Onde Costa vê “grande oportunidade”, eu vejo um “imenso oportunismo”

Enganem-se os que acham que as afirmações de António Costa configuram, apenas, mais um dos momentos Monty Python com que o líder do PS nos tem brindado nesta pre-campanha. Estão também errados os que consideram que aquilo mais não é do que um mero fait divers eleitoralista. Não, dizer – e confirmar – que acredita que o país deve acolher mais refugiados defendendo que essas pessoas ajudem na limpeza das florestas e no combate à desertificação, vendo nisso uma “grande oportunidade”, não é só uma anedota, mas um profundo desrespeito pela dignidade humana e, sobretudo, um atentado à liberdade. A Europa recebe cada vez mais emigrantes e refugiados, pessoas que fogem das mais diversas situações: perseguição religiosa, guerra, fome, projectando no nosso continente, muitas vezes de uma forma ingénua, o sonho de uma vida melhor, arriscando a vida à procura de um futuro para si, mas sobretudo, para os seus filhos. Para António Costa, a solução está logo ali à mão de semear: já que ninguém quer ficar no interior, desertificado, nem limpar as matas, porque não aproveitar esta mão-de-obra, que até tem experiência, para fazer o que nem os nossos desempregados querem fazer? Meus amigos, onde entra neste raciocínio o respeito pela liberdade, entendida como forma de afirmação da individualidade, como modo de lutar por uma vida melhor? Que raio de concepção tem António Costa sobre integração? É criar guetos rurais de muçulmanos refugiados nas aldeias recônditas do Portugal Profundo?

Falo com legitimidade, não nasci para este tema quando, horrivelmente, uma criança morta deu à costa do Mediterrâneo, chocando-nos a todos. Desde sempre que defendo a livre circulação de pessoas à escala global, em coerência com os valores de identidade, emancipação, e possibilidade de cada um poder lutar, independentemente da sua origem, por uma vida melhor. Escrevi-o várias vezes, como por exemplo, em 2006, aquando da criação de um Muro na fronteira entre os EUA e o México.

O que também escrevi, por várias vezes, é que há muito que as nossas ideologias não compreendem que o que tem ocorrido nos últimos anos não é apenas fruto de uma crise, mas de uma forte mudança, à qual os nossos políticos não sabem responder. Desde logo, porque não compreendemos o que significa verdadeiramente a globalização, e o que ela nos traz de irreversível (a esse título, remeto para o que escrevi em 2008, “Crise ou Mudança”, que julgo, ajuda a compreender as perplexidades que estamos hoje a viver na Europa).

Depois das afirmações de hoje, sou forçado a concluir que António Costa não tem a mínima preparação para ser Primeiro-Ministro de Portugal. A total falta de mundividência que demostra, a facilidade com que põe em causa os valores mais básicos, apenas para preencher um dado momento de campanha, mostram que nada mudou neste PS que nos ofereceu o pântano guterrista e a Troika. Terceira vez, desculpem-me, mas é burrice.

9 pensamentos sobre “Onde Costa vê “grande oportunidade”, eu vejo um “imenso oportunismo”

  1. Fernão Magalhães

    “defendo a livre circulação de pessoas à escala global” pode-me dar um exemplo de sucesso de um país que abriu as fronteiras sem qualquer restrições?
    “e possibilidade de cada um poder lutar, independentemente da sua origem, por uma vida melhor” posso ir viver para casa do António Costa, não vou pagar renda, vou viver melhor, tenho esse direito?
    “o respeito pela liberdade” não considera que Lisboa obrigar os seus contribuintes a pagar 2 milhões de euros de impostos para o apoio aos refugiados uma falta de respeito pela liberdade individual? O meu dinheiro corresponde a liberdade e tempo que eu perdi…

  2. Fernão Magalhães

    “uma criança morta deu à costa do Mediterrâneo, chocando-nos a todos” 100% de acordo, mas como é apresentado parece que a culpada é a Europa? ou são os tiranos e ditadores do outro lado do mar? o problema é que esses tiranos não financiam associações e organizações sem fins lucrativos (geridas pelos meninos mimados de colégio filhos do papá x ou y que dominam os media), e por isso há que reclamar é cá na Europa e tentar criar esse sentimento de culpa… tipica estrategia socialista: o teu sucesso é o resultado da miséria dos outros…

  3. Centenas de crianças inglesas foram violadas durante anos por gangues de paquistaneses. Não vimos as imagens. Quase cem por cento das violações cometidas em Oslo e na Suécia são-no por muçulmanos. Não vimos as imagens. Na última semana um rapaz de sete anos foi violado por muçulmanos num parque alemão. Não vimos as imagens. No Sábado um casal septuagenário italiano foi assassinado por um costa-marfinense. Ela foi lançada da varanda, ele foi degolado. Não vimos as imagens. Há duas, três semanas dois suecos foram assassinados no Ikea por eritreus. Não vimos as imagens. Só no primeiro semestre Malmo teve mais de trinta ataques à granada, responsabilidade de gangues islâmicos. Etc. Podia ficar aqui o resto da noite, mas seria cansativo. Tal como cansa a desonestidade intelectual dos media e dos pró-imigração.

  4. Fernando S

    O RAF tem razão : o que Antonio Costa propõe é éfectivamente pura demagogia oportunista.
    Toda a gente percebe que, a não ser que fossem presos e viagiados pela policia (e mesmo assim !…), a esmagadora maioria dos migrantes deixaria rapidamente o interior de Portugal e as tais ocupações, para ir à procura de verdadeiros empregos e melhores condições, provavelmente até no estrangeiro.

    Mas o que o RAF defende, “a livre circulação de pessoas à escala global”, que relativamente à crise actual dos migrantes significa escancarar as fronteiras exteriores da Europa, é irrealista e irresponsável. Nenhum pais mais desenvolvido, mesmo quando governado pela esquerda e por criticos em palavras de restrições à imigração, tomou até agora uma iniciativa do género. Mesmo com as fronteiras fechadas já existe actualmente um aumento significativo e regular do numero de estrangeiros nestes paises, cuja absorção e integração não tem sido facil e coloca inumeros problemas. Mesmo com as fronteiras fechadas a Europa está hoje confrontada com um afluxo de migrantes e refugiados dificil de gerir. Imagine-se o que seria se as fronteiras fossem abertas e a noticia se propalasse por esse mundo fora ?…

    Eu também admito que “a livre circulação de pessoas à escala global” poderá ser um dia uma realidade. Mas muita água tem ainda de passar debaixo das pontes. Para que tal fosse possivel o mundo teria de ser e estar em condições muito diferentes das actuais. O que é realista e razoável admitir é que os fluxos de pessoas dos paises menos desenvolvidos para os paises mais desenvolvidos (e vice-versa) vai continuar a um ritmo mais ou menos elevado nas condições actuais de restrições mais ou menos elevadas à imigração, e que estas populações irão sendo progressivamente, como maiores ou menores dificuldades, integradas e assimiladas. Até que um dia as fronteiras deixem de ser efectivamente indispensáveis e a livre circulação das pessoas se imponha de forma praticamente natural.

  5. fernando josé

    Caro Rodrigo Adão da Fonseca
    Tenho procurado por todo o lado e não encontro a gravação, julgo que em Alverca, onde António Costa faz “referencia” à resolução do “nosso problema demográfico” com a entrada dos migrantes…Essa parte que estaria colada à situação da limpeza florestal, desapareceu, não consigo obter a gravação vídeo, possivelmente censurado pelas próprias TVs.
    Que o disse, garanto que disse, pois ouvi e exclamei : ….” este tipo endoidou”….Lamento não ter gravado. Só uma chamada de atenção para esta frase de António Costa que não aparece, nem ninguém na Blogoesfera falou ainda sobre tal RESOLUÇÃO DEMOGRÁFICA…Proposta por Costa!
    Cmp.
    ftavares

  6. Agradeço a todos os comentários.

    Desde logo, eu sou a favor da livre circulação de pessoas, por uma questão moral. Assim como sou a favor da liberdade, e reconheço que por vezes ela tem de ser limitada – por questões, por exemplo, de segurança – também percebo que por vezes haja necessidade de limitar a liberdade de circulação – em prol precisamente dessa salvaguarda da segurança. Mas o princípio, está lá. Assumo que isto tem um grande impacto na forma como as sociedades têm de se organizar, e que há uma tensão insanável entre liberdade de circulação e o modelo social europeu. Sendo libertário, adepto da individualidade, defensor de valores como o mérito, e sem qualquer preconceito em relação a um certo darwinismo social, não me choca que a sociedade incorpore mais tensão e mais concorrência. O que me parece incoerente é uma esquerda socialista, que por um lado pede acesso irrestrito e eliminação de fronteiras, mas depois quer Estado Social para todos. Isso é que me parece irrealista.

    Em qualquer caso, reforço, a minha defesa da livre circulação de pessoas deve ser lida no plano moral e ético, é, digamos, aspiracional, vivendo eu bem com a necessidade, no plano concreto, de algumas restrições impostas, quer por razões de segurança, quer por incapacidade de absorver todos os que, no quadro da forma como estamos organizados, seriam empurrados para a pobreza e marginalidade, por falta de recursos e espaço para a integração.

    Quanto à questão religiosa e à dificuldade de integração das populações migrantes, aí nação tenho hesitações. Devemos ser suficientemente abertos para recebermos refugiados e emigrantes oriundos de todas as zonas do globo, e aceitar hábitos, costumes, e tradições distintas das nossas. Mas há uma modernidade que a Europa atingiu da qual nunca deve prescindir. É um problema de lei e de ordem, e de defesa dos ideiais de liberdade consolidados desde a era moderna, que fazem parte da nossa matriz cultural. O Islamismo é perfeitamente compatível com um modo de vida ocidental; as populações que queiram contudo viver o Islamismo num quadro cultural próprio da pre-modernidade, não devem ter espaço na Europa.

  7. Caro Rodrigo, permita-me que discorde do último parágrafo. O islamismo não é compatível com a modernidade. Poderá sê-lo no que diz respeito à utilização de alguns instrumentos da mesma, mas não no todo. Quais são as categorias que definem a modernidade? progresso, secularização, entre outras. Não estão presentes no islamismo. E nunca poderão estar porque, desde logo, o islamismo não aceita a secularização nem pode aceitar. Se a palavra do Alcorão é a palavra divina não há hipótese de alteração. Veja a diferença para o cristianismo. A hermenêutica começou, remotamente, em Espinosa e veio a desenvolver-se nos círculos protestantes. Porquê? entre outras razões porque a Bíblia não é a palavra de Deus directamente vertida, mas apenas inspirada. Isso permite a interpretação e a análise textual e crítica. Mas, no Alcorão, se temos uma palavra eterna, interpreta-se o quê? a posterior tradição islâmica vai no mesmo sentido e os grandes autores que influenciaram todo o movimento islamita no século XX abominam a modernidade e as suas realizações. Se me disser, repito, que o islamismo aceita certas realizações técnicas, como os aviões e outros equipamentos cuja venda tanto jeito dá aos hipócritas ocidentais, de acordo. Mas o conteúdo filosófico da modernidade é incompatível com o islamismo.

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