Muito mais do que um gesto de Putin

síria
Na altura em que a Rússia é ameaça real à Europa, pela anexação de parte da Ucrânia e bulling aos países bálticos e à Polónia, tenho as maiores reservas sobre a intervenção russa na Síria..
Em traços gerais, Obama admitiu na ONU o falhanço da sua Administração em organizar uma estratégia vencedora que eliminasse o Estado Islâmico. Do resto do discurso ficou também a promessa que os EUA estão preparados para trabalhar com qualquer país, incluindo a Rússia e o Irão para resolver o conflito. A ver vamos.
Este falhanço norte-americano deu oportunidade a Putin para ganhar protagonismo e iniciativa. Não adivinho o que o futuro reserva, muito menos na Síria mas desconfio que a Rússia não terá um sucesso militar muito diferente na Síria do atingido pelos EUA, sem colocar botas no terreno. Mas esta última opção tem um preço que a opinião pública russa não parece estar disposta a pagar.
Creio que algo que os EUA aprenderam na última década é que não é tarefa fácil impor estabilidade em território estrangeiro. A Rússia irá voltar a aprender, até porque a Arábia Saudita já ditou a única regra do jogo: não há futuro para Assad. Estará a Rússia preparada para deixar cair Assad em troca da manutenção do regime ou de alguns protagonistas?
Sobre o poder de Assad, uma pergunta/dúvida: se de acordo com os relatos da propaganda do regime sirio desde há quatro anos que a vitória está eminente, o que torna necessário a intervenção de uma potência mundial como a Rússia e a participação de potências regionais como o Irão e o Hezbollah para o manter?
 A verdade é que se Putin não socorrer Assad, ele e o regime serão destruídos. E Putin, a par com o Irão, o maior apoiante, será visto como perdedor. A Rússia não tem naquela região muitas oportunidades de intervir. E Putin está a aproveitar a falta de clareza e firmeza dos EUA na Síria, o único país em que do ponto de vista russo “faz sentido” defender.
Sem dotes de adivinhação, desconfio que a Rússia não terá um sucesso militar muito diferente na Síria do atingido pelos EUA. Do ponto de vista pragmático seria óptimo que o Ocidente visse a Rússia como um aliado no combate ao fundamentalismo islâmico, mas não será essa a ideia de Putin. Quer pelos aliados seleccionados por Putin (o Partido de Deus libanês e a Guarda Revolucionária iraniana), quer pela permissa que aponta para que a única forma de acabar com a guerra na Síria é apoiar a criatura que matou sete vezes mais gente do que os facínoras do Estado Islâmico, que está bem alimentado por combatentes do Cáucaso. .
Uma nota final: as políticas internacionais da Rússia e dos EUA nunca deixaram de ser complementares.e não deixa de ser curioso que as duas maiores potências do mundo estejam cada vez mais envolvidas e manipuladas na guerra entre sunitas e xiitas.

Adenda: Putin in Syria: Russian Airstrikes Begin, But ISIS Is Not Primary Target.

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9 pensamentos sobre “Muito mais do que um gesto de Putin

  1. Baptista da Silva

    O primeiro ataque dos Russos foi hoje, destruíram um paiol e mataram uns “terroristas”, mas na realidade não eram do Daesh, eram opositores de Assad (França dixit).

    O que tem lógica, o Daesh é ameaça para Assad, mas não é a maior na região.

  2. lucklucky

    Não veremos nenhumas declarações do PCP e da Esquerda….nem dos “defensores dos direitos humanos”, não veremos também por exemplo a palavra “escalada militar” entre outras nos jornais.

    Quanto ao resto isto é resultado do jornalismo ocidental.

  3. Fernão Magalhães

    Isto é como nos tempos de escola, o professor saiu da sala (os EUA) pedindo aos alunos para ficarem quietos, como é sabido isso dura 5 minutos, assim que os alunos se apercebem que o professor vai demorar (pelo menos até às eleições de 2016) começa a agitação e fica a lei do mais forte… A europa é o professor da sala ao lado, que finge não ver para não se chatear…

  4. JS

    “… as duas maiores potências do mundo estejam cada vez mais envolvidas e manipuladas na guerra entre sunitas e xiitas….”.
    Sim. Ess é o ponto nevrálgico da questão. Os Estados Unidos da América e a Federação Russa envolveram-se, foram manipulados (pelo rei crude?), numa guerra de outros. Ainda por cima “religiosa”.
    É o que acontece quando o poder político é exercido por “temporários”. Miopia política.
    A miopia afecta a capacidade de focar objectos distantes.

  5. José7

    A afirmação Assad «a criatura que matou sete vezes mais gente do que os facínoras do Estado Islâmico», e que quase transforma os animais mascarados de homens do EI em pombinhas, é muito precisa. Pode indicar onde obteve a informação? Para que não interprete mal a pergunta, esclareço que que entre a liberdade e a igualdade escolho sem hesitar a liberdade, assim já sabe onde me situo no espectro político.

  6. ruicarmo

    A informação foi retirada de um observatório sírio ligado à oposição. Admito que dada a extensão da guerra e das dificuldades em conseguir números que possam ser considerados como fidedignos e apurados por organismos internacionais independentes, a informação possa estar deturpada. É um risco meu. O objectivo da afirmação é precisamente fazer passar a ideia que de um lado e outro do conflito há animalidade para dar e trocar. Creio que as pombinhas se extinguiram na zona.

  7. ruicarmo

    Mas vale a pena ler o artigo do Telegraph que está linkado no post sobre as façanhas de Assad: desde a ligação de Assad aos terroristas islâmicos e o fetiche familiar por assassinar civis.

  8. José7

    RuiCarmo é inevitável que temos de optar e na Síria não há terceira alternativa. Mas o ponto é este: o EI mata tudo o que não é da cor, incluindo calhaus…
    Cumps

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