Os juros da dívida sobem para máximo de quatro meses, resultado óbvio da instabilidade política e da incerteza gerada com todo o processo eleitoral (e com a possibilidade do aumento das taxas do Fed em Dezembro, embora isso não explique o aumento do spread face à Alemanha). A isto acresce a possibilidade cada vez mais real de Portugal vir a ter um Governo de esquerda equipado com um colete-bomba de propostas que reverterão a consolidação orçamental — e Mário Centeno anda a brincar connosco —, fazendo disparar a despesa. Para lá dos desvarios financeiros, acrescem também os erros económicos, em particular a reversão da reforma do IRC, fundamental para atrair investimento directo estrangeiro, e a baixa do IVA para o sector da restauração, assim discriminando positivamente o sector dos não-transaccionáveis.
«Especulação!» — urdem os tesos que renegam os mercados, mas que não vivem sem dívida para amamentar o anafado Estado. Tecnicamente, não se trata de especulação. Especular é um termo de origem grega (a ironia) que significa olhar para a frente, forward-looking. Ou seja, pressupõe alguma dose de futurologia, um resultado da incerteza que torna o mundo não-determinístico. Neste caso em particular não é necessária qualquer especulação ou adivinhação, até porque o desfecho é claro. As medidas apresentadas pelo PS para o seu programa de governo são um disparate económico e uma ameaça de suicídio financeiro, dada a frágil condição de Portugal. Assim sendo, perceber que o governo de esquerda aproxima Portugal da ribanceira não é exercício de profecia ou de mau agouro, é a indelével dor da queda, sentida por quem sabe que se saltar cai, e se cair magoa-se. Não estranhamente, aqueles que metem dinheiro onde outros só metem palavras descobrem-no primeiro, e primeiro o retiram. Que é como quem diz, afastam-se da ribanceira.