Pornografia lusa

ERCporno

Existem instituições cruciais para manter o Estado de Direito. Depois existem instituições para manter as instituições do Estado de Direito. Finalmente, existem instituições sem qualquer propósito que não o de albergar demais parasitas que pululam pelas instituições, que nada servem, excepto aos próprios, mas que existem de direito. Depois existe a Entidade Reguladora da Comunicação (ERC).

Numa demonstração da sua imprescindível utilidade, a ERC asseverou que não existe porno nacional suficiente. Que é como quem diz, falta-nos um Nacho Vidal, sustenta a ERC, que o Capitão Roby está reformado. Imagino que tão grave constatação só possa ser resultado de estudos técnicos sobre o assunto. Falamos, portanto, de dois a três comités de investigação das grelhas de programação dos canais porno. Este tema atormentava profundamente qualquer pessoa razoável, mas hoje descansaremos — temos funcionários públicos, pagos com os abundantes recursos do contribuinte, a ver porno. Para nossa segurança e interesse nacional, claro está. E da Kleenex.

O parecer da ERC vem acompanhado de um receituário de políticas de promoção do porno nacional. O Estado deve ter um papel mais activo — ainda mais activo — na pornografia nacional, cumprindo com o seu desígnio histórico de sodomização do contribuinte. Exige-se, portanto, uma iniciativa nacional de investimento público no porno luso. Há que estimular os multiplicadores e o efeito reprodutivo. We’re all keynesians now. O efeito dos estímulos fará sentir-se, não no crescimento do PIB ou da receita fiscal, mas no crescimento de outros instrumentos de política macro.

Adicionalmente, o cumprimento das recomendações e normas sugeridas pela ERC requererá uma autoridade capaz de monitorizar a sua prossecução, e executar os procedimentos legais em caso de incumprimento. A Autoridade Nacional para o Usufruto Sexual. Competirá a esta autoridade garantir o cumprimento do comprimento mínimo nacional, entre outras quotas e regulamentações. Ao actor pornográfico luso exigem-se qualificações dignas de um equus lusitano.

Finalmente, existem diversas estrelas nacionais que reúnem as qualificações para integrarem as fileiras da ERC, a fim de garantirem o sucesso desta importante iniciativa de correcção das falhas do mercado porno, e demais imparidades que emurchecem a sociedade portuguesa.

12 pensamentos sobre “Pornografia lusa

  1. Miguel Alves

    Eu cá acho que é preciso muita coragem pela ERC. Imagino a reunião deles “pah, estive este fim de semana a ver porno, e não vi porno tuga, acho uma vergonha para a cultura portuguesa isso acontecer, estamos a ser completamente espanholizados”

    Receber dinheiro para falar de porno.. não está mau.. é o estado social.

  2. Caros, isto é simplesmente a aplicação das regras que foram aprovadas e que supostamente devem estar em vigor em TODOS os canais. Produção europeia/independente X%, produção portuguesa Y%. O conteúdo do canal não é relevante.

    Pode-se argumentar que não devem existir estas regras, de acordo com a liberdade do mercado. O parlamento pode decidir faze-lo. Agora, até então, tal como acho mal culpar a policia ou a ASAE por aplicar as regras tal como estão definidas, não me parece adequado criticar a ERC pela mesma coisa.

  3. Caro João Branco, isto não pretende ser uma análise séria ao enquadramento jurídico da ERC, nem ao seu propósito ou missão. É uma brincadeira. E o objecto da crítica não se limita à ERC, muito pelo contrário. Recua até quem a criou.

  4. Dário

    Isto é uma vergonha! A ERC não se pronuncia sobre a auto-censura e sobre a total politização da programação televisiva, sobretudo ao nível dos telejornais e dos programas de debate político, mas tem funcionários a ver canais porno, pagos pelos impostos dos contribuintes! Mas se só existisse este organismo inútil na Administração pública portugesa, bem estávamos! Mas pensemos, entre outros, nos 315 ou 335? OBSERVATÓRIOS disto e daquilo. A Administração pública indirecta conta com muitas centenas destas coisas e, no conjunto, emprega para cima de 100.000 funcionários, sendo que o governo “neoliberal” da coligação nem a beliscou – deve ser a isto que se chama reforma do Estado…Portugal é incorrigível, é um verdadeiro caso perdido.

  5. David

    Dário, se o porno a si não te diz nada há pessoas a quem diz alguma coisa, e como tal sou tão telespectador como você e mereço que a ERC se pronuncie sobre a origem de conteúdos os quais visiono. Não gosto de telenovelas e no entanto não digo que é uma vergonha pronunciarem-se sobre a origem delas.

  6. Pipo

    A solução é simples: devemos subsidiar o porno nacional para que os autores e artistas possam concretizar as suas aspirações. O ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) deveria ter uma linha de subsídios para os produtores porno (género que é proibido nos concursos do ICA, num inequívoco acto de censura faxista neoliberal). Cabe ao Estado, como é óbvio, promover políticas de igualdade e oportunidade cultural… e o porno não é menos cultura do que o cinema nacional.

  7. DeitemForaAChave

    Em alguns casos, no cinema português, o melhorzinho são as más cenas porno e as pornográficas declarações de chupistas como o antónio pedro vasconcelos.

  8. Inácio P.

    Este caso de ERC & Pornografia diz bem da falência afectiva e humana da mentalidade criada através dos anos por um misto de catolicismo ultramontano, mercado “classe tous risques” e, finalmente, pelo esquerdismo vale tudo. Ou seja, uma salada intragável de recalcados e “puñeteros” que em vez do erotismo vêem a pornochanchada como uma canalização da sua desgraça interior.E a ERC analisa e delibera! A ERC debruça-se sobre este género de “camisas de vénus” como se deliberasse sobre algo de sério! Como ordálio ofereçamos-lhe simbolicamente uma escultura das Caldas! Ou uma “pichotada” do Alberto Sordi, esse que nos filmes qualificava na perfeição este tipo de gente…des-membrada!

  9. António Costa é o Salvador

    Mário Amorim Lopes

    Ainda dizem os artistas do sistema que o governo PSD/CDS cortou com os fundos para a Cultura:

    Click to access primeiras_obras_2015-admitidas_81473324255a3911c28f11.pdf

    Arranjar patrocinadores? Népia, o Estado (todos nós pagamos com os nossos impostos). Um tipo sofre para manter um negócio em pé, mas para os artistas do sistema há sempre 500 mil euros para distribuir por cada filme, mesmo que só tenham 40 ou 50 espectadores.

  10. André Miguel

    Pornografia é a legislação fiscal em Portugal. E ter 3 partidos de extrema esquerda no parlamento.

  11. lucklucky

    Não me parce que a ERC esteja desligada das leis que existem João Branco.

    A ERC tem todo o interesse em se pronunciar sobre porno ou qualquer outra coisa.
    As burocracias crescem se ninguém as travar.

    Bastas vezes as leis e as regras são propostas pelas próprias burocracias e lobbies que as formaram.

    A ERC tem todo o interesse em reforçar o seu Observatório de Porno interno.

    E a prazo vai precisar de assessores para cada uma das categorias e fetiches para assegurar que não haverá “discriminação”.

    Mas lugares, mais departamentos, mais postos de chefia.

  12. JS

    “… Mas lugares, mais departamentos, mais postos de chefia….”.
    Será que o BE e o PCP vão obrigar o PS a incluir os seus respectivos “peritos em porno” na ERC ou será por mera substituição dos peritos em porno PSD/CDS ?.

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