Em defesa da UE na crise dos refugiados

A questão dos refugiados tem suscitado duras críticas sobre a atuação da União Europeia (UE), havendo quem lhe atribua uma inércia, uma incapacidade em tratar o tema, sendo, pelo contrário, lesta a tratar outros assuntos como a moeda única e a crise grega. Contudo, há uma questão em relação a esta crise humanitária que não tem sido aflorada, parecendo-me que a mediatização do tema (e as redes sociais não ajudam…) tem exagerado a quota de responsabilidade da UE em encontrar uma solução rápida e eficaz para este drama. A imprensa tem colocado a questão como sendo uma crise humanitária que o Ocidente, em concreto a Europa, deve resolver e aparentemente não o tem conseguido fazer. Mas será que, mais do que criticarmos a Europa, não deveríamos enfatizar o papel generoso e a sua atuação altruísta na integração de refugiados e emigrantes ao contrário de muitos países islâmicos – com a exceção dos países fronteiriços com a Síria naturalmente incapazes de erguer fronteiras – que se limitam a criar barreiras, fechando-se, para que essas pessoas lá não cheguem? Por outro lado, a Europa não tem culpa de um problema que é um dos mais antigos da História da Humanidade nem lhe devemos exigir que, com uma varinha mágica, o resolva. A imagem daquela criança morta toca-nos profundamente, o desejo de a socorrer corre-nos no ADN, o ímpeto é fazer qualquer coisa, mas o que seja essa coisa é secundário e, para alguns, vai desvanecendo com o passar do tempo. Não seriamos humanos se não sentíssemos um espasmo de choque; mas a responsabilidade da morte da criança não é culpa da Europa mas, isso sim, de Assad ou do ISIS.

Há, contudo, um aspeto que devemos discutir: sendo a maioria dos refugiados de uma determinada religião, Muçulmana, – o que, entenda-se, não é positivo nem negativo – e sabendo que existe uma entidade chamada Organização para a Cooperação Islâmica (OCI), composta por 57 países, que formam quase 1/3 da ONU, dos quais fazem parte as 23 nações que compõem a Liga Árabe, cujo objetivo, na sua Carta, é 1. Promover e consolidar os laços de fraternidade e solidariedade entre Estados Membros (…); 19. Cooperar e coordenar em emergências humanitárias, tais como desastres naturais”, que se propõe, num plano de ação a 10 anos, “afirmar um compromisso com a solidariedade Islâmica entre os Estados Membros”, pergunto: será que os laços de solidariedade, tolerância e religião, que unem estes 57 países, formalizados num tratado, não se manifestam no momento de catástrofe humanitária em que há um verdadeiro êxodo do povo muçulmano rumo à Europa?

Este problema tem sido tratado de forma tão eurocêntrica, que ficou esquecida qualquer crítica aos países islâmicos o que, bem vistas as coisas, vem provar que a superioridade moral europeia vem ao de cima, exigindo-se à Europa, aos países europeus, aquilo que se tolera aos países islâmicos. Mais uma vez, a Europa está sob crítica quando talvez devesse ser enaltecida. Afinal, os refugiados viraram-se para nós porque o Islão lhes fecha as portas. Onde estão as grandes potências árabes que se levantam imediatamente para financiar terroristas sob a alegada proteção dos muçulmanos e do islamismo? Apesar da retórica da união islâmica que aquela instituição parece sugerir, ficamos com a impressão de que os países muçulmanos não conseguem lidar com desastres humanitários, nem salvar as vidas de outros muçulmanos e confiam exclusivamente (ou, com a sua inação, transferem essa obrigação moral) no Ocidente, na Europa, para salvar as vítimas da jihad.

Ainda assim, a comoção europeia (que ontem atingiu um nível elevadíssimo com a fotografia de uma criança na praia exaustivamente partilhada nas redes sociais por todos quantos querem provar que também estão em choque e têm sentimentos mas 3 ou 4 dias depois já nem se lembram do nome do menino), a forma como os povos europeus exigem respostas dos seus Estados – sim, com a Alemanha a liderar o processo –, a maneira como todos queremos respostas a uma situação que entendemos ser inaceitável, tudo isto são provas de como, afinal, do ponto de vista civilizacional, e apesar de todas as nossas fragilidades, estamos humanitária e moralmente uns níveis acima. A génese da civilização europeia, a sua matriz cristã, ainda é um elemento de progresso face a um Islão que nesta altura devia dar uma resposta. Mas não dá.

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15 pensamentos sobre “Em defesa da UE na crise dos refugiados

  1. Luís Lavoura

    A Graça parece não reparar numa coisa: os refugiados dirigem-se para a Europa porque querem vir para a Europa. Eles não se dirigem para a Arábia Saudita nem para o Irão. Pela simples razão de que não querem ir para esses países.
    Ou seja, a Graça não tem que culpar a Arábia Saudita, nem o Irão, nem os restantes países muçulmanos. Eles não recebem os refugiados pela simples razão de que os refugiados não pretendem ir para lá.

  2. Marco Teixeira

    1: A inépcia de alguns países ricos muçulmanos que servem de quando em vez de saco de pancada (amigalhaços quando compram alta costura francesa, carros alemães ou armamento inglês) não deve impedir a Europa de tomar uma acção.
    2: Muita da instabilidade que se vive no médio oriente é responsabilidade directa de acções perpetradas pelas potencias europeias (França, Inglaterra) e pelos EUA desde a queda do Império Otomano, ao longo dos últimos 100 anos Não estou aqui para dar lições de história, informe-se.
    3: Alguém que se assuma cristão (sou cristão por aquisição cultural não por fé) deve como alguém terá dito estes dias ajudar quem mais precisa em momentos de grande necessidade sem atender à religião ou à raça dos necessitados.

    Com isto não se está a defender o multi-culturalismo à força, a integração desenfreada e descontrolada de todos os que pretendem migar para a Europa. Apenas a alertar que quando há uma ferida profunda deve-se colocar de imediato um garrote. Outras preocupações revelam apenas falta de humanidade,

  3. Estranho, este post.
    Não faz sentido nenhum pelo simples facto de que os refugiados estão a vir para a Europa e não para os países islâmicos.
    Além disso, queixa-se que se exija da UE uma maior responsabilidade moral do que a um país, como a Arábia Saudita, cujo sistema de justiça permita que se decapitem pessoas na praça publica?!
    Queres o quê, que te dê os parabéns?…

  4. O Luis Lavoura está redondamente enganado, aliás, como sempre. Se tivesse visto os links, teria percebido que a Arábia Saudita bloqueou as suas fronteiras a refugiados, e dispara a matar para quem lá tenta entrar. Ao que acresce que os países do golfo não se disponibilizaram para receber NENHUM refugiado: lê e deixa de dizer coisas ignorantes: https://www.amnesty.org/en/latest/news/2014/12/facts-figures-syria-refugee-crisis-international-resettlement/

  5. A.R.Amigavel

    Meu Caro
    Dar alvissaras a matriz conservadora cristã da Europa em contraponto ao islamismo medieval para explicar o êxodo maciço de refugiados do medio oriente que buscam refugio no velho continente é tão redutor tanto quanto a critica que justamente faz da OCI pois a Europa é a Europa não por se cimentar em valores cristãos mas sim por ideiais iluministas encabeçados pelo laicicismo dos seus estados.
    Ao ler o que escreveu tenho a plena certeza (hoje em dia uma palavra perigosa) que algures no medio oriente algum membro afecto dessa coisa abjecta e inventada para propositos que transcendem a propria religião dirá exactemente o mesmo que si, invertendo-se obviamente o papel dos intervenientes.
    A declaração universal dos direitos do Homem não têm qualquer matriz religiosa identitária mas sim uma forte componente de valores de senso comum básico para a preservação da vida humana.
    Essa presunção altiva da Europa civilizada que por aqui explanou esbarra com um sem numero de casos actuais que se explicam nas recentes palavras de David Cameron.
    Portanto, para um país «quasi» milenar que só recentemente foi identificado pelos seus pares como país europeu tal o desconhecimento da sua existencia para a maioria dos “europeus” seus congeneres e que sempre viveu sob o jugo castrador do ultra conservadorismo cristão, vir a terreiro resumir distinções e separatismos quanto a responsabilidades é de uma postura pouco propria para alguem que até se diga cristão.
    Pergunta: O que teria acontecido se a imagem do menino não se tivesse tornado viral? E quantos meninos morreram em praias identicas no mais completo anonimato? será que, nós, os europeus civilzados, deveriamos ter “recomendado” que fossem morrer nas praias do Dubai?

    A pensar … ou não

    A.R.A

  6. lucklucky

    Tivemos aqui 3 comentários saídos directamente da Culpa do Ocidente construída durante décadas pelo Jornalismo Marxista.

    “Muita da instabilidade que se vive no médio oriente é responsabilidade directa de acções perpetradas pelas potencias europeias (França, Inglaterra) e pelos EUA desde a queda do Império Otomano, ao longo dos últimos 100 anos Não estou aqui para dar lições de história, informe-se.”

    Deixe de ser racista, os Árabes é que estão lá, tomam decisões, são pessoas.
    Os Árabes da Síria, Iraque, Líbia poderiam ter construído algo pelo menos como Israel, mas escolheram construir Ditaduras Socialistas Árabe apoiadas pela Esquerda Marxismo europeia: Saddam, Khadafi, Assad.

    Foram estas ditaduras socialistas que construíram o desastre que vemos. O Homem Novo saido do Socialista Árabe afinal é muito parecido com o Homem Primitivo.

    Dezenas de países foram formados em poucas décadas, vários pouco beneficiados à partida conseguiram construir algo, podemos começar por Singapura…

    “Com isto não se está a defender o multi-culturalismo à força”

    Contradição total.

  7. Gaius Octavius

    Por falar em crianças mortas, fez ontem dez anos que ocorreu o Massacre de Beslan. Sobre isto, nos media portugueses, só encontre um artigozinho muito pequenino no Público. E estas de Beslan, ao contrário da criança síria, não morreram por acidente, foram assassinadas.

  8. lucklucky

    “Além disso, queixa-se que se exija da UE uma maior responsabilidade moral do que a um país, como a Arábia Saudita, cujo sistema de justiça permita que se decapitem pessoas na praça publica?!
    Queres o quê, que te dê os parabéns?…”

    O infractor é recompensado.
    Pelos vistos a UE deve começar a decapitar pessoas na praça publica, assim já não temos os relativistas como Ricardo com duas bitolas: É pá os gajos são criminosos logo têm mais direitos.

  9. Relativistas?! Antes pelo contrario, por achar que existe uma superioridade cívica tão auto-evidente relativamente a estados que praticam decapitações em praça publica é que acho esta discussão e defesa ridícula.
    Estão a tentar justificar esta situação dizendo que há quem seja pior… os estados islâmicos?!
    Só um complexo de inferioridade é que vos pode levar a darem-se a esse trabalho.

    Quero lá saber se os países islâmicos aceitam ou não os refugiados!
    O forma como os estados islâmicos actuam servem lá de standard para a posição e conduta da UE?

    Já agora, o infractor é recompensado em que sentido?

  10. Luís Lavoura

    Rodrigo Adão da Fonseca,

    obrigado por me ter chamado a atenção, com a gentileza que lhe é caraterística, para o linque em questão.

    Você tem razão: a Arábia Saudita recusou-se a receber quaisquer refugiados sírios quando as Nações Unidas lhe pediram para tal. Mas – a Europa fez praticamente o mesmo que a Arábia Saudita! Também não se ofereceu voluntariamente para receber refugiados sírios, a não ser um número minúsculo deles! Os únicos países que gramaram com os refugiados sírios foram, de facto, os vizinhos da Sìria (Turquia, Líbano, Jordânia e Iraque) e, em pequeno número, o Egito!

    E então eu questiono, que moral temos nós para criticar a Arábia Saudita, quando nós não fizemos melhor do que ela?

  11. A invasão do Iraque, interferência constante na Libia e Siria, Afeganistão, países africanos a sul do Magreb, por parte da Inglaterra e França, mesmo no apoio a Israel chama vexa não interferir e não ter responsabilidades!! Basta ver as declarações do Camarao e do holandinho e as medidas em Dover , para percebermos que o seu escrito, tendo muita coisa que concordo, passa muito ao lado. Quando a UE apoia com subsidios, corruptos nesses países e não cuida de ver se foram aplicados com eficiência, está ser ingénua ou conivente?

  12. Mas agora os imigrantes que chegam à Europa são todos sírios? os africanos são sírios? os paquistaneses? os afegãos? é natural. As imagens de “sírios” fugidos da guerra são mais comoventes e levam a que a opinião pública aceite melhor a invasão. Não é por acaso que, nos últimos dias, deixamos de ver as imagens dos africanos em Itália. Também fogem da guerra na Síria? outra coisa: uma boa parte dos “sírios” que chegam à Hungria são kosovares, do Kosovo “libertado” pelos americanos e aliados.

  13. Fernão Magalhães

    A Austrália já resolveu o problema há algum tempo, porque raio havemos de ser diferentes? ok a europa é de maioria socialista, estamos tramados…

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