O “pastel” de Belém e outros pratos

PSD, PS e CDS em coligação
PSD, PS e CDS em coligação
Ontem, o Presidente da República Cavaco Silva dirigiu-se à Nação para lhe anunciar o que saíra da sua reflexão sobre os resultados eleitorais e o futuro do governo do país. À excepção da platitude da “solução governativa” que dê “estabilidade” e “governabilidade”, e a exclusão do PCP e do BE dessa mesma solução, não disse nada. E ainda bem, porque quando diz alguma coisa geralmente não diz nada de bom. Mas horas antes da prelecção presidencial, veio a público uma opinião de dois membros da Casa Civil de Cavaco, José Moura Jacinto e Nuno Sampaio (pessoa simpatiquíssima e inegavelmente louvável), argumentando que “o contexto difícil em que continuamos a viver aconselha soluções governativas duradouras”, e que estas devem passar por “uma coligação de governo alargada a três partidos”.

De há uns tempos para cá, e principalmente à medida que se foi tornando cada vez mais claro que das passadas legislativas só poderia sair um “parlamento pendurado”, tem havido cada vez mais gente a expressar uma opinião semelhante. Cavaco há anos que sonha com um arranjo que torne toda e qualquer eleição irrelevante e devolva o país à acalmia da “Primavera” de 1969. No domingo, João Miguel Tavares dizia que a única maneira de ser possível fazer as reformas de que o país precisa seria com um Governo de PSD, CDS e PS. Ontem, António Barreto afirmava que, dado o equilíbrio das forças parlamentares e o peso da “esquerda não democrática”, a solução ideal seria uma espécie de “Grande Coligação”. Medina Carreira acompanhou-o. Paulo Almeida Sande (outra jóia de pessoa) acha que “faz impressão a muita gente, mas era o melhor para a gente”. Manuel Villaverde Cabral escreveu recentemente que “a solução normal para o empate eleitoral inscrito em todas as sondagens, num país europeu que pretende respeitar o Tratado Orçamental, é só uma: um «bloco central» como aquele que permitiu a Portugal ultrapassar a anterior bancarrota de 1983-1985 e entrar para a CEE, a qual abriu finalmente a porta à modernização do país“. Joaquim Aguiar, um senhor inteligente que peca por utilizar um português mais preocupado em mostrar a sua inteligência do que em tornar claro o que pensa, anda há anos a dizer que o sistema político português criou um “desvio” entre o que “foi anunciado” e o que “foi realizado” – entre a “ilusão” das “promessas distributivas” e a “possibilidade” das “configurações estratégicas” de Portugal – e que só os 3 partidos de poder – PSD, PS e CDS – responsáveis pela criação desse desvio, o poderão explicar ao eleitorado, “revelando” a “realidade” e “corrigindo” o “desvio”. E até a nossa Maria João, antes de dedicar vários parágrafos a desancar António Costa, acha “sensato” que Cavaco o queira integrado num Governo. Mas o facto de uma opinião ser cada vez mais comum, e tida por gente que merece consideração, não a faz mais certa por isso.

O argumento de que o peso do clientelismo estatal e a resistência do eleitorado a quaisquer reformas – os tais 60% do “Partido do Estado” de Medina Carreira – e que só com os três partidos do “arco da governação” no poder em simultâneo é que será possível ultrapassar o bloqueio daí resultante – por só assim evitar que o ou os partidos que estiverem momentaneamente na oposição aproveitem o descontentamento contra as reformas para oportunisticamente se oporem ao que defenderiam caso estivessem eles no governo – é, à primeira vista, convincente. Principalmente se a ele juntarmos o facto de ser possível ter de se rever a Constituição, e isso depender do apoio, pelo menos, de PSD e PS. Mas, parecendo à primeira vista sensato, não me convence.

A razão é simples. O mesmo clientelismo estatal que uma tal “Grande Coligação” pretenderia ultrapassar é, ele próprio, uma criação dos partidos que a integrariam. Pior: os três partidos da tal “Grande Coligação” dependem, em grande medida, do mal que supostamente pretenderiam corrigir. Uma solução desse tipo, dada a natureza e o carácter das instituições que o integrariam, passaria sempre por um acordo de partilha da ocupação do Estado, que permitisse a sobrevivência mais ou menos equitativa das respectivas clientelas. Inevitavelmente, uma solução governativa que chamasse ao poder PSD e PS (e juntando-lhes o CDS) nortear-se-ia por essa necessidade de manter o equilíbrio da satisfação equilibrada das várias clientelas envolvidas, e não a efectiva resolução dos problemas que supostamente justificariam a sua criação. Como o “Bloco Central” dos anos 80 ou o “pastel” da “fusão” do século XIX, seria essencialmente um “intervalo” nas batalhas inter-clientelares, em que uma garantia às outras que não as deixaria extinguir-se à míngua, em troca de reciprocidade na misericórdia.

Aliás, basta ter a mais vaga das noções do que propunham PSD/CDS e PS e alguma perspicácia, para perceber a falta de vontade que por aquelas três bandas se tem pelas tais reformas que uma “Grande Coligação” permitiria promover: apesar das muitas diferenças entre o que andavam a prometer, e acima de tudo, na retórica que usavam, os três pretendem apenas manter o estatismo que estrangulou e continua a estrangular o país, com um bocadinho menos de dinheiro que aquele que existia no “tempo das vacas gordas”.

Os “pasteleiros” dirão que essa rendição dos partidos ao estatismo que existe é precisamente uma prova da necessidade de uma “Grande Coligação” entre eles, uma mera consequência do receio que têm de enfrentar clientelas, e que uma vez unidas e sem receio de serem ultrapassados pelas outras na maré das reivindicações, os três se sentiriam libertos para finalmente avançarem com o que agora nem sonham sequer propor. Tenho sérias dúvidas de que assim seja, porque me parece que, se há algo de genuíno na “classe” política portuguesa, é o seu apreço pelo lodaçal clientelista em que chafurda. Mas admitamos que sim: mesmo que PSD, CDS e PS estivessem realmente interessados em ultrapassar o bloqueio anti-reformista das suas clientelas, e se coligassem para o ultrapassar, haveria ainda uma razão – inultrapassável – para temer semelhante solução.

O “Bloco Central” de 1983-85 é geralmente apontado como uma experiência de relativo sucesso, em que PSD e PS se uniram para tirar Portugal da situação de bancarrota em que caíra e preparar a entrada de Portugal na CEE, como Villaverde Cabral elogia no seu artigo. O facto de ambos estes objectivos terem sido atingidos fazem com que geralmente se esqueça o preço que o próprio sistema político pagou por eles: o estilhaçar do sistema partidário e o aparecimento e conquista de grande parte do eleitorado de um partido essencialmente populista e anti-reformista, o PRD de Ramalho “Encoberto” Eanes, patrocinador dos piores vícios do reaccionarismo-travestido-de-progressismo a que neste país se dá o nome de “esquerda”. Claro que o PRD rapidamente se extingiu, e que da confusão nascida das legislativas de 1985 brutou a maioria absoluta de Cavaco. Mas convém não esquecer que o governo saído do morte do Bloco Central – o minoritário de Cavaco – foi abençoado à nascença com a adesão à CEE e os seus abençoados fundos, um verdadeiro maná caído dos céus berlinenses que permitiu camuflar os nossos males internos e as querelas insanáveis que eles tendem a produzir. Mas em 2016 ou 2017 não virão fundos; virão exigências de “austeridade” e medidas impopulares. Tal como em 1983-85 o Bloco Central despertou o ressentimento contra “os políticos”, também uma “Grande Coligação” PSD/CDS/PS uniria contra todas as forças políticas genuinamente democráticas de Portugal o ódio generalizado dos cidadãos dessa democracia. E ao contrário do que aconteceu ao Bloco Central de 1983-85, não virá de fora nenhum milagre que salve o sistema político do problema de perda de confiança dos eleitores num Governo sem que haja sequer a hipótese de haver alternativa no seio desse sistema, por esse Governo vítima do descontentamento ter juntado todas as alternativas possíveis. Pretendendo salvar o regime dos seus males, uma “Grande Coligação” acabaria por destruí-lo definitivamente.

Felizmente, nem Passos Coelho nem António Costa parecem dispostos a meterem-se em semelhante aventura. Resta que nem o governo minoritário de PSD/CDS, nem muito menos uma Frente Popular do PS com o BE e talvez o PCP, podem dar ao país qualquer descanso. A precária posição do PS, entalado entre ter de viabilizar a coligação e coligar-se com partidos antidemocráticos, tem dado grande gozo a uma certa parte das hostes daquilo a que por preguiça e ignorância se chama por cá de “direita”. Mas não devia: primeiro, porque com um mínimo de sensatez, o PS safa-se do problema com relativa facilidade, negociando com PCP e BE até que fique claro que um tal acordo é um possível, anunciando depois que a intransigência deles obriga o PS a não inviabilizar um governo da coligação embora a ele se oponha, para não criar uma situação de ingovernabilidade ao provocar a sua queda sem uma alternativa que o substituísse; e segundo, porque nada do que daqui poderá sair será bom para o país. Do “pastel” de Belém que Cavaco e os outros “pasteleiros” pretendem com uma “Grande Coligação” (com a mais que certa destruição da governabilidade que se pretenderia atingir) aos restos de empadão reaquecido no micro-ondas de um governo minoritário de PSD/CDS (com um programa que já fica aquém do que o país precisa a ser ainda mais diluído pelas necessárias cedências a outros para garantir a sua viabilização), passando pela “caldeirada” de uma coligação PS/BE/PCP (com um programa ainda mais estatista e desastroso para a vida dos portugueses que o da coligação PSD/CDS), todos os “pratos” que por aí se andam a cozinhar deixariam um sabor amargo na boca de todos nós, não apenas na dos senhores do PS.

25 pensamentos sobre “O “pastel” de Belém e outros pratos

  1. A. R

    Nunca vi a saúde do sistema democrático tão atacada pela esquerda, nunca vi tanto imbecil esquerdófilo a palrar: faz lembrar a frente popular em 1936 que matou a bem matar.

  2. Pedro Oliveira

    A ‘grande coligação’ foi o que o PASOK e o ND tentaram na Grécia. Não funcionou. Queremos agora ver o BE a aplicar as medidas do FMI para Portugal?

  3. Fernando S

    Bruno Alves : “um governo minoritário de PSD/CDS (com um programa que já fica aquém do que o país precisa a ser ainda mais diluído pelas necessárias cedências a outros para garantir a sua viabilização)”

    À atenção dos que pronaram a abstenção : afinal, sempre havia pior do que o programa do PàF e do que a perspectiva de um governo PSD/CDS com maioria absoluta !!…

  4. não disse o contrário. disse que, dado que o meu voto não iria fazer a diferença (eu disse que EU não ia votar, não disse para as pessoas não votarem), eu não queria votar na coligação porque achava que a sua prática política e o que pretende fazer é tão mau que não merece o meu voto. Os outros também. Mas eu só consideraria votar num partido – o PSD – e esse partido não me deu razões para votar nele.

  5. Nuno

    Essa teoria de que um voto isolado não conta para nada é dum egoísmo atroz.

    Uma coisa é ser-lhe indiferente este ou outro resultado. Acho perfeitamente aceitável a abstenção (e mais ainda os votos em branco) nessa situação.

    Mas abster-se não é compatível com agora lamentar os resultados e considerar que outros melhores eram possíveis.

  6. FilipeBS

    Não acredito numa coligação de esquerda pelos motivos que foram apresentados pelo Carlos Guimarães Pinto no post anterior. Mas ver o PS a negociar com o Partido Comunista em pleno século XXI, no actual contexto, e depois de vermos o que acontece na Grécia, só merece um adjectivo: criminoso. Nem que seja mero bluff, é criminoso. Só a possibilidade, ainda que remota, do PS permitir que a extrema esquerda influencie as linhas do próximo governo é absolutamente abjecto. É uma traição total ao país, à decência, à democracia e à razoabilidade.

  7. k.

    “FilipeBS em Outubro 8, 2015 às 09:15 disse:”

    Nem o PCTP/MRPP tem adjectivos melhores!!!

    Não me parece que o PS vá numa coligação com quem quer que seja; Mas provavelmente irá negociar muitas coisas à esquerda e à direita.
    Os OE irão ser passados, e se a economia melhorar, o PaF até pode aguentar-se até ao fim da legislatura – o PS não quererá ser acusado de criar instabilidade financeira.

    Na AR.. vamos ver leis interessantes. Provavelmente ai o PS irá “legislar” com a esquerda, proibir nacionalizações, etc.

    Acho que andam todos a fazer uma grande novela.

  8. Fernando S

    Bruno Alves,

    Absteve-se por achar que o seu voto “não iria fazer a diferença” ?
    Ou absteve-se por achar que “a [] prática política [da coligação] e o que pretende fazer é tão mau que não merece o [seu] voto” ?
    É que as duas razões não se adicionam : se um voto não faz a diferença então não faz sentido procurar justificar o seu voto ou não voto em função dos méritos e deméritos dos candidatos.
    Quanto a um voto sozinho “não fazer a diferença” … Bom, por esta ordem de ideias nenhum voto, seu e dos outros, faria a diferença. E, se fosse assim, ninguém votaria, todos se abstinham, as eleições seriam inuteis.
    Na verdade não é assim. Um voto vale em conjunto com muitos outros. E cada um pode fazer a diferença.
    De resto, os resultados das ultimas eleições mostram precisamente que a coligação pode não ter conseguido chegar à maioria absoluta precisamente por uma parte do seu eleitorado anterior e potencial se ter … abstido !…
    O seu não voto (“eu só consideraria votar num partido – o PSD”) , e o voto de outros abstencionistas, poderia ter mesmo feito a diferença !
    Agora é tarde de mais para lamentar o “sabor amargo na boca de todos nós” que podem vir a deixar as duas possibilidades de governo que decorrem dos resultados das eleições (nas palavras do Bruno) :
    – ou “um governo minoritário de PSD/CDS (com um programa que já fica aquém do que o país precisa a ser ainda mais diluído pelas necessárias cedências a outros para garantir a sua viabilização)”,
    – ou “uma coligação PS/BE/PCP (com um programa ainda mais estatista e desastroso para a vida dos portugueses que o da coligação PSD/CDS)”.

  9. A luta da Brigada das Colheres (a volta do tacho público) para manter as corporações, vai sair muito reforçada com a entrada dos estatistas , que defendem líricamente em reduzir a “austeridade” com o ovo no cu da galinha. Talvez tenhamos novo escorrega para perto de 2011.

  10. Ferando, para começar pelo fim: a maioria absoluta da coligação também traria um amargo de boca bastante lamentável. Para mim, o país não ficaria melhor por ter uma maioria absoluta desse pessoal. Quanto às razões pelas quais me abstive, confesso que não vejo qual é a incompatibilidade entre essas duas razões, que foram as que me levaram a abster. O voto singular, em qualquer circunstância não muda nada. e por isso só voto em alguém se achar que estou a votar em alguém que acho que seja o melhor para o país; já que o meu voto isolado tem pouco valor, só serve como uma espécie de “estar bem comigo mesmo”, e portanto, só deposito o meu voto em alguém se a minha consciência depositar confiança nessa pessoa ou partido. E para mim, não era esse o caso desta vez. e acima de tudo não percebo porque é que se preocupa tanto com a minha escolha eleitoral

  11. Nuno, onde é que eu disse que outros resultados seriam melhores? Como disse noutro comentário, acho que o programa da coligação teria só por is um sabor amargo. Aliás, no texto, é isso que lá está. Eu não digo que é o facto de ele ser diluído que o trona amargo. Digo que é amargo por si só, entre parênteses, que diluído com cedências fica ainda mais estragado. Mas era algo de lamentar à partida. para o país, tudo o que pudesse sair destas eleições seria lamentável. Eu agora posso perfeitamente lamentar os resultados, porque achava isso já antes: qualquer resultado que pudesse sair destas eleições era lamentável.

  12. Fernando S

    Bruno Alves,

    Começando também pelo fim.
    Não é a primeira vez que o Bruno se mostra surpeendido, e até algo agastado, pelo facto de eu discutir aqui a sua “escolha eleitoral”.
    O Bruno pretende que a escolha é apenas sua e que, portanto, ninguém tem nada com isso.
    Mas a verdade é que, antes das eleições, o Bruno fez aqui toda uma série de posts e comentarios a anunciar que se ia abster, a justificar a sua decisão com argumentos do género que o PàF e o PS são igualmente muito maus, isto é,”socialistas”, que, de qualquer modo, um voto não muda nada, que aqueles que optassem por votar no PàF o faziam por “gostarem de socialistas”, etc.
    O que é que esperava ?!…
    Que quem não concordava com a posição que defende e com os argumentos que avança simplesmente ouvisse e calasse ?!..
    Se o Bruno quizesse mesmo que a sua “escolha eleitoral” fosse apenas sua e não fosse comentada e discutida por outros então ter-lhe-ia bastado mante-la secreta e não a ter proclamado num espaço de opinião e comentarios que é publico.

    Neste seu comentario anterior diz o Bruno que “o país não ficaria melhor por ter uma maioria absoluta desse pessoal [da coligação PàF]”.
    Bom, esta ideia faz precisamente parte de uma das suas justificações para a sua abstenção “politica”.
    Não vou agora retomar esta discussão.
    Mas parece-me evidente que no seu post diz algo que é diferente.
    As citações que fiz do seu texto não oferecem duvidas.
    Façamos uma descriptagem mais detalhada do que diz.
    O Bruno parte da ideia de que a coligação PSD/CDS tem “um programa que [] fica aquém do que o pais precisa”.
    Ou seja, não vai tão longe quanto o que seria desejavel.
    Mas poderia ser pior.
    Se, por exemplo, for “ainda mais diluido” com “cedencias” a “outros” (ao PS).
    O que supõe que aquilo que o PS pode exigir e obter fica ainda mais “aquém do que o pais precisa”.
    Ou seja, o programa do PS é à partida pior que o da coligação PSD/CDS.
    E poderia ainda ser pior.
    Se o PS se coligasse com o BE e o PC com um “um programa ainda mais estatista e desastroso”.
    Portanto, a conclusão logica de todo este raciocionio é a de que o resultado das eleições menos mau ainda seria aquele que excluiria em absoluto uma eventual coligação PS/BE/CDU e que permitiria à coligação PSD/CDS aplicar o seu programa sem “cedencias”.
    Ou seja, uma maioria absoluta “desse pessoal” teria sido preferivel à falta dela.
    Este raciocionio do Bruno é bastante correcto e faz todo o sentido da parte de alguém que se considera liberal e que, para além do mais, se ve a si proprio como um eleitor potencial do PSD.
    O que é espantoso, e dificilmente compreensivel, é que, depois de fazer esta análise, toda ela rica em nuances, o Bruno volte de novo à sua tese inicial de que é tudo igualmente mau.
    Como explicar esta contradição ?
    Suspeito que a oposição radical do Bruno ao governo de Passos Coelho seja “de estimação” e que a sua decisão de não votar nunca nele fosse já antiga e definitiva (esta sim, verdadeiramente “irrevogável” 🙂 ).

    O Bruno continua a dizer que um voto isolado não muda nada.
    Trata-se de uma tese que é técnicamente incorrecta. Se fosse assim ninguém iria votar.
    Mas, mais uma vez, o Bruno é capaz de dizer a seguir algo que é exactamente o contrário : “só voto em alguém se achar que estou a votar em alguém que acho que seja o melhor para o país”.
    Portanto, se o Bruno estivesse seguro da sua escolha, até iria votar.
    E porque é que o faria ?
    Porque, no fim de contas, acreditaria que o seu voto até poderia mudar alguma coisa.

  13. Fernando S

    No fim de contas, o Bruno apenas votaria numa opção ideal, perfeita.
    Ou seja, todo o tipo de opções imperfeitas, mesmo que possam ser as melhores ou menos más no momento, estão excluidas.
    Esta sua perspectiva, a crença numa sociedade perfeita, seja ela qual for, “liberal” ou outra, está muito longe do que me parece ser um dos aspectos essenciais de uma visão liberal do mundo e, em particular, da condição humana.
    Pode entretanto esperar sentado !… 🙂

  14. Um voto em não sei quantos milhões, objectivamente, não vale nada. Quanto a querer que o Fernando não comente, não é nada disso, apenas fico surpreendido por insistir tanto em em discutir algo que eu já expliquei por várias vezes o que pense: o PSD nestas eleições, não merece a minha confiança. E não é só aceitar uma solução ideal. Não acahava o PSD, em 2009, a solução eprfeita, mas achava-a suficientemente boa para o país. E esta, não acho. Os outros poderão ser piores, mas a coligação PSD/CDS é demasiado má, demasiado próxima do pior que ela, para eu querer votar neles. Não porque o meu voto em não sei quantos milhões faça a diferença no resultado final, mas porque eu não quero dar o meu apoio a quem acho que é muito, muito mau.

  15. Não penso nada disso, nem nunca o disse. Como o fernando se limita a imaginar coisas, em vez de perceber o que eu digo, não vale a pena eu dizer mais nada.

  16. Fernando S

    Não pensa nem nunca disse o quê ??…
    Eu “imagino” o quê ?
    Eu não “percebo” o quê ?
    Mas se o Bruno acha que “não vale a pena” debater comigo então deixe estar !…

  17. Fernando, eu não lhe sei explicar melhor o que penso acerca do assunto do que aquilo que já disse. O Fernando acha que o que eu digo não faz sentido, ou que estou á espera de uma grande perfeição, quando o que eu lhe digo é apenas e só que acho a coligação PSD/CDS e aquilo que fez e planeia fazer, má demais.

  18. Fernando S

    Bruno,
    Uma coisa é “não perceber” outra é “não concordar”.
    Basicamente, eu não concordo com o que o que percebo do que o Bruno diz.
    Mas é verdade que receio não perceber tudo o que diz.
    Por exemplo, não percebo o que quer dizer quando diz que a coligação PSD/CDS é “má demais”.
    Sobretudo antes e depois de dizer o que disse neste seu post aqui em cima e que eu citei : que há pior do que o programa do PSD/CDS.
    E ainda menos percebo o que quer dizer com “má demais” depois de ter dito num comentário aqui em cima que “achava o PSD, em 2009, [uma] solução … suficientemente boa para o país.”
    O que é que o PSD de 2009 tinha e não tinha relativamente ao PSD de hoje ?
    “Essencialmente”, para utilizar um termo seu.
    Para além, naturalmente, do actual ser liderado por Pedro Passos Coelho e o de 2009 por Manuela Ferreira Leite.
    Por sinal, a mesma Manuela Ferreira Leite que fez questão em dizer que não é “liberal” e que juntou a sua voz à esquerda socialo-comunista para criticar privatizações e cortes nos gastos do Estado feitos pelo governo Passos Coelho.
    Agora é que não percebo sequer se a sua critica à coligação PSD/CDS é de um ponto de vista radicalmente mais liberal (“não voto em socialistas”) ou antes de um ponto de vista mais “social-democrata” (“o PSD em 2009 [versão Manuela Ferreira Leite]”).
    Mas, se porventura quizer ainda acrescentar alguma coisa, por favor não repita mais uma vez que “a coligação PSD/CDS e aquilo que fez e planeia fazer, [é] má demais.”
    Já percebi que pensa assim.
    Diga antes porque é que pensa assim.
    Ou seja, que tipo de medidas acha “más demais” e que tipo de medidas acha “suficientemente boas para o pais”.

  19. Em 2009, o PSD propunha algumas reformas que eu achava interessantes, e acreditava que as queria afzer. Agora, não acredito numa palavra do que ali se diz, e acho que o que é proposto apenas adia a resolução dos problemas do país. Lá que a senhora diga muita coisa agora (e até na altura) com que eu não concordo não faz com que Passos Coelho seja melhor, nem muda a avaliação que fiz na altura. Que podia, claro, estar errada

  20. Fernando S

    O Bruno continua a não dizer concretamente que “propostas” é que achava “interessantes” no PSD de 2009 e o que é que o PSD actual “propõe [que] apenas adia a resolução dos problemas do pais”.
    Assim a conversa anda às voltas e não se vai ao ponto.
    Mas tudo bem !…
    Já agora, apesar de ter havido sempre muita coisa dita e feita com que eu não concordava nem concordo, tal não me impediu de ir ao essencial e de apoiar e votar no PSD de 2009, no PSD de 2011, e no PSD de 2015. E se, porventura, amanhã a liderança do PSD passar de Passos Coelho para uma Ferreira Leite ou qualquer outro com uma orientação mais “social-democrata”, o que eu não desejo, continuarei quase certamente a votar no PSD (a não ser que entretanto apareça à direita um partido alternativo melhor e politicamente viável e util, o que não parece provável nos tempos que correm).
    Porquê ?
    Porque as alternativas actualmente disponiveis, incluindo a abstenção, são piores.
    Continuo a achar desconcertante que alguém que é normalmente um eleitor potencial do PSD (ou de “direita”) possa privar a sua área politica de um apoio eleitoral que, juntamente com outros, poderia minorar os riscos de uma situação como a actual, de fragilidade, de instabilidade ou até, como é o caso, de um governo de “maioria de esquerda”.
    Isto, Bruno, por mais que me explique, nunca “perceberei” !! 🙂

  21. Quanto ás tais propostas, o que MFL defendia para a Saúde, por exemplo, parecia-me muito positivo. Lembro-me aliás, de ter escrito aqui um texto sobre isso e como achava como eram propostas bem melhores do que as de Passos.
    Quanto ao resto, eu acho que a situação de fragilidade, instabilidade, etc., é um resultado de uma crise no sistema político que não seria resolvida nem sequer atenuada por uma maioria absoluta do PSD/CDS. E acima de tudo, como tenho dito (o Fernando não concorda, mas é a minha opinião), a coligação e a sua prática põem em causa coisas que eu acho fundamentais. E como eu não tenho essa visão de pertença a uma “área política” como se de um clube de futebol se tratasse, voto consoante acho que um partido merece ou não o meu voto. E este ano, como noutros, achei que nenhum merecia. Achei eu, e muitos milhões de portugueses. E isso sim é um problema: que os partidos não consigam convencer tanta gente de que pelo menos um deles até merece o seu voto. O regime, a opinião e o Fernando acham que é um problema dos abstencionistas. Eu acho que é um problema dos partidos.

  22. Fernando S

    Sinceramente, não me lembro das tais propostas de MFL para a Saude.
    Até por não me lembrar, certamente que não deviam ser assim tão “revolucionárias”.
    Como vem sendo norma, o Bruno não diz aqui concretamente que propostas eram essas e no que é que elas “eram bem melhores do que as de Passos”.
    É verdade que, na Saude e noutras areas, o governo Passos Coelho também não fez nada de “revolucionário”.
    Mas fez alguma coisa de positivo. Fez sobretudo coisas que um governo mais à esquerda, incluindo uma versão PSD mais “social-democrata”, não teria provavelmente feito.
    Pegando no exemplo da Saude, cortou despesa (medicamentos, fraudes, etc), aumentou taxas moderadoras escandalosamente nulas ou excessivamente baixas para utentes com rendimentos acima de um determinado nivel, pagou dividas acumuladas contraidas pelos governos anteriores, etc. Tudo isto num contexto dificil de emergencia nas contas publicas. E tudo isto sem degradar o nivel geral das prestações (na verdade, até melhorou nalguns aspectos).
    Se o governo Passos Coelho pode ser criticado, na area da Saude como noutras, é por não ter ido ainda mais longe na direcção de uma redução da despesa publica e do fim da gratuidade geral das prestações.
    Não vejo no que é que o PSD de 2009 com Manuela Ferreira Leite poderia ter feito algo de “essencialmente” melhor.

    Quando falei de “área politica” referia-me naturalmente às diferenças principais entre uma “direita” e uma “esquerda”, que são conhecidas, e colocava o Bruno Alves na “direita”.
    Mas, efectivamente, começo a ter sérias duvidas de que o Bruno seja alguém que possa ser “fixado” nestes termos.
    E, portanto, começo a ter sérias duvidas de que, como admiti durante algum tempo, pertençamos a uma mesma grande “área politica”, doutrinalmente liberal e politicamente à direita no espectro partidário (porque também há quem se considere mais ou menos “liberal” mas que politicamente se situa e vote “à esquerda”).

    Existe uma “crise” no sistema politico ?
    Porque, tal como em qualquer democracia madura, de tempos a tempos há instabilidade politica, dificuldades na formação de governos de maiorias, governos de minorias, taxas de abstenção que aumentam, etc ??
    Se é assim, práticamente todas as democracias estão em “crise”.
    Mas qual é a proposta do Bruno Alves para que essa hipotética “crise” seja ultrapassada ?
    E como é que, colocando-se fora do confronto politico dentro do sistema vigente, espera poder contribuir para essa ultrapassagem ?

    Por sinal, para o melhor e para o pior, Portugal até tem tido bastante estabilidade governativa nas ultimas décadas, com o mesmo sistema politico.
    E sai de uma legislatura que se completou, sempre com o mesmo governo maioritário.
    O sistema politico tem certamente deficiencias e pode ser melhorado, mas não vejo que seja assim tão mau e que a situação deste momento, de ausencia de uma clara maioria de governo, seja uma consequencia inevitável do sistema.
    A situação actual decorre sobretudo de uma forte divisão do eleitorado relativamente à politica de austeridade que foi seguida nos ultimos anos : uma parte, surpreendentemente muito significativa, acabou por perceber a inevitabilidade dessa politica e valoriza os resultados positivos ; uma outra parte, um pouco menos significativa, mesmo reconhecendo que alguma austeridade era inevitavel, considera que esta foi excessiva e que já podia ter acabado ; uma parte, ainda menos significativa, que foi sempre contra qualquer austeridade e acha que a divida não deve ser paga ; finalmente, uma parte ainda menos significativa, que é contra tudo e contra todos (os abstencionistas e votantes nulos/brancos “militantes”).

    A abstenção subiu ligeiramente relativamente às eleições anteriores.
    Mas o nivel de abstenção das ultimas décadas até se tem mantido relativamente estável, abaixo e acima dos 40%.
    Este nivel de abstenção é normal nas principais democracias maduras, sendo até mais elevado nalgumas delas.
    A abstenção depende de muitas motivações, sendo que a maior parte nem sequer é politicamente motivada.
    Não é correcto estar a querer tirar ilacções politicas da abstenção das ultimas eleições.

  23. Pingback: Um país ingovernável | O Insurgente

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