Leitura dominical

O presidente da junta (golpista), por Alberto Gonçalves.

Desconfio que, em 1975, Soares combateu a extrema-esquerda menos por convicção ideológica do que pela necessidade de “definir” o PS de acordo com a vontade da maioria dos portugueses. Sei que, em 2015, o Dr. Costa procura a extrema-esquerda por falta de alternativas que não incluam o linchamento imediato. No fundo, ambos se moveram e movem por interesses privativos: a diferença é que o egoísmo do primeiro beneficiava da consolidação de um partido democrático e, naqueles anos de chumbo, isso beneficiou o país. Por infelicidade de circunstâncias, o egoísmo do segundo condena o partido e, caso o chumbo regresse, desgraça o país.

O Dr. Costa, parco em escrúpulos, possui os três neurónios suficientes para perceber que só o cargo de primeiro-ministro e a distribuição de poder pelos esfaimados do PS o resgatariam de um fracasso vergonhoso. Como a vergonha não é o seu forte, avançou sem modos pelo único caminho disponível. Com a desastrada – e desastrosa – ajuda do Dr. Cavaco, enfiou na cabecinha que o remédio para uma derrota límpida é uma vitória suja. Perdidas as urnas por incompetência épica, restava o golpe baixo. E nem sequer habilidoso: as declarações de terça-feira, à saída da “reunião” com a coligação, voltaram a exibir o descaramento rude do espécime, que chegou ao ponto de nem fingir ter lido as propostas de PSD e CDS. As propostas, estas ou outras, são de qualquer maneira inúteis, já que o Dr. Costa apenas admite uma solitária hipótese: ser primeiro-ministro, dê por onde der.

Nada de novo. O currículo do Dr. Costa, ao que consta desde as associações de estudantes (não, o prodígio nunca teve vida), é, perguntem a Seguro e a Sócrates, um inventário de facadinhas e traições. Hoje, por carência de saídas profissionais (a obsessão com a educação de adultos não é aleatória), anda por aí a abrir caminho à catanada, defendendo a promoção para assegurar o emprego. Nos intervalos dos encontros “técnicos”, dialoga com embaixadores e dá entrevistas ao “estrangeiro”, proeza notável em quem fala um português precioso. No auge das alucinações, arrisca umas referências inacreditáveis ao Muro de Berlim. A pergunta que atravessou a campanha mantém-se: será que ele inventa estas coisas sozinho ou há alguém que lhe quer muito mal? Se Cavaco não lhe prestar atenção, sairá directamente do trémulo PS para uma roupinha de Napoleão. Se Cavaco repetir a imprudência do “consenso”, o Dr. Costa mandará provisoriamente em nós, por sorte acompanhado de terceiro-mundistas e perante o pasmo da Europa.

Em suma, o homem quer entrar na história. Num país civilizado, já fez mais que o suficiente para acabar no tribunal. (…)

 

2 pensamentos sobre “Leitura dominical

  1. chipamanine

    AG notável!
    se existir a veleidade de permitir a ascensão ao poder deste especimen e da sua entourage estamos tramados (com f)

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