“que se lixem as eleições”?

A expressão no título acima foi proferida em Julho de 2012 pelo então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. Pretendia fazer passar a mensagem que o mandato dos deputados tem o âmbito da legislatura para que foram eleitos, não devendo as suas decisões serem influenciadas pelas perspectivas de ganhar votos para outras/próximas eleições.

Cerca de um ano depois, a nomeação de Maria Luís Albuquerque como Ministra das Finanças – após saída de Vítor Gaspar – levou Paulo Portas a apresentar pedido de demissão irrevogável, julgando que a renovação naquele ministério “permitia abrir um ciclo político e económico diferente”. Como todos sabem, após negociações com Passos Coelho, Portas revogou a decisão irrevogável, sendo nomeado vice-primeiro-ministro (e mantendo-se a Ministra das Finanças).

Uns 4 meses depois Paulo Portas apresentou o Guião da Reforma do Estado, intitulado “Um Estado Melhor”. Entretanto meteu o documento da gaveta, de onde nunca mais viu a luz do dia.

Entre 2013 e 2015 a única diferença que vislumbrei nesse novo ciclo político e económico foi a mudança do discurso. Manteve-se os aumentos de impostos e cortes (cegos!) na despesa pública mas aproveitou-se a queda do desemprego e evolução positiva da economia portuguesa (também como consequência da conjuntura mundial) para comunicar aos eleitores que os sacrifícios estavam a produzir resultados. No último ano a estratégia foi eficaz (a coligação PSD/CDS ganhou as eleições) não sendo, contudo, suficiente (não obtiveram maioria absoluta). Mesmo assim Passos Coelho e Portas não quiseram largar o poder. Pois… “que se lixem as eleições”!!!

"Bonfire Night Silhouette" - Ulleskelf @flickr.com (creative commons)
“Bonfire Night Silhouette” – Ulleskelf @flickr.com (creative commons)

Agora que o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva finalmente indigitou o líder do PS a formar Governo, é muito provável que algumas das medidas implementadas pelo anterior Governo sejam revertidas. A isso obriga o entendimento do partido de António Costa com Bloco de Esquerda e Partido Comunista.

Os acontecimentos dos últimos 4 anos mostram algo que sempre tive como evidente: o objectivo de qualquer político são os votos. Apenas a conjuntura os pode obrigar a tomar decisões contranatura. E, mesmo assim, qualquer medida política de um partido governante pode ser sempre posteriormente alterada por outro.

PS: Qualquer reforma efectiva do Estado, para perdurar no futuro, terá de ser estabelecida em consequência de acordo entre os dois maiores partidos (os ditos do arco da governação).

39 pensamentos sobre ““que se lixem as eleições”?

  1. tina

    Que conversa sem nexo algum. Se PPC tivesse governado a pensar nas eleições, hoje estaríamos como a Grécia. Por isso, fez muito bem em não querer saber de eleições. A presente indignação deve-se apenas ao facto de uma quadrilha sem qualquer legitimidade política, ter tomado o poder de assalto, devido ás circunstâncias. Se isto não é razão para indignação não sei o que é.

  2. tina, todas as medidas do Governo de Passos Coelho foram temporárias. E reforma do Estado ficou na gaveta, porque isso certamente ainda mais contra os interesses instalados.

  3. FB

    Sinceramente, já me dá nojo a conversa das reformas que não foram feitas. Duas palavras: Tribunal Constitucional. E quem finge que não sabe porque é que não foram feitas as reformas está a ser tão intelectualmente honesto quanto o Costa e sus muchachos.

    Post Scriptum (é melhor ir por extenso): quanto tempo acham que vai levar até a operação marquês ter o mesmo desfecho que o caso Freeport e os outros?

  4. FilipeBS

    @BZ:
    “Mesmo assim Passos Coelho e Portas não quiseram largar o poder.” E porque haveriam de largar o poder? Afinal de contas foram o partido/coligação mais votado!
    Obviamente o “que se lixem as eleições” não pode ser levado à letra. Foi dito num determinado momento, e cumpriu a sua função. Com o aproximar de eleições, é óbvio que nenhuma força se marimba para as eleições. Mas a campanha da PaF podia ter sido muito mais populista, mas optaram por perspectivas razoavelmente contidas. Isso é novo em política em Portugal, e revela maior ética do que quem tudo promete e tudo faz para ir para o poder, como o costa.
    É claro que a reforma do estado ficou em grande parte por fazer. Mas alguém acredita que a CRP permite profundas reformas do estado? O pouco que se tentou mudar foi impedido pelo pelo TC e foi repudiado pela sociedade em geral…
    Agora com PS e PSD/CDS encostados respectivamente à esquerda e direita, menos chances há de alterações constitucionais, logo menos chances reformas. Portugal está bloqueado e bloqueado permanecerá até à próxima bancarrota.

  5. tina

    Mas até a venda da TAP, um ato consumado, eles vão tentar reverter! É muito simples, este governo governará no sentido de mais e mais estado, seja quais forem as medidas ou reformas implementadas.

  6. antónio

    Contudo e na sua perspectiva a alternativa a esse falhanço de PPC é atropelar a ética e a moral republicanas para assumir um governo. Estamos então entendidos.

  7. FilipeBS

    Mais: Passos/Portas foram indigitados pelo PR e era sua obrigação formar governo. Fizeram-no e submeteram o seu programa ao parlamento, seguindo os tramites normais. Quando se perspectivou a queda do Governo, Passos/Portas recusaram manter-se no poder em gestão. Se realmente quisessem o poder pelo poder, teriam-se mostrado disponíveis para se manterem em funções de gestão, quiçá até usando os meios do estado para aliviar a austeridade e com isso ganhar as próximas eleições. Mas aceitaram que não tinham maioria no parlamento e permitiram que costa assumisse as (suas) responsabilidades de governação.

  8. FB, as medidas que passaram Tribunal Constitucional eram temporárias. Os cortes nas pensões chumbou precisamente porque não estavam englobados numa reforma efectiva da Segurança Social.

  9. FilipeBS, “campanha da PaF podia ter sido muito mais populista”. Portanto o grau de populismo podia ser ainda pior que a devolução da sobretaxa?

  10. JP-A

    Para inauguração das atividades parlamentares e da consolidação do amor político vertido no pseudo-acordo de três pernas que segura o PS (isto é, o doutor Costa), não poderia haver melhor que uma mini-cimeira europeia sobre a Turquia, daqui a poucos dias. É preparar já o primeiro sapo.

  11. JP-A

    Este senhor vai ser “Ministro”!!!!!!

    Se calhar esta legislatura vai ser muito melhor do que se pensava.
    Pode muito bem vir a ser a mais engraçada de todas.

  12. tina

    “Portanto o grau de populismo podia ser ainda pior que a devolução da sobretaxa”

    Que coisa tão ridícula, têm aumentado completamente fora de proporções. Já foi esclarecido que nunca foi dito uma percentagem em concreto.

  13. tina

    “FilipeBS, PPC e Portas se não tivessem tão “agarrados” ao poder teriam discurso menos indignado.”

    BZ, devia antes analisar-se a si próprio, pois quem está mesmo muito mal é alguém que não se indigne com os truques baixos de Costa.

  14. FilipeBS

    BZ, estamos de acordo que questão da devolução da sobretaxa é efectivamente uma história mal contada e essas dúvidas não abonam em favor da coligação. Mas acha mesmo que a PaF foi assim tão populista na campanha? Que prometeu mundos, fundos e amanhãs que cantam como a esquerda? Penso que a tónica maior foi no sentido da continuidade de políticas de responsabilidade e cautela financeira.

    Sim, tem havido um discurso de indignação dos dirigentes da PaF relativamente às manobras da esquerda. Mas penso que é um discurso perfeitamente legítimo. O que se passou é inédito, tanto pelo facto de vermos o PS com uma derrota humilhante formar governo, como pelo facto deste se aliar à extrema-esquerda. Isto já para não falar da enorme suspeição que muita gente tem de que o costa prestou-se a este papel não por acreditar no seu programa mas essencialmente para salvar o próprio coiro.

    Deixe-me fazer-lhe uma pergunta? E o que acha o BZ? Que este governo PS é legítimo politicamente? Que é consistente, que está preparado para os desafios actuais e que tem base para mais do que 1 a 2 anos de legislatura? Acha que desmontar tudo o que o anterior governo fez é um programa de governo positivo ou negativo?

  15. José Silva

    Este BZ não deve regular bem da bola! PPC deixou claro que não queria continuar como primeiro-ministro de um governo de gestão. Costa deu a maior reviravolta de um político na história da democracia, invalidando qualquer possibilidade de discutir e influenciar o programa do governo legítimo saído da vitória nas eleições, como seria o normal entre os partidos que têm construído o caminho europeu de Portugal e preferiu uma aliança contra-natura com partidos que estão muitissimo mais longe do que foi sempre a ideologia, filosofia e prática política do PS, apenas para derrubar o governo de direita e ser ele a chegar a primeiro-ministro e são os outros que estão agarrados ao poder?. Queria este BZ que o PSD e o PP ficassem tranquilos e caladinhos a assistir a este aborto político???!!! Afinal quem é este BZ??!! É um maluco ou um socialista?? (o que basicamente é a mesma coisa)

  16. Truques baixos – de António Costa ou outro qq – são característica essencial de político. Como são expectáveis não fico indignado com isso.

  17. José Silva, depois nas eleições o que se disse na anterior campanha é passado. Sempre foi assim. Deputados têm a legitimidade constitucional para fazer o que quiserem, mesmo que seja contra o que disseram antes das eleições.

  18. Joaquim Amado Lopes

    BZ,
    “Truques baixos – de António Costa ou outro qq – são característica essencial de político. Como são expectáveis não fico indignado com isso.”
    Portanto, o BZ só fica indignado quando o surpreendem, não com os actos em concreto. Se uma mãe que tudo admite ao filho um dia perder a paciência e gritar à criança o BZ fica indignado mas um terrorista fazer-se explodir numa sala cheia de gente ou um ladrão dar um tiro a alguém para lhe roubar o telemóvel deixam-no indiferente.
    Não lhe invejo o estômago nem o cérebro.

  19. tina

    “Truques baixos – de António Costa ou outro qq – são característica essencial de político. ”

    O BZ não tem nenhuma capacidade de discernimento, representa aquele povo apático que os políticos sem princípios como Costa pode aldrabar á vontade pois eles não se queixam.

  20. tina, pelo contrário. Como sei a verdadeira natureza dos políticos, não vou em conversas. Qualquer que seja a côr partidária. Pode dizer o mesmo?

  21. Joaquim Amado Lopes

    BZ,
    Fica-lhe muito mal não ficar indignado com os truques baixos por parte de detentores de cargos públicos só porque tem má opinião da generalidade dos políticos. Mas cada um é como é.

  22. FB

    Que eu saiba, as rescisões com funcionários públicos não eram medidas temporárias. Tal como não o eram (ou não era suposto serem) a privatização de uma data de empresas públicas e o encerramento de uma série de fundações, instituições e serviços duplicados ou triplicados (mas completamente irrelevantes), só para dar alguns exemplos. O espírito “Not in my backyard”, aliado ao TC, prevaleceu. Mas os mesmos que criticam a falta de reformas costumam ser os que berraram “Not in my backyard!”. Afinal, o que interessa é criticar e mandar fazer as reformas no quintal do vizinho. O que vale é que vamos ter agora uns meses de fartura. Que venha depois a fatura.

  23. Tiro ao Alvo

    O BZ não está ser sincero- Ele diz que não se importa com os truques baixos dos políticos, mas não de todos os políticos: se forem do centro/esquerda, ele desculpa; se forem do centro/direita, ele fica indignado. Feitios…

  24. tina

    .”Como sei a verdadeira natureza dos políticos, não vou em conversas. Qualquer que seja a côr partidária. Pode dizer o mesmo?”

    Claro que posso, se não pudesse não votava em ninguém. Nem sequer vou nessa conversa que todos os políticos são corruptos, pelo contrário, tenho uma grande admiração por alguns. Por exemplo, PPC e Maria Luís são heróis para mim, ao passo que o PS de Costa e Sócrates são corruptos.

  25. Fernando S

    BZ : “da classe política nunca verá sair grande ética e moral…”

    Uma frase “populista” por excelencia !
    Com este tipo de argumento justificaram-se golpes militares, revoluções, ditaduras … (suponho que não seja a intenção do BZ).
    Os anti-politicos que se tornaram os novos politicos foram (mas já o eram antes, até por dizerem o que diziam e fazerem o que faziam…) pelo menos tão “politicos” como os anteriores. Senão mesmo ainda mais.
    Com este tipo de argumento justifica-se também um certo tipo de abstencionismo. O abstencionismo “politico” (suponho que seja o caso do BZ).
    Isto é, a posição daqueles que criticam tudo e todos mas que se põem sempre de fora de qualquer procura concreta das melhores (ou menos más) soluções politicas (instituições, governo, politicas, etc) possiveis, por mais incompletas e defeituosoas que possam ser (e algumas até são erradas…).
    Uma espécie de “velhos do Restelo” !…

  26. Fernando S

    BZ : “[o governo Passos Coelho] não disseram a percentagem [de devolução da sobretaxa do IRS] em concreto mas também não disseram que podia ser 0%…”

    Por sinal até começaram por dizer exactamente isso : que podia ser 0% …
    Quando disseram que apenas haveria devolução se se viesse a constatar no final do ano existir um excedente fiscal que o permitisse.
    Todas as percentagens que foram adiantadas mensalmente correspondiam a estimativas (e não certezas e, por consequencia, promessas) sobre o excedente fiscal no final do ano tendo em conta o andamento da execução orçamental (cujos numeros são publicos e fiscalizados pela UTAO).
    De resto, neste momento, como ainda não se chegou ao fim do ano, não se sabe ao certo qual vai ser a situação (e portanto a %) no final do ano.

  27. Fernando S

    BZ : “Deputados têm a legitimidade constitucional para fazer o que quiserem, mesmo que seja contra o que disseram antes das eleições.”

    Essa legitimidade constitucional não está em questão.
    Do mesmo modo que a legitimidade constitucional do Presidente da Républica para não aceitar qualquer solução de governo saida do Parlamento também não está em questão.
    O que está em questão é a legitimidade politica e moral para quererem governar apesar de terem perdido as eleições no plano nacional.
    Mas para estas ilegitimidades, e uma vez que já se sabe que o PR resolveu indigitar Antonio Costa como novo PM, a eventual sansão é politica (eventuais represalias no Parlamento por parte do PSD e CDS e o modo como os portugueses votarem em futuras eleições) e moral (desconfiança relativamente a quem as comete).
    Não falando sequer no conteudo das politicas que um governo de “maioria de esquerda” vai executar.

  28. tina

    “Isto é, a posição daqueles que criticam tudo e todos mas que se põem sempre de fora de qualquer procura concreta das melhores (ou menos más) soluções politicas (instituições, governo, politicas, etc) possiveis, por mais incompletas e defeituosoas que possam ser (e algumas até são erradas…).”

    O BZ e o Bruno Alves são assim.São pessoas que se sentem falhadas e por isso custa-lhes muito reconhecer o crédito onde é devido. O ego impede-os de terem uma análise objetiva. É interessante ver como na política e na vida em geral é assim, a maior parte das pessoas deixa-se dominar pelo “eu”, tudo o que dizem é em função do “eu”.

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