O Cavaquistão

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Eu concordo com os meus amigos de Esquerda: a vontade da maioria do povo português, expressa democraticamente, deve ser cumprida e portanto, dando seguimento a esta máxima, é bom que ouçam com a devida atenção as exigências de um Presidente da República que obteve quase 53% dos votos. Até porque, já que aparentemente os meus camaradas aprenderam recentemente a fazer contas, pelo que tenho visto, saberão observar que segundo a narrativa em voga, Cavaco Silva teve uma percentagem maior de votos que os partidos de esquerda somados e logo, não vendo cumprir o seu diktat, poderá muito bem deixar a governação de Portugal num limbo – bem mais sóbrio que divagações circenses – até novas eleições.

Os meus amigos de Esquerda, que já suspiravam em acenos de foices e martelos com a instituíção de uma república das bananas – quiçá da Madeira – terão que compreender que não residimos na Venezuela, nem na Argentina. Os meus caros têm a infeliz sina de ter nascido no Cavaquistão, onde Cavaco Silva, por mais que os anos passem por ele, por mais que contra ele atentem a cada intervenção sua e por mais que alguns – como eu próprio – concordem em dele discordar, continua a ser visto pela maioria – silenciosa – da população portuguesa como o seu garante de estabilidade, um papel que Soares, beijando a senilidade bolchevique a que a idade o conduziu, deixou escapar pela mesma gaveta onde antes havia guardado o socialismo.

Os quase 53% que votaram no Presidente da República não fazem grandes manifestações, não gostam de chinfrim, são gente de bem e de trabalho que mais quer é que o país ande para a frente. E estes, meus caros, são a maioria do povo português que vós teimais em achar que representais.  Temos pena, mas o choro é livre.

26 pensamentos sobre “O Cavaquistão

  1. tina

    Muito bom, muito inspirado! Pelo menos até agora Cavaco manobrou bem a situação para mostrar que haver uma maioria de esquerda não é suficiente para formar um governo. Evitam-se assim mais golpes deste género.

  2. JP-A

    Esta gente é uma delícia:

    «”Se o Presidente quer uma carta, terá uma carta”. Costa vai responder a Cavaco Silva, por escrito e ainda hoje. Mas sem voltar a falar com Jerónimo ou Catarina Martins.»
    (Observador)
    (nem falam)

    «Pouco depois de serem conhecidas as seis condições de Cavaco Silva, o PS garante que responderá ainda hoje. Será por carta, depois de ouvidos os partidos que apoiam o seu governo.» (Negócios)
    (só falam)

    «E [Jerónimo] deixa o aviso: “Esta nova tentativa de Cavaco Silva para subverter a Constituição da República terá dos trabalhadores e do povo a resposta democrática”.»
    (Observador)
    (só ameaçam, não assinam)

    Agora digo eu:
    “Avante camarada, avante! Greves chegarão a todos vós”

  3. António Costa é o Salvador

    Nem mais Ricardo. O que chateia, aliás irrita a esquerda é que Cavaco ganhou 5 das 6 eleições a que concorreu, 4 delas com mais de 50% e na única que perdeu teve 46%. Bem podem a esganiçadas do BE + as esganiçadas do PS (Tiago Barbosa Ribeiro e João Galamba incluídos) disserem que vão derrotar Cavaco (algo que já dizem há 30 anos) que isso não acontecerá. Cavaco já não vai concorrer a mais nenhuma eleição. Se rematar a uma baliza sem guarda-redes também sou um avançado de classe mundial.

  4. jo

    “Os quase 53% que votaram no Presidente da República não fazem grandes manifestações, não gostam de chinfrim, são gente de bem e de trabalho que mais quer é que o país ande para a frente. E estes, meus caros, são a maioria do povo português que vós teimais em achar que representais. Temos pena, mas o choro é livre.”

    Olha se gostassem de chinfrim! Até alterações à Constituição querem para ganhar sempre o candidato deles.

    O Costa vai levar um papel ao Cavaco. E a seguir Cavaco faz o quê?
    Continua a não poder empossar Passos Coelho nem a poder empossar um governo presidencial. Vai engolir o sapo e empossar Costa. Tanto tempo perdido para salvar a cara de alguém que estava cheio de pressa e tinha todas, mas todas, as possibilidades cobertas.

  5. Miguel A. Baptista

    Cavaco mostrou bem que António Costa é o “Pingo Doce” quem o detém e manda nele é a “Jerónimo Martins” ou neste caso “Jerónimo & Martins”.

  6. António Costa é o Salvador

    “O Costa vai levar um papel ao Cavaco. E a seguir Cavaco faz o quê?” Se o papel for credível indigita António Costa, tão simples quanto isso. Essa mania, quase esquizofrénica, que a esquerda tem de que o mundo conspira contra vós, essa vitimização, esse discurso dos coitadinhos é um bocado enjoativo. Basta fazerem aquilo que andam a prometer há quase 2 meses: Façam um governo de esquerda. Só não formam um governo se não quiserem

  7. Ricardo Monteiro

    Eu, que não votei no Presidente da República, e portanto faço grandes manifestações, gosto de chinfrim, sou gente do mal e de perguiça, que mais quer é que o país ande para trás, gostava que ele se decidisse. ou sim ou não, mas que decidisse.

  8. Abrolhos

    Muito bem senhor Presidente! Eu nâo daria a “mão da minha filha em casamento” a qualquer barnabé que não me desse garantias. É a minha familia! Não entrego o governo a qualquer oportunista. É a minha Pátria!

  9. JP-A

    Ena, que já passaram quatro dias desde isto foi “dizido”:

    «”Não nos podemos comprometer com o que não conhecemos”, diz o secretário-geral do PCP, lembrando que há medidas para 2016 que ainda é preciso acordar com o PS. Jerónimo descarta integrar uma coligação mas garante estar de “boa-fé” para garantir um governo duradouro.»

  10. Marco

    Apenas uma minoria dos eleitores votou nesses 53% que são mencionados … quem devia estar na presidência … era a Abestenção …

  11. nuno granja

    Não simpatizo lá muito com Cavaco, mas o post é pertinente.

    (Marco se a abstenção quisesse estar no poder organizava-se e concorria a eleições)

  12. Luís Lavoura

    Cavaco Silva poderá muito bem deixar a governação de Portugal num limbo

    Pois poderá, isso já toda a gente sabia. Mas deverá? Isso será bom para o país? Isso será tolerável para o país e para a União Europeia?

  13. rrocha

    Era uma vez um pais chamado Cavaquistao onde as cores eram ou cinza claro ou cinza escuro os pobres habitantes tinham de nascer 2 vezes para poderem olhar para o grande senhor, o seu voto só era valido quando este não incluísse os partidos que o grande senhor detestava, o tamanho da banana era mais importante do que a revolução que criou o lugar do grande senhor, onde os conselheiros do grande senhor eram cagaras, em que os políticos tinham nojo dos políticos
    Felizmente em Portugal nem o PR manda no parlamento nem este no PR, alguns gostariam que assim nao fosse .
    Como eles suspiram ao ler as historinhas sobre o Cavaquistao

  14. maria

    O esboço? Onde está o esboço Passos/Portas?
    “Presidente do Eurogrupo critica demora no envio do esboço do Orçamento do Estado. Tema vai ser hoje abordado na reunião dos ministros das Finanças.”

  15. Gil

    Anda por aqui muita emoção e pouca razão.

    1º) O Cavaco obteve 53% dos votos então expressos, o que deve ter andado por mais de 2 milhões de votos. Mas o que é certo é que a coligação PSD/CDS não conquistou esses eleitores.

    2º) Um dos que deve ter integrado esses 53% (Marcelo Rebelo de Sousa), acaba de dizer (TSF) que o exigência sobre a “estabilidade do sistema financeiro” é um disparate.

    3º) Não há percentagem alguma que permita a um órgão de soberania ultrapassar as suas competências. Decisões sobre concertação social, negociações no âmbito da União Europeia, etc., são da exclusiva responsabilidade do governo. Se, por absurdo, o PC ganhasse eleições, com a promessa de sair do Euro, o PR comia e calava, ou demitia-se e ia para as trincheiras.

    4º) Nenhum governo e muito menos um de coligação ou dependente de acordos entre partidos, pode garantir que vai durar 4 anos. O último só durou, porque o “irrevogável” acabou por “revogar”.

    Resumindo: Cavaco tenta chutar o problema para a frente mostrando, mais uma vez, que, para ele, a democracia é uma chatice.

  16. Pingback: onde está a alineazinha? | O Insurgente

  17. A ver vamos

    Partindo do pressuposto da indigitação de Costa, 99,9% de certeza, logo certa, concluo:
    Derrotado Passos Coelho, Grande Vencedor Costa, um Humilhado Cavaco e um que sai por entre os pingos da chuva Portas.
    Para o cenário ser mais estrondoso Marcelo vencendo as eleições nova humilhação para Cavaco, de novo derrotado Passos Coelho. Bastará pouco para três peças do dominó do PSD caírem, uma delas está já a ser investigado, caindo essas peças, Passos cai no chão lá para o último trimestre do próximo ano. Nosso líder do PSD surgirá amigo do PS. Que aprovará o orçamento para 2017 e depois é esperar pelo melhor momento e Costa à frente das sondagens ganhará com maioria absoluta.
    Ano de 2016, ao contrário do que leio aqui, não é Costa que está encurralado pelo PCP e BE mas o contrário, Costa só quer deles o orçamento para 2016 aprovado, a partir dai vão com a da mãe às Costas.
    Porque é que Cavaco não colocou Passos sobre gestão, medo, toda a gente sabe que esse era o seu principal ponto fraco, não por ele mas pela sua família, pois quem continua a mandar neste país é o PS, pois, mas terá pouca sorte!

  18. Nuno

    Isso é tudo muito bonito Gil, mas indigitar e exonerar o PM são responsabilidades do PR.

    O PR pode perfeitamente exigir que esteja no programa de governo que, de acordo com o artigo 8 da CRP, os compromissos internacionais são para cumprir enquanto estiverem em vigor. Uma coisa é dizer-se que se vão renegociar, outra é que não são para cumprir.

    Mas pode fazer mais. Pode, por exemplo, antes de mandatar o lider dum partido com 86 deputados para formar governo, anunciar que o exonera se não for votada no prazo de 30 dias uma moção de confiança ao programa de governo na AR.

    Com tantos acordos, devia ser fácil ao PS conseguir apoio para o seu programa de governo na AR, mas não é. PCP e BE não se comprometem minimamente a votar favoravelmente o programa de governo PS daqui a um mês, mas esperam que Costa seja indigitado com base nisto.

  19. Gil

    Nuno:

    Que eu saiba, ninguém afirmou não cumprir os acordos internacionais, até porque isso não é possível a menos que houvesse um golpe de estado com a consequente suspensão da Constituição. Mas já que falou no artigo 8º:
    Artigo 8.º
    Direito internacional
    1. As normas e os princípios de direito internacional geral ou comum fazem parte integrante do direito português.

    2. As normas constantes de convenções internacionais regularmente ratificadas ou aprovadas vigoram na ordem interna após a sua publicação oficial e enquanto vincularem internacionalmente o Estado Português.

    3. As normas emanadas dos órgãos competentes das organizações internacionais de que Portugal seja parte vigoram directamente na ordem interna, desde que tal se encontre estabelecido nos respectivos tratados constitutivos.

    4. As disposições dos tratados que regem a União Europeia e as normas emanadas das suas instituições, no exercício das respectivas competências, são aplicáveis na ordem interna, nos termos definidos pelo direito da União, com respeito pelos princípios fundamentais do Estado de direito democrático.

  20. A. R

    Não vale a pena pedir nada a Costa: é homem que não honra a palavra dada e é tão mentiroso como o que se pavoneia em Mercedes e com guarda-costas depois de roubar 30 milhões e e multiplicar o défice (do país o dele antes pelo contrário) por dois.

  21. Alberto Silva

    A realidade não é estática é dinâmica, alguém acredita que hoje Cavaco Silva teria este nível de votação (se acredita é tolo), ele neste momento é o Presidente da República mais impopular de sempre. Não queiram tapar o Sol com uma peneira.

  22. Pedro Oliveira

    Se é popular ou não isso não interessa. Se querem aferir popularidades vão lá a eleições com duas coligações: PS+BE+PCP+PEV contra PSD+PP.

  23. Nuno

    Folgo em saber que o Gil concorda que o déficit é para baixar até aos 0.5% do PIB, e que ao contrário do Jerónimo, sabe que o déficit não pode ser 4% em 2016 sem primeiro se renegociar o tratado em causa.

    E quanto ao PCP votar favoravelmente um programa de governo do PS que diga isso mesmo (o tratado orçamental é para cumprir enquanto estiver em vigor), o Gil não tem nada a dizer, pois não?

  24. Pingback: Nós próprios – a farpa

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