O Estado Social deve servir os mais fracos, ou continuar a tentar prover tudo, a todos?

Os Torquemadas de serviço A esquerda portuguesa tem por estes dias vindo a agudizar o clima pós-inquisição que, de alguma forma, caracteriza o ambiente cultural português, escandalizando-se diariamente com as heresias de quem – blasfémia! – pensa um pouco diferente das forças frentistas que, como é sabido, venceram as eleições (mesmo quando os resultados mostram que foram vítimas do sucesso das suas próprias ideias).

Ora bem, a histeria de hoje que justifica a prescrição do Xanax, é dirigida a Isabel Jonet. Quem é a Isabel Jonet? Perguntarão alguns. A Isabel Jonet é uma senhora economista cuja acção incomoda porque, em vez de ficar em casa a curtir o efeito da dose e a recordar as tripes vividas nos anos 70, opta diariamente por levantar o rabo do sofá e cuidar de milhares de famílias pobres. A heresia máxima, porém, é que Isabel Jonet não só dá de comer a quem tem fome como cai na asneira de dizer o que pensa. Ainda por cima, fá-lo à sua maneira, sem filtro: e todos sabemos como os illuminati não toleram quem emite opinião nos media sem prestar a devida vassalagem ao léxico tirânico dominante. E que coisa horrível defende, de uma forma atabalhoada, Isabel Jonet? Aquilo que muita gente anónima, de bom senso, pensa com simplicidade: que o Estado Social só faz sentido se existir para prover os mais fracos, e que uma sociedade, para ser próspera e poder atender aos mais pobres, não pode alimentar um Estado que aspira a prover tudo a todos.

Isabel Jonet incomoda. Porquê?

Porque todos os dias se dedica a combater o lado negro de um Estado Social, que tantos recursos consome, mas que mesmo assim, deixa milhares de cidadãos à fome. O Estado Social alimenta? Sim, mas também se alimenta, vorazmente; é brutal a destruição de recursos da enorme máquina burocrática que absorve muito do que se deveria destinar às pessoas que deveria assistir: e que, por isso, deixa desprotegidos muitos dos tais fracos – que é ela, e a sua organização, de gente da “caridadezinha”, que no fim, verdadeiramente alimentam e dão de comer. É isto que Isabel Jonet, com simplicidade, põe em causa: a forma como elencamos as nossas prioridades, convidando à reflexão.

A Isabel Jonet pode não ser muito boa a “falar”, mas é muito boa a “fazer”. Portanto, os solidários de sofá bem que podiam ouvi-la com mais atenção, pois talvez tivessem muito mais a aprender do que a viver só no preconceito. Estanha forma de solidariedade, essa, que critica moralmente quem verdadeiramente dá de comer a quem tem fome.

10 pensamentos sobre “O Estado Social deve servir os mais fracos, ou continuar a tentar prover tudo, a todos?

  1. jo

    A senhora disse que o Banco Alimentar distribui mais alimentos mas que há menos pobres.
    Ficamos sem saber se é distribuído mais a cada pobre porque o que era distribuído antes era insuficiente. Nesse caso já existe mais pobreza do que se pensava e há algum tempo.
    Ou então o Banco Alimentar anda a distribuir alimentos a não-pobres, o que é chocante se pensarmos que as prestações sociais são controladíssimas e, pelos vistos, ninguém controla o Banco Alimentar.
    Ou então as pessoas que fazem boas obras não são imunes a dizer asneiras.
    Fica também a sensação (creio que injusta) que o Banco Alimentar não controla bem o que distribui nem é controlado por ninguém. Parece que só no Estado Social pode haver má gestão e não se percebe muito bem porquê essa certeza.

  2. Caro jo, falta uma alternativa nessa equação, que talvez ajude a resolver o dilema: o Banco Alimentar nunca foi capaz, apesar do seu esforço, de cobrir todos os pobres que necessitam de alimento. Apesar de haver menos pobreza, ela ainda existe, e apesar de o Banco Alimentar conseguir hoje ter maior cobertura, o seu esforço, somado ao de outras instituições que se dedicam a combater a fome e a pobreza, ainda é insuficiente para chegar a todos os que precisam. Diria que a resposta à tua dúvida deve ir por aqui.

  3. Catarina

    Isso tudo, mas também ofende quando diz que se pode consumir menos bifes, que se pode aproveitar melhor o tempo sem ser em frente às redes sociais, enfim,, qundo usa o bom senso que falta noutros sitios!

  4. Inácio P.

    Um lúcido e inteligente texto de apresentação duma senhora que chama os bois pelo nome como sói dizer-se.
    Adequada a chamada de atenção para o clima inquisitorial que os adeptos da “frente popular” têm incrementado. Nada de ingenuidades: a esquerda totalitária, por isso mesmo o é, governa sempre com um cacete nas unhas e quase sempre sem ter na outra mão aproverbial cenoura. Não mudam, pois isso está na sua estrutura política e societária. E o resto é conversa…

  5. Ricardo Monteiro

    E todos os voluntários do Banco que não pensam como a Isabel Jonet são infiltrados da Coreia do Norte.

  6. André Miguel

    Se mesmo ajudando os mais carenciados o Estado tem de contratar: quem decide quem é carenciado, quem decide quanto vai receber quem é carenciado, quem decide como vai receber, quem decide durante quanto tempo vai receber e como vai gastar e ainda há que avaliar se o apoio está a dar resultados… Agora imaginemos o que é chegar a todos!
    Por isso a ajuda estatal é na maioria das vezes infrutífera, porque impessoal e feita por uma máquina burocrática; a ajuda particular é muito mais eficaz, porque voluntária e como tal objectiva e prática.

  7. jo

    “Apesar de haver menos pobreza, ela ainda existe, e apesar de o Banco Alimentar conseguir hoje ter maior cobertura, o seu esforço, somado ao de outras instituições que se dedicam a combater a fome e a pobreza, ainda é insuficiente para chegar a todos os que precisam”

    Então existia muito mais pobreza do que a que era declarada. Dizer que há menos pobres mas há mais pessoas que precisam de ajuda contra a pobreza é um contrassenso.

  8. Tem muita razão.mas está a ser macia demais quando analisa o efeito do “dizer duma forma atabalhoada ” ; todos os dias encontro pessoas com criticas fundadas (erradas) a dizerem que o BA descrimina, porque as conhecidas trazem para casa sacos com tudo e para outros não há nada. Claro que quem sabe , percebe que acontece , não no BA mas nas Ong que depois distribuem; mas a falta de atabalhoamento da excelente pessoa IJonet causa muitos prejuizos (todos dizem que não dão mais ) à melhor (unica?) ONG que é bem gerida e em que se dermos um euro 99 centimos vão para os que realmente precisam.
    Escreva um post sobre o que haveria a fazer e escrutinar, para que se reduza muito este flagelo(desvios) e para que a mensagem da boa IJonet seja motivadora e não como agora.

  9. Georgina Santos Monteiro

    A Isabel Jonet é muito boa a falar, muitíssimo boa.

    E todos aqueles que se atreverem a querer fazer calar esta heroína, de mim levam umas bofetadas no focinho. Quem guerra anda a fazer, guerra leverá em cima. Onde está o Sampaio de caviar, o Ferro intrigante, o bochechas a levantar a voz em defesa desta mulher exemplar e os muitos que ajudam em segredo aos que realmente precisam?

    A Isabel Jonet é muito boa a falar, muitíssimo boa.

    Quem não sabe falar é a esquerda fascista, esso nojo, roubar sim, falar não!

  10. Joaquim Amado Lopes

    Rodrigo Adão da Fonseca,
    “A Isabel Jonet pode não ser muito boa a “falar”, mas é muito boa a “fazer”. ”
    Pelo contrário. O problema é que a Isabel Jonet é muito boa a fazer e é muito boa a falar e isso irrita os que são muito maus a pensar.

    A simplicidade e o desassombro com que Isabel Jonet diz o óbvio devia ser o padrão a seguir por todos os que têm responsabilidades políticas e não têm a cabeça enfiada num certo sítio.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.