alemanha, quando os sociais-democratas alemães entraram no governo de Merkel e não esquecer que o chefe do Eurogrupo é um trabalhista holandês sem piedades, como se viu nas negociações com a Grécia.

Mas nem era preciso ir tão longe, basta olhar para o nosso umbigo para perceber que há todo um legado histórico que estará prestes a ser rompido: é que Portugal sempre teve um dos partidos socialistas mais centristas do quadro europeu, como a própria esquerda reconhece. Por exemplo, segundo dados do European Election Study de 2009, o PS tinha uma posição média na escala esquerda-direita (de 1, esquerda, a 10, direita) de 5,12, ou seja, praticamente no centro do centro: 5,5 (ver March, Luke, e Freire, André (2012), A Esquerda Radical em Portugal e na Europa: Marxismo, Mainstream ou Marginalidade?, Porto, Quid Novi, p. 228, Tabela 2.19). Mais, em 27 sistemas políticos europeus o PS estava entre os partidos mais centristas da família socialista europeia: mais à direita do que o PS só existiam então 3 partidos socialistas em 27, mais concretamente o lituano, o grego e o luxemburguês. Finalmente, outra singularidade: Portugal estava entre os 7 sistemas, em 27, nos quais a distância ideológica entre o centro-esquerda e o centro-direita era mais pequena, em boa medida devido ao centrismo do PS.

Quais são as razões para tal? Não pode ser apenas uma política de alianças à direita que corre no ADN do PS e na História do nosso país, pejada de convenções e tradições democráticas; há mais do que isso e creio que os próximos meses deste novo governo vão ser esclarecedoras nessa matéria. É que quando havia muro em Berlim, esse que supostamente caiu sem sabermos muito bem à custa de quê, só se saltava para o lado Ocidental. Ao que acrescem as consequências históricas de um aliança com partidos comunistas com uma incrustada “função tribunícia”, como sucedeu com outros socialistas. Veremos, então, que a grande novidade deste governo legitimado à esquerda, no Parlamento, não inaugura uma nova fase política, romântica e épica, mas é fruto, sobretudo, de uma nova, digamos, “metodologia” de chegar ao poder. Nesse momento, a esquerda terá perdido a sua grande oportunidade. E ainda bem.

 

 

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10 thoughts on “A grande oportunidade da Esquerda

  1. Rinka

    “Mas nem era preciso ir tão longe, basta olhar para o nosso umbigo para perceber que há todo um legado histórico que estará prestes a ser rompido: é que Portugal sempre teve um dos partidos socialistas mais centristas do quadro europeu, como a própria esquerda reconhece. Por exemplo, segundo dados do European Election Study de 2009, o PS tinha uma posição média na escala esquerda-direita (de 1, esquerda, a 10, direita) de 5,12, ou seja, praticamente no centro do centro: 5,5 (ver March, Luke, e Freire, André (2012), A Esquerda Radical em Portugal e na Europa: Marxismo, Mainstream ou Marginalidade?, Porto, Quid Novi, p. 228, Tabela 2.19). Mais, em 27 sistemas políticos europeus o PS estava entre os partidos mais centristas da família socialista europeia: mais à direita do que o PS só existiam então 3 partidos socialistas em 27, mais concretamente o lituano, o grego e o luxemburguês. Finalmente, outra singularidade: Portugal estava entre os 7 sistemas, em 27, nos quais a distância ideológica entre o centro-esquerda e o centro-direita era mais pequena, em boa medida devido ao centrismo do PS.”

    Da próxima vez que chorarem que vivemos num “Socialismo” lembrem-se deste estudo

  2. Charlie

    Tem uma oportunidade… Realmente tem, mas é para ver se desta não deixa outra vez o pais na bancarrota.

  3. Baptista da Silva

    Para a esquerda, o que interessa é derrotar a direita e assaltar o pote, nada mais os move, a extrema esquerda quer pegar no pote totalitariamente, o PS quer agarrar o pote de qualquer maneira e feitio.

  4. tina

    DE UMA VEZ POR TODAS: A esquerda, seja qual ela for, só está interessada em proteger os salários e reformas da função pública. Assim, nunca poderão lutar pela igualdade por que isso significaria baixar os salários mais altos da função pública e aumentar os mais baixos, o que não lhes convém sob um ponto de vista pessoal.. Isso é que se devia atirar-lhes à cara!

  5. Charlie

    A Tina toca num ponto importante que são os salários mais altos da função pública. Conheço pessoalmente casos que são verdadeiras obscenidades e impróprias para um pais minimamente desenvolvido: gente que se encontra numa determinada carreira técnica pelo mero beneficio salarial, mas sem a ínfima capacidade e atitude profissional para desempenhar tal função. Com habilitações académicas que hoje já nem são as mínimas, tecnicamente miserável, incapaz a todos os níveis, sempre à espera que os outros resolvam ou façam o trabalho, acomodada e avessa à mudança, não fazendo nada para se desenvolver tecnicamente embora isso lhe seja exigível por inerência da carreira técnica em causa. O caso é de tal maneira grotesco que posso revelar que o índice remuneratório de tal criatura ronda os 2.500€ (valores brutos). Ainda à bem pouco tempo dizia a propósito das medidas do PS que “só queria era o salário de volta”. Claro que nem é preciso dizer qual foi a intenção de voto da criatura. Tive vontade de lhe responder que a perspectiva mais justa seria pensar se vale o tal “salário”, sabendo eu que não vale nem metade. Tenho a consciência que felizmente este tipo de caso não prolifera entre os funcionários do Estado embora os haja ainda em quantidade considerável porque beneficiaram de um sistema de progressão automática a que juntaram uma certa arte natural para a lambujice que os levou ao topo da carreira.

    Agora pegando nisto de outra forma: qual é a posição dos PCPs e Blocos em relação a casos destes que são um atentado à justiça profissional? Claro que afirmam que são contra, mas quando se tentam criar mecanismos para corrigir aberrações destas, são os primeiros a esganiçarem barreiras porque sabem que é exactamente neste nicho que tem boa parte do eleitorado.

  6. tina

    “Agora pegando nisto de outra forma: qual é a posição dos PCPs e Blocos em relação a casos destes que são um atentado à justiça profissional?”

    Eles são os maiores hipócritas de todos! Basta ver que concordaram em aumentar as reformas mais baixas em apenas 0,3%! Querem lá eles saber de injustiças ou desigualdades sociais.

    ESQUERDA = EXTREMA ESQUERDA = CHULOS DO ESTADO

  7. tina

    É como o Syriza na Grécia, está-se também nas tintas para os pobres, Tsipras baixou pensões de 390 euros para 360 euros! E alguém se ralou com isso, houve algum tumulto da esquerda? Não, estão todos preocupados com os seus próprios salários, quanto mais se tirar aos outros mais sobra para eles. A esquerda hoje em dia significa apenas Estado e proteção dos trabalhadores do Estado.

  8. Charlie

    Na Grécia não sei como é mas por cá, a cáfila do PC para alem da habitual imagem de marca que é a inveja/ódio aos ricos, junta uma nuance particular que advém do 25 de Abril e que é a cultura do ‘Direito adquirido’ que no fundo não é mais do que exigirem tudo sem terem que fazer por nada e deixar a conta para as gerações seguintes. Enquanto forem vivos, para eles tem que haver sempre dinheiro (mesmo que não haja) para lhes sustentar os tais ‘direitos adquiridos’, quem vier a seguir que pague. Por cá é simplesmente isto.

  9. tina

    Charlie, a cultura do direito adquirido surgiu depois de perceberem que os seus salários já são bastante elevados, as condições muito boas (os funcionários públicos vão voltar a trabalhar menos e a ganhar mais do que o privado!), então foram inventar outra regalia, a dos direitos adquiridos.
    São poucos os que denunciam estas verdades, porque há muitos a beneficiar direta ou indiretamente da cultura da chulice do estado. Até pessoas moderadas, que esperávamos que conseguissem ser objetivas, se calam sobre isto.

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