Quando O Interesse Pessoal Se Sobrepõe A Tudo

Vale a pena analisar algum dos conteúdos programáticos das legislativas de 2015 quer do Bloco de Esquerda quer do Partido Comunista Português dos quais incluo alguns excertos neste post. É intelectualmente desonesto fazer uma leitura dos resultados das eleições dizendo que “60% rejeitaram o programa de direita” mas não fazer a leitura que 70% rejeitaram o programa do PS e 80% rejeitaram os programas do BE e PCP. Tivesse o PS declarado que estaria disposto a fazer uma coligação pós-eleitoral com o BE e PCP e não tenho dúvidas que os resultados seriam bem diferentes. Leiam os programas do BE e PCP e percebam até onde António Costa está disposto a ir para salvar a sua face e o seu lugar.

BE2015

PCP2015

20 pensamentos sobre “Quando O Interesse Pessoal Se Sobrepõe A Tudo

  1. tina

    E depois ainda vem dizer que as negociações com a esquerda são mais fáceis!.. Aquele homem é um desesperado, que não tem nada a perder. É uma questão de vida ou de morte, é a batalha entre o seu futuro e o futuro do país.

  2. Gil

    Se o PS tivesse dito (abertamente) que tinha por objectivo fazer uma coligação com o BE e o PCP, levantaria várias dúvidas:
    1- Por que não a tinha feito para concorrer coligado às eleições?
    2- Será que existiriam partidos como o Livre, cuja grande razão de existência era dizer que o BE (de onde sairam) não estava disponível para fazer uma coligação com o PS?
    3- A mesma dúvida para o MAS.
    4- Quantos votos a menos teria o BE e a mais o PS?
    5- A mesma dúvida para a CDU, embora em menor percentagem.
    6- Quantos votos a mais teria a PaF?
    7- Quantas pessoas optariam pela abstenção?

    Feitas as somas e as subtrações… isto dá alguma coisa?

  3. João de Brito

    Não há duas pessoas iguais.
    A diferença é a própria essência da definição de pessoa (não me refiro à etimologia da palavra).
    No entanto, na vida, as pessoas relacionam-se, cooperam, fazem contratos… amam-se até.
    Por que carga de água, na política, há de ser diferente?!
    Por que carga de água, os partidos não podem entender-se num máximo divisor comum que determine o contributo de cada um para um objetivo comum?!
    Por que carga de água, há gente que se agarra à tradição, quando, neste caso, a tradição é de tão má memória?!
    Só pode ser por julgarem ou quererem fazer julgar que a política é coisa do outro mundo.
    Coisa transcendental, cujos mistérios apenas são acessíveis a uns poucos predestinados, que só a um qualquer deus têm que responder.
    À boa maneira absolutista.
    Para esses, a Revolução Francesa ainda não aconteceu.
    Muito menos a democracia.
    Entretanto, vão ameaçando os hereges com o Inferno!
    Que medo!!!

  4. Imaginemos o PSD coligar-se com um partido que defendia a saída do euro, o fecho das fronteiras, anti-imigração, enfim, de extrema-direita. Contudo, era dito que estes temas ficavam à porta das negociações, alguém no seu perfeito juízo achava esta coligação natural? Por favor, não gozem connosco…

  5. PeSilva

    Vital Moreira:

    “2. Lembremos os seguintes factos, que mostram à saciedade a abertura do PS a uma solução de governo à esquerda:
    a) Antes e durante a campanha eleitoral o PS rejeitou explicitamente da noção de “arco da governação”, assim resgatando o BE e o PCP como potenciais atores governamentais;
    b) Antes e durante a campanha eleitoral Costa rejeitou qualquer entendimento de governo com “esta direita”, nunca tendo feito igual afirmação quanto à esquerda à esquerda do PS;
    c) Antes e durante a campanha eleitoral o líder do PS mencionou e valorizou repetidamente a sua experiência à frente da CM de Lisboa e a sua capacidade para estabelecer pontes e fazer entendimentos à esquerda.
    d) Durante a campanha, tanto o PCP como o BE surpreenderam ao reiterar a sua disponibilidade para governar ou para fazer parte de soluções governativas; esta sintonia só podia passar despercebida aos distraídos;
    e) Durante a campanha, a líder do BE deixou escapar deliberadamente que havia ou tinha havido contatos com Costa sobre o assunto;
    f) Neste mesmo blogue dei conta mais do que uma vez desse óbvio namoro do PS com a esquerda radical, manifestando a minha discordância e alertando para o risco eleitoral dessa opção (quer em termos de afastamento dos eleitores flutuantes do centro quer em termos de inutilização do argumento do “voto útil” no PS); nunca houve qualquer feedback do lado do PS;
    g) Oito dias antes das eleições, o Expresso fazia manchete com a informação de que o PS podia fazer um aliança de governo à esquerda, mesmos no caso de a direita coligada ganhar as eleições; esta notícia não foi desmentida pelo Largo do Rato;
    h) Tendo claramente recebido essa “mensagem”, a coligação de direita passou toda a última semana a denunciar o perigo de um governo do PS com a sua esquerda, tendo dramatizado o apelo a uma maioria absoluta para conjurar o perigo (esforço que manifestamente saiu baldado)
    i) Na própria noite eleitoral, em que não se apresentou propriamente como perdedor, o líder do PS, ao mesmo tempo que não questionou o direito do PSD de formar governo e asseverou que não faria uma “aliança do contra” para o derrubar, não excluiu porém (como apontei aqui) a hipótese um governo alternativo, tendo explicitamente mencionado a figura da “moção de censura construtiva”, assim dizendo ao PCP e ao Bloco que só podiam afastar o governo de direita dispondo-se a alinhar num governo com o PS.”

    http://www.causa-nossa.blogspot.pt/2015/10/nao-finjam-que-nao-sabiam.html

  6. tina

    Vital Moreira é advogado, como tal especializou-se no jogo de palavras como esta frase logo ao princípio:

    “a) Antes e durante a campanha eleitoral o PS rejeitou explicitamente da noção de “arco da governação”, assim resgatando o BE e o PCP como potenciais atores governamentais;”

    Assim resgatando? O que é isso? Todos sabem que Costa não disse explicitamente que se aliaria à extrema esquerda precisamente porque não queria afugentar eleitores!… Se tivesse dito os votos do PS não chegariam a 10%!

    Julga-se esperto este Vital Moreira, não passa de um comunista fascista que quer o poder à força. Está a querer enganar o povo com palavras hábeis e truques de secretaria, devia era ter vergonha na cara,

  7. Gil

    Manuel Vilhena:
    Se isso acontecesse, um dos partidos iria ceder nesse ponto. Como é óbvio, não podiam avnaçar os dois. Ter “planos secretos” ou “escondidos” a esse respeito, não é possível, como sabe. Ninguém sai do euro de surpresa ou em silêncio.

  8. nem dodo PS é tiranete. Muitos são BEs e PCPs

    PeSilva
    -Costa nunca disse que não “casaria” com Jerónimo de Sousa, logo se quiserem podem contrair União de Facto ;
    -Costa nunca disse que não seria sócio do Sporting, logo o seu benfiquismo (conhecido de todos) ficou tremido;
    -Afinal Costa disse tão pouca coisa, que pode agora dizer quase tudo.

  9. Fernando S

    Gil : “Se isso acontecesse [“o PSD coligar-se com um partido … de extrema-direita”]

    A pergunta do Manuel Vilhena é se “alguém no seu perfeito juízo achava esta coligação natural”.
    O Gil, que considera uma coligação do PS com partidos da extrema esquerda como “natural”, responde como se fossem situações equivalentes, isto é, encaradas com igual naturalidade.
    Mas, a verdade é que não são nem seriam.
    O pessoal da esquerda, da mais radical à mais moderada, diria que seria como que entregar o poder à extrema-direita pelo que o Presidente da Républica em funções, aplicando a Constituição, teria forçosamente de recusar essa possibilidade.
    A esquerda portuguesa já se foi “rodando” neste tipo de exigencia e leitura da Constituição e dos deveres do PR.
    Em 2004, o simples facto da direita, apesar de ter uma solida maioria no Parlamento, ter substituido a pessoa do Primeiro Ministro, pos a esquerda (e até alguma “direita idiota”) a exigir a demissão do governo. O PR da altura, por sinal da área politica da esquerda, demitiu efectivamente o governo, e fe-lo na altura e no modo mais favoravel para uma vitoria do seu partido em eleições antecipadas.
    Desde 2011 que a esquerda, com o pretexto de que a politica do governo de direita não correspondia ao programa com que este tinha ganho as eleições e era contraria à Constituição, foi pressionando as intituições e o PR em exercicio no sentido do governo de direita ser impedido de governar e de, tão cedo quanto possivel, ser demitido.
    A esquerda tende a considerar que o regime não é compativel com governos de direita que apliquem politicas de direita.
    A pressão sobre as instituições pode inclusivamente ir ao apelo descarado por um golpe de Estado ou por uma dita “insurreição popular”. É o chamado “estamos a precisar de um novo 25 de Abril”.
    Ou seja, aquilo que seria certamente recusado à direita, uma aliança parlamentar com os extremos para obter uma maioria que permita chegar ao governo, é hoje legitimado pela esquerda como algo de perfeitamente “natural”.

  10. Fernando S

    Tina,

    Eu concordo consigo quando defende que “Costa não disse explicitamente que se aliaria à extrema esquerda precisamente porque não queria afugentar eleitores!…”
    Mas parece-me que Vital Moreira também tem razão quando assinala que durante a campanha eleitoral e no dia dos resultados das eleições Antonio Costa deu indicações em como estava disposto a aliar-se com os partidos à sua esquerda para chumbar um governo do PàF e para formar um governo de maioria de esquerda.
    Ou seja, Antonio Costa não o disse explicitamente mas reconheceu-o implicitamente.
    Dito isto, é verdade que a mensagem que passou para uma grande parte do eleitorado, a começar pelo socialista, que não é “analista” e não se ocupa com as nuances e as entre-linhas dos discursos dos candidatos, não foi a de que o PS priveligiaria uma aliança de governo com o BE e o PCP se ganhasse sem maioria absoluta (e ainda menos se perdesse).

    Não me leve a mal, mas parece-me que a Tina foi um pouco injusta e excessivamente dura com Vital Moreira. Ainda mais quando o trata como “comunista fascista”.
    Vital Moreira foi efectivamente comunista no passado.
    Mas teve a seu tempo a lucidez e a coragem de renegar as ideias comunistas e deixar o PCP.
    Desde então aderiu ao PS.
    Mas, ao longo dos anos, mostrou ter uma grande independencia de posições e pode-se dizer que faz parte da área mais moderada daquele partido (também por vezes chamada de “ala de direita”).
    No proprio post que é transcrito no comentario acima, Vital Moreira diz discordar da intenção do actual leader do PS de fazer uma aliança à esquerda : “dei conta mais do que uma vez desse óbvio namoro do PS com a esquerda radical, manifestando a minha discordância e alertando para o risco eleitoral dessa opção”.
    Na verdade, Vital Moreira faz hoje parte daqueles socialistas que veem com maus olhos a orientação actual do PS dirigio por Antonio Costa e que podrão proximamente contribuir para que o PS possa voltar a ter um posicionamento mais centrista e moderado.
    Oxalá existam muitos mais que pensam como Vital Moreira e que, como ele, tenham a coragem politica de o manifestar publicamente.

  11. Joaquim Amado Lopes

    PeSilva,
    No debate com Catarina Martins, António Costa disse que não era possível um entendimento com o BE porque o BE “não aprendia” (com o que se passou em Lisboa, com a Grécia, …).
    Isso não conta?

  12. tina

    O Fernando S não está a perceber a gravidade da situação. Vital Moreira está a dizer que não apoia uma coligação de esquerda, mas que ela tem toda a legitimidade para se formar. Mente descaradamente quando dá a entender que o povo estava suficientemente esclarecido. Como se pode ser branda com uma pessoa que quer tirar partido da ingenuidade das pessoas?

  13. Georgina Santos Monteiro

    Mas formar um governo de esquerda para quê?

    Não há dinheiro e espaço de manobra para perversidades.

  14. Georgina Santos Monteiro

    O Varoufakis, um comunista, um outro burro, dá hoje uma aula na Universidade de Coimbra, em democratização (da zona euro)!! Tanta mentira, pare não pagarem o que devem. Os bons a trabalhar para os burros. Claro que esta Europa vai-se abaixo.

    Mas não devido ao capitalismo, que um Varoufakis nunca percebeu. Miserável!! E Costa é o nosso Varoufakis.

  15. Fernando S

    Tina,
    Compreendo a sua emoção e preocupação.
    Mas não percebo porque considera que eu não estou “a perceber a gravidade da situação”.
    Não é por estar alarmado a gritar “vem ai o lobo mau” que estou menos consciente do perigo e que estou a contribuir eficazmente para fazer face à vinda do lobo mau.
    Precisamente por ser uma situação grave é que não me parece que devamos meter tudo no mesmo “saco de lacraus”.
    Existem diferentes partidos, diferentes correntes, diferentes analises, diferentes posicionamentos, diferentes estratégias, etc.
    Umas iguais ao que pensamos, outras mais proximas, outras menos, e outras afastadas e opostas.
    O mundo não é aquilo que gostariamos que fosse e por isso precisamos de aproveitar o que ainda é menos mau.
    É muito positivo que existam socialistas que, como Vital Moreira, sem deixarem de ser socialistas, “digam que não apoiam uma coligação de esquerda.”
    Estas pessoas podem vir a ter um papel importante e positivo na evolução dos acontecimentos.
    Por exemplo, alguns deputados socialistas podem ser suficientes para, através da abstenção, viabilizarem um governo minoritario do PàF.
    Por exemplo, personalidades e aderentes do PS com este tipo de posições podem fragilizar e até correr com Antonio Costa.
    Por exemplo, eleitores que votaram no PS podem vir a mudar o seu sentido de voto a favor do PàF em futuras eleições.
    Vital Moreira limitou-se a dizer que não é uma surpresa total que Antonio Costa esteja hoje a querer formar uma maioria de esquerda e que houve anteriormente sinais nesse sentido.
    De resto, os principais dirigentes do PàF, e até muitos de nós aqui no “O Insurgente”, chamaram a atenção para esses sinais e alertaram para o perigo que isso poderia vir a representar.
    Em cima das eleições, Passos Coelho alertou claramente para essa eventualidade no sentido de tentar convencer um maximo de abstencionistas e de eleitores centristas, muitos dos quais eleitores potenciais do PS, a irem votar pelo PàF, dizendo algo do género: “Votem no PàF no Domingo porque na 2a feira é demasido tarde !”
    Pois bem, estamos hoje na “2a feira”.
    Não me parece que Vital Moreira tenha dito que “uma coligação de esquerda … tem toda a legitimidade para se formar” e que deu “a entender que o povo estava suficientemente esclarecido” (na verdade, ele referia-se sobretudo aos analistas e politicos e menos aos eleitores).
    Mas mesmo que assim fosse. Trata-se de uma analise, de uma opinião sobre um aspecto da situação, por parte de uma pessoa que, sem acertar forçosamente em tudo, até percebeu o essencial da situação, isto é, que uma coligação de esquerda é má para o pais.
    Deve ser respeitada e aproveitada.
    De resto, neste momento, nenhum de nós é capaz de adivinhar os que é que o Presidente Cavaco Silva vai decidir e não podemos excluir em absoluto que ele possa vir a empossar um PM de um governo de maioria de esquerda.
    Há mesmo muitos observadores, inclusivé conotados à direita, que dizem, mesmo que com pesar e preocupação, que se um governo do PàF for chumbado no Parlamente, o PR não poderá fazer outra coisa que não seja chamar e empossar Antonio Costa.
    Não é neste momento a minha opinião, mas, para além de ter consciencia de que ela também tem fragilidades, não é o que importa.
    O que mais importa é qual é o sentimento geral da opinião e, sobretudo, do PR.
    O que mais importa é termos neste momento a noção de que a formação de um governo de esquerda é uma possibilidade suficientemente forte e que, nessa eventualidade, vai ser necessario contar com todos aqueles que, de uma forma ou de outra, mais à direita e mais à esquerda, são contra.
    Não é o momento (nunca é) para sectarismos e para ataques agressivos àqueles que, mesmo não sendo da nossa área politica e não tendo exactamente as nossas ideias, são ou podem vir a ser contra uma “maioria de esquerda”.

  16. PeSilva

    André Azevedo Alves

    Tanto à esquerda como à direita, proliferam reacções de surpresa e choque perante a vontade de António Costa de sujeitar o país pela primeira vez em quatro décadas de democracia a um governo suportado por uma frente popular que junte o PS à extrema-esquerda. A preocupação face ao cenário é compreensível, mas a surpresa nem tanto, já que antes das eleições esta possibilidade foi começando a tomar forma com contornos relativamente nítidos.

    Como assinalou Alexandre Homem Cristo, os sinais que apontavam para essa real possibilidade foram-se acumulando: “A presença de António Costa no congresso do LIVRE. O fascínio pelo Syriza. A “leitura inteligente” do Tratado Orçamental. A rejeição do conceito de “arco da governabilidade”. Os auto-elogios de Costa quanto à sua capacidade negocial na Câmara Municipal de Lisboa. Ou, a uma semana das eleições, a notícia do Expresso (nunca desmentida) de que o PS governaria mesmo perdendo as eleições. Enfim, a lista é interminável. E se é certo que nunca houve, da parte de António Costa, a confissão declarada de que identificava parceiros no PCP e no BE, o contrário é igualmente verdadeiro – nunca negou essa possibilidade e deu vários sinais de que o cenário era verosímil.”

    http://observador.pt/opiniao/o-fim-do-ps/

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