“Com a verdade me enganas”

Ora, então, e continuando a recorrer à sabedoria popular, chegamos ao provérbio “com a verdade me enganas”.

António Costa gabou-se ontem à saciedade de ter reduzido em 40% a dívida da Câmara Municipal de Lisboa. Verdade? Verdade. Passos Coelho chamou-lhe a atenção que tal só ocorreu porque no quadro da privatização da ANA, a CML e o Estado resolveram um litígio antigo, que se arrastava desde 1989. Verdade? Verdade. E o imbróglio resolveu-se, porquê? Porque havia dinheiro fresco, a pagar pela ANA.

Como se operou o negócio? segundo o JN:

“(…) o Estado assumiu o pagamento de 286 milhões de euros da dívida bancária de médio e longo prazo do município de Lisboa, em troca da propriedade dos terrenos do Aeroporto, que opunha em tribunal a autarquia à Tutela, desde 1989. Segundo o (…) António Costa (PS), o Governo paga 43% do montante em dívida – libertando o município do pagamento de mais de 22 milhões de euros de juros anuais (…)”.

O mais curioso em toda esta história é que Costa se gaba de um feito de gestão que só foi possível no quadro de uma privatização exigida pela Troika, e que lhe caiu literalmente do Céu. Pelo caminho, ficamos a saber que Costa ontem diz ter reduzido 40% da dívida da CML, apesar de só com o negócio da ANA ter-se reduzido a dívida bancária em 43%. Mais se nota que o que ocorreu em Lisboa, ocorreu no Porto, não sendo propriamente esta operação um mérito de ninguém, que não de quem liderou com sucesso a privatização.

Uma coisa é certa: António Costa é dos poucos que pode agradecer à Troika por ter vindo para Portugal, tendo ainda ontem manifestado as razões da sua enorme satisfação, ao ponto de se gabar em público, em jeito de auto-elogio, em pleno debate, dos feitos que conseguiu graças ao cumprimento do Memorando: fez-me lembrar um cidadão do meu Norte de Portugal, com pinta de camóne, que, depois de ter ganho o Euromilhões, passou a falar como se fosse um grande empresário. Programas políticos à parte, é este tipo de esperteza saloia que queremos de regresso ao Governo de Portugal?

(Ler, também, “Na Confiança está o perigo”).

11 pensamentos sobre ““Com a verdade me enganas”

  1. Francisco D.

    Ainda falta acrescentar o impacto na reavaliação de imóveis para efeito de IMI (que permitiu diminuir a taxa em Lisboa para todos) e o aumento de IMT devido aos vistos gold

  2. Rui Cepêda

    Caro Rodrigo, tem toda a razão. O que não se compreende e é lamentável, é a falta de preparação do PM para responder “à letra” deixando passar em claro o ar indignado do Costa. Como se lhe estivesse a ser retirado o mérito que não teve.
    Conviria dar mais atenção a estas habilidades de feira, típicas deste tipo de aldrabões.
    De resto PC só respondeu à segunda ou terceira gabarolice do Costa nesta matéria.

  3. João de Brito

    É esta a democracia que temos.
    A Abstenção é, desde há muito, a entidade política mais significativa .
    São pessoas que naturalmente não estão interessadas a ver e a ouvir mais do mesmo, que é péssimo, pelos mesmos de sempre, que são péssimos.
    Então, antes que resolvam tornar o voto obrigatório, o que fazem os mesmos?
    Põem todos os canais televisivos a dar o mesmo pelos mesmos ao mesmo tempo!
    Assim, não há alternativa.
    Qual seria a audiência da coisa numa noite de programações normais?
    Muito provavelmente seria mais um cartão amarelo aos mesmos.
    Mas os mesmos não querem nem deixam.
    A isto chamam democracia.
    Uma vergonha!
    Viva a Abstenção!

  4. JP-A

    Para quem há menos de um ano dizia que Portugal necessitava urgentemente de acordos alargados, o que disse ontem no fim do debate quando questionado sobre se contava com os outros partidos é totalmente esclarecedor. Afinal o problema não era estarmos a um ano do fim da legislatura e não haver legitimidade. Mas o que encanta mais é a doçura do afastamento do 44. Para quem defendeu com violência as referências de Seguro à corrupção no último debate que com ele teve, é um bocado estranho. Nem parece o mesmo.

  5. José7

    A banha da cobra é um produto que sempre se vendeu muito mais facilmente que a realidade. O Costa é um vendedor de banha da cobra.
    A duvida que existe sobre o resultado das próximas eleições, é saber se os eleitores que votam têm ou não esta perceção.

  6. Asc@

    Quando chegou as 12 vezes que Passos pronunciou o nome de Sócrates no debate ….ele não aguentou mais e começou a rir ………

  7. A. R

    A Troika foi amiga do lelo Costa: até com a subida do IMI a câmara ganhou. E Costa embolsou entretanto muitas dezenas de milhares em baboseira televisivas: aquela mulher que contactava o além dizia coisas mais acertadas.

  8. Revoltado

    Tanta incogruência no discurso do Costa assusta-me. Em primeiro lugar fico com a sensação de Costa ser uma pessoa muito perigosa. Talvez mais do que Sócrates. Se um tinha um ar carismático, o outro passa uma imagem simpática. Não sei qual destes é mais eficientes a contagiar os eleitores. Mas o Sócrates, pelo menos no início da sua aventura política, era coerente. Não dizia hoje algo para dentro de algumas semanas dizer o contrário. Este Costa é um autêntico cata-ventos (Syriza, TAP, pensões, estado do país) sem a mínima coluna vertebral ou dignidade (Seguro). Ainda hoje, depois de ontem ter dito claramente no debate que não se arrependia de nada (ao invés, o PM admituiu que teve algumas medidas difícies) veio acusar o PM de ter dito que não se arrependia de nada! Tal o desplante e o á-vontade com que este homem mente em frente ao país. O mais grave é que não há ninguém que o contraponha com os factos. O PM perdeu ontem uma excelente oportunidade e a partir de agora ele não se vai expor em nenhum debate com um jornalista sério que o possa entalar. Estaremos a ser encaminhados para um governo liderado por um louco… Não aprendemos nada?

  9. JS

    Um toma como sua uma gestão, na Camara de Lisboa, que foi negócio de outros.
    Outro durante 4 anos não conseguiu, ou não teve interesse em, controlar o “monstro” que devia ser na pior das hipóteses 43% mas é mais que 50%.

    Como João de Brito mais uma vez: abstenção. Pelo menos não me sinto co-responsável a apoiar esta absurda teatralidade “eleitoral”.

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