António Costa: Uma Análise Comparativa

antonioSão inúmeras as comparações que se vêm fazendo acerca da ascensão de António Costa, porque o povo é criativo e a ternura da arte e das letras tem-se feito bom desafogo para os males da vida. E certamente dói na existência assistir a tal figura ocupando o ofício chave da nação, na bonita ironia de ver o bobo da corte fantasiar o ministério numa corte de bobos.

Haverá quem o compare a um pirómano que, qual Nero, lançará o país nas chamas, dispenso provavelmente a harpa, pois não se lhe conhecem talentos nem dotes culturais e convenhamos que música ao povo já ele deu em demasiada. Mais ainda que esta comparação é injusta, pois o mundo é um lugar taciturno para os sonhadores e rapidamente – como com Tsipras – se faria à força do pirómano bombeiro. Bruxelas, qual pai severo e rigoroso, a bem do filho prontamente o colocaria na ordem, que o estudo é muito bonito e forma os homens para vida, que aquelas saídas ao Sábado são para acabar e que aquela moça que teima em frequentar a casa que nem uma arrendatária por caridade olha muito de esguelha e, já diziam os antigos, quem olha de esguelha não é de fiar.

Há também quem compare o ofício do ministério, com Costa, ao de uma mulher de má vida, pelo que terei, mais uma vez, que rebater o argumento, não por salvaguarda do próprio, mas por respeito a uma profissão que – salvo a condenação eterna por encomenda de algumas almas mais beatas – guarda mais respeito que o mesmo. E mais inadequada se põe esta analogia do ministério como bordel, quando temos em conta que é a raison d’etre deste deixar satisfação nos seus fregueses, que entram de calças na mão, satisfeitos à saída. Já o bordel do ministério de esquerda, como o quereis pintar, seria o imediato oposto, com o povo – ou parte dele – podendo até entrar satisfeito, mas saindo por certo com as calças na mão – sobrando em comum apenas os bolsos vazios.

É ainda de mau tom retratar AC – e tenho-o visto com frequência – como um Mussolini ou um Lenine. Os grandes homens são-nos pela sua envergadura e o seu preparo e não deixam de o ser por uma condução numa estrada moralmente inaceitável. Não se compara um acorde a um assobio. A preparação de Costa, leccionada nas lides partidárias é tão ínfima que nem me atrevo a apelidá-lo, como é meu costume com outros, de sombra de político, porque até as sombras, por mais inúteis que se nos apresentem, ainda cumprem com mestria a única das suas funções: a mímica do dono. E saiba o leitor que até a imitação exige preparo e saber. Que dizer então de um homem que até do colo dos seus assessores troca o papá por mamã, ao contrário do seu ante antecessor, um mago que transformava gaffes em derradeiras defesas da honra – object not found.

O ofício de António Costa, recém-chegado ao ministério, será mais adequadamente comparável ao de uma porno-chachada carioca, no saudoso VHS, de lá dos seus 20 e muitos anos, há muito olvidada na prateleira dos fundos de um videoclube de subúrbio. E neste reeditar do artefacto em questão – que julgávamos não mais ter que ver para poupar indigestões – temos a intriga e a força das paixões, o pai tirano que impõe entraves ao casório, o fazendeiro rico, como nome de santo – como na música de Renato Russo – caído em desgraça, as mulheres da terra, esganiçadas por certo – e o povo incrédulo na sua coscuvilhice, sem saber se António casa com Catarina, se Pedro e Paulo se dão, se ainda há amor por José, se Angela é realmente a vilã da brincadeira toda. E tudo isto muito desfocado, com muito ruído da poeira da fita – e a fita que se faz não é curta – mas com uma certeza expectável deste o início da história: muita gente vai acabar fodida.

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4 pensamentos sobre “António Costa: Uma Análise Comparativa

  1. Abrolhos

    Compreendo a necessidade da análise que se faz de costa, mas o que me rala é em quem vou votar nas presidenciais. Estou a ver o Marcelo a fugir com o pé para o chinelo…assim Ainda me abstenho! Depois, esta história de minimizar os comportamentos do costa e do ps, por parte de gente supostamente da direita, faz-me sonhar com o MIRN. A falta que nos faz!

  2. Essaagora

    Na falta de argumento passa tudo por fascista. É que já não há pachorra.
    Terá o PS melhor deixado a fralda do 25?

  3. Revoltado

    Suspirei de alívio na noite das eleições. Ao vê-lo discursar, a suar a camisa por todos os cantos, pensei comigo: pronto depois desta derrota está arrumado, amanhã diz que se demite do ps, volta lá para Lisboa e abre espaço para as alternativas necessárias no ps. Depois ele faz o impensável; tomando partido da impossibilidade presidencial de convocar novas eleições, aliou-se aos (até então) inimigos da esquerda mais radical para criar um Frankenstein. Um autêntico monstro feito de remendos este governo que foi ontem apresentado. O futuro presidente é o menor dos nossos males. Vamos estar atentos à pasta da justiça e à forma como é tratado o caso sócrates. Para memória futura fica que, durante o mandato do governo agora derrubado pelo parlamento (e que foi legítimamente eleito) a economia voltou a crescer, o desemprego e o défice desceram e foram acusados de corrupção dois ex-governantes (um de cada cor política: Macedo e Sócrates).

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