Desta vez, não digam que não foram avisados

17860814_OPp96Em 2005 era muito fácil votar em José Sócrates. Tudo o que se conhecia dele resultava dos debates televisivos com Pedro Santana Lopes. Comparado com Santana Lopes, Sócrates aparecia como alguém calmo e ponderado, ainda longe do “animal feroz” que viria a revelar-se já no poder. Sócrates tinha uma boa imagem e era um moderado, apoiado pela área centrista do PS. Tinha também acabado de derrotar a ala mais à esquerda do PS representada por Manuel Alegre, empurrando alguns eleitores mais radicais para o Bloco de Esquerda. Perante as alternativas, e o que se conhecia dele, José Sócrates era um voto aceitável para o eleitor ao centro. Quem votou José Sócrates em 2005 não tinha forma de saber o que iria acontecer depois. Não tinha forma de antecipar a gestão ruinosa (para não dizer criminosa) dos dinheiros públicos. Não tinha forma de antecipar as tentativas de controlo da comunicação social. Não tinha forma de antecipar o animal feroz que sairia dali: José Sócrates era um tipo afável com jornalistas.  Até as promessas megalómanas eram difíceis de contrariar. Os problemas de finanças públicas e a possibilidade de bancarrota eram ainda um cenário distante para a maioria dos portugueses, apenas apontado por alguns blogues ainda com poucos leitores. Era muito fácil cair na histórias das promessas irrealistas e do dinheiro barato. Quem votou José Sócrates em 2005, não tinha obrigação de saber em que é que votava.

Mas com António Costa não terão a mesma desculpa. Depois de tudo o que aconteceu no país, António Costa fez questão de se rodear das mesmas pessoas que rodearam José Sócrates. Fez questão de escolher para seus conselheiros próximos, incluindo o seu director de campanha, pessoas da ala mais radical do seu partido. Tal como José Sócrates mais tarde, Costa desenvolve projectos para o país sem explicar de onde virá o dinheiro que pagará por eles. Costa apresenta números, mas sem apresentar contas. Costa nunca se desculpou pelos erros passados do PS e pelo despesismo. Aliás, foi o facto de Seguro ter feito isso que incentivou a trupe de Costa a puxar-lhe o tapete dentro do PS. Ainda antes de ter poder, António Costa já demonstrou por muitas vezes que tem uma má relação com os jornalistas que não sigam a sua linha. Já tentou por mais que uma vez condicionar o seu trabalho e já colocou pelo menos dois grandes jornais como porta-vozes de panfletos partidários. Repito, fez isto tudo antes sequer de ter o poder de um primeiro-ministro. Costa assumiu logo um estilo agressivo para com adversários políticos e jornalistas. Revelou também uma profunda incompetência na gestão da sua própria campanha e das finanças do seu partido (que serão bem mais fáceis de gerir do que um país).

Se António Costa ganhar e levar o país para a mesma situação que Sócrates levou, quem o eleger desta vez não terá desculpas. Ao contrário de José Sócrates em 2005, em 2015 não é difícil antecipar o que fará Costa no poder. Desta vez, não poderão dizer que não sabiam, que não foram avisados.

13 pensamentos sobre “Desta vez, não digam que não foram avisados

  1. JP-A

    “Tudo o que se conhecia dele resultava dos debates televisivos com Pedro Santana Lopes.”

    Ouça o primeiro minuto e atente na década. Meteu judiciária e tudo, mas ninguém sabia. Só souberam depois!

  2. rrocha

    Foi descoberta uma nova fobia em portugal.
    E uma fobia que afecta alguns sectores da população portuguesa com os sintomas de medo /pavor pela personagem ex 44 após um longo estudo dar o nome de socrafobia.

    Agora a serio o Costa não e o Sócrates 2005 para bem ou mal ele já tem vários anos frente da câmara de Lisboa ai já podem analisar melhor o seu comportamento.

    deixo aqui esta pequena pérola que li no OBSERVADOR
    “Governo aumenta salários de 11 mil enfermeiros a cinco dias das eleições”
    certamente tem a memoria do aumento feito aos Func. Públicos pelo Sócrates antes das eleições e o que aconteceu depois…
    descubra a diferenças

  3. Nelson Goncalves

    (teclado estrangeiro, lamento os erros ortograficos)
    Nao concordo com duas coisa que afima.

    1. “Era muito fácil cair na histórias das promessas irrealistas e do dinheiro barato. Quem votou José Sócrates em 2005, não tinha forma de saber melhor.”

    Pelo contrario, so’ idiotas e’ que acreditam que o dinheiro nasce nas arvores. E no caso concreto do Costa, este ate’ apresentou um programa escrito por gente com competencia tecnica. Se o programa e’ valido, ou Costa percebe o que la’ esta’ escrito, isso e’ outra historia

    2. “Revelou também uma profunda incompetência na gestão da sua própria campanha e das finanças do seu partido (imaginemos o que será a gestão do país).”

    Na gestao da campanha do PS, sim. Mas as financas do partido, ja’ discordo. O PS estava falido (por obra e graca do 44) e Costa pouco ou nada podia fazer uma vez que as grandes fontes de financiamento dos partidos sao constantes fora de eleicoes. Claro, podia alienar patrimonio, subir as quotas, etc… Mas isso iria contra os desejos dos que votaram nele para apear o Seguro.

  4. Revoltado

    Estou farto de dizer o mesmo. Costa é muito mais perigoso que Sócrates. Convém não esquecer a cena da sms enviada “por engano” aos militantes do PS no dia das eleições internas. Ou o espectáculo de utilizar o nome das mulheres mortas pelos maridos num comício do partido. Nem a arrogância e agressividade para com o jornalista da rtp. Este homem não tem carácter e, pior que isso, não tem a vergonha de o esconder. Se ele se comporta assim perante a opinião pública, como será dentro do seu gabinete?

  5. JP-A

    “Costa é muito mais perigoso que Sócrates.”

    Totalmente de acordo, e de resto com todo o seu restante texto. O Costa Concórdia tem todos os sinais do idiota fazedor, tipo bulldozer. Alguns dos raciocínios são mesmo absolutamente primitivos, e talvez daí o forte apoio interno. O caso do Benfica e do quartel de bombeiros são de pôr os cabelos em pé! A história da Red Bull Air Race é de filme siciliano. A proposta de lei para emendar uma lei que ressalve políticos de casos judiciais e que constava do programa original do PS é outro caso da maior gravidade. Mas há mais: ele num dia assume posições de princípio sobre a reserva de casos judiciais e no dia a seguir está a fazer insinuações sobre a Tecnoforma e os submarinos que o PS inventou, que eram quatro e de que o candidato presidencial socialista disse cobras e lagartos do PS na AR, em comissão, com afirmações gravíssimas. A intervenção e os comentários relatados pela reportagem da SIC aquando do caso Casa Pia são outra fotografia do caráter e da ingerência perigosa no sistema judicial e as pessoas em Portugal continuam a insistir na reserva do carácter e das discussões sobre o carácter dos que pretendem governar o nosso país, o que é nosso, e o nosso futuro.

    Também não se percebe como com o partido liderado por ele pode ao mesmo tempo ver correr notícias sobre a incapacidade de pagar contas, e ao mesmo tempo inundar com cartazes. Há aqui qualquer coisa de aterrador na essência deste homem.

    Para mim a competência, a experiência e a imagem política deste homem é uma das maiores construções artificiais alguma vez levadas a cabo em Portugal. É uma espécie de figura da mitologia política.

    É por isso que bem lá no fundo gostava de o ver governar, só que infelizmente o meu país não se pode dar a luxos nem a espetáculos masoquistas desse calibre.

  6. Pacheco

    Tudo muito bem explicado. Mas a hipótese de Costa ganhar nem se põe mesmo sabendo que os socialistas funcionam como os adeptos de um qualquer clube de futebol. Insulta-se; jogam uns contra os outros; mas não deixam de ser xuxialistas.
    Esses votos são certos.
    Felizmente que a grande maioria dos eleitores não têm cartão d Clube do Largo do Rato. Sendo assim não é difícil prognosticar que a Coligação vai ganhar para bem de Portugal e dos portugueses

  7. Troufa de Barros

    Busquemos um pouco na memória: “Todo o PS está com Sócrates”, Soares dixit; “Quem se mete com o PS leva”, Jorge Coelho, dito Coelhone. Desta duas frases, reveladoras do caracter dum partido, que explica o caracter dos seus dirigentes de topo, se fica a perceber tudo. Os socialistas, agora, já nem dizem que Sócrates é inocente e por isso estão com ele; agora, certificam antes que, mesmo se culpado, estarão com eles pois É UM DOS NOSSOS (DELES). Este tipo de mentalidade, que é por si mesma uma prática, revela o que de facto o PS é, ou se transformou: uma associação de primários, roçando a qualidade de proto-delinquentes. E o resto é apenas agit-prop. Eis o que explica a agressividade actual de Costa: asseveraram-lhe que tinha de se mostrar um duro,como o ex-44, pois só assim calaria fundo no gosto e na esperança dos militantes, que verdadeiramente querem é ser conduzidos por “animais ferozes” políticos. É este o rosto do actual PS…se é que o não foi sempre.

  8. PiErre

    Quem o eleger terá alguma desculpa porque foi enganado. Quem não tem desculpa é a Constituição porque não prevê um forte castigo, como a ilegalização, aos partidos que levem o país à bancarrota e a interdição de direitos políticos aos indivíduos responsáveis por esse crime gravíssimo.

  9. Rinka

    “Quem não tem desculpa é a Constituição porque não prevê um forte castigo, como a ilegalização, aos partidos que levem o país à bancarrota e a interdição de direitos políticos aos indivíduos responsáveis por esse crime gravíssimo.”

    Se isso proibir a *PàF contem comigo para suportar essa alteração constitucional 😀

  10. Rogerio Alves

    “Quem votou José Sócrates em 2005 não tinha forma de saber o que iria acontecer depois” (!!!) Não me considero um iluminado, mas não esperava nada muito diferente do que Sócrates veio a ser (porque sempre foi). Não tenho dúvidas que muitos perceberam logo o que o homem valia e do seu potencial destrutivo. A única desculpa para que a sua bestialidade não fosse tão evidente para muitos é a mesma de que goza Costa: uma CS muito pouco crítica, para não dizer cúmplice!

  11. pd

    Ao Sr. RROCHA (2º post no topo da lista, o que me diz sobre o perdão fiscal que o Costa concedeu ao S.L.Benfica para, descaradamente, obter uns bons milhares de votos aos adeptos do club?

  12. Pingback: Um Cenário Evitado? | O Insurgente

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