“Governo quer obrigar portugueses a pagarem leite mais caro”

Milk Numa visita a Chaves, o Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho veio dizer que o seu Governo está a procurar “sensibilizar a União a Europeia para a necessidade de ter uma alteração dos preços de referência” do leite, para assim impedir que “preços anormalmente baixos possam ocorrer”. O que são preços “anormalmente baixos” e o que os distingue de preços “normalmente baixos” ninguém sabe, muito menos o Primeiro-Ministro. O que ele sabe, e bem, é que os produtores de leite portugueses, parte integrante da “lavoura” tão querida do CDS e que este não se cansa de procurar proteger, dizem estar a viver uma “situação dramática” com a queda dos preços que se tem verificado desde o fim das quotas anteriormente estabelecidas pela União Europa. E sabe ainda melhor que estes lhe agradecerão todos os esforços no sentido de “corrigir” o problema.

Sem promoções no Pingo Doce para condenar, a Ministra da Agricultura logo veio consolar os produtores de leite, dizendo que a “preocupação” do Governo era fazer com que o preço do leite “pudesse subir”, para que assim fosse “efetivamente um mecanismo regulador, que neste momento entendemos que não está a ser”. Reunida com os seus congéneres de Espanha, Itália e França, Cristas explicou que iriam pedir na Europa “um aumento dos preços de referência, que permitem retirar produto do mercado quando o produto está em excesso – e que está a pressionar o preço para baixo – e com isso ajudar a regular o preço do próprio produto”. A crer no seu passeio a Chaves e o que lá disse, o Primeiro-Ministro dá o seu aval, e mais uma vez (não têm sido poucas) demonstra o quão infundadas são as acusações de que se trata de um “ultraliberal”.

Traduzidas do “politiquês” que esta gente adoptou em detrimento da língua portuguesa, as palavras da Ministra da Agricultura querem dizer apenas o seguinte: uma vez removidos os obstáculos à produção e venda do leite, a oferta do dito produto aumentou, e a procura por ele não foi suficiente para que quem o vende o fizesse a preços mais altos que aqueles que se têm verificado; legítima e compreensivelmente preocupados com a sua vida e o seu ganha-pão, os produtores agradecem que o poder político, sediado em Lisboa ou em Bruxelas, arranje um mecanismo que permita diminuir a concorrência que enfrentam, e assim garantir que possam cobrar preços mais altos pelo que têm a vender; e como a “lavoura” constitui uma dilecta clientela da coligação, esta última não quer deixar de lutar (ou, no mínimo, parecer fazê-lo) para que seja satisfeita a vontade da primeira.

Ou seja, a coligação achou por bem partir para eleições passando (como agora horrivelmente se diz) “a mensagem” de que quer proibir os portugueses de pagarem, pelo leite que compram, os preços baixos que as livres oferta e procura presentemente lhes oferecem; e que se “a Europa” deixar e um número suficiente de eleitores a quiser alçar de novo a São Bento, pretende usar o poder e a lei para beneficiar arbitrariamente um grupo de pessoas em detrimento de outras, pela simples razão de que as primeiras se movimentam melhor que as segundas no mercado da influência política, o único que prospera em Portugal. Tendo em conta o desprezo generalizado da população por todo e qualquer indivíduo que exerça um cargo político, e que por isso convém aos partidos “mobilizarem” os fiéis e clientes a irem votar, já que poucos para além destes estarão dispostos a dar o seu voto a quem quer que seja, a tal “mensagem” talvez seja uma boa ideia como estratégia eleitoral e de manutenção do poder. Mas como modo de o exercer, e princípio de governação, dificilmente poderia ser pior.

7 pensamentos sobre ““Governo quer obrigar portugueses a pagarem leite mais caro”

  1. MP

    Aparte anúncios da treta eleitoral,a fileira do leite tem problemas estruturais que tem de se corrigir naturalmente e que só se iludem com controles de preços. Por um lado há uma redução estrutural de consumo. O consumo per capita na UE vem descendo há vários anos. Por outro, o livre mercado e o recente fim das quotas de produção premeia quem é mais eficaz, bem como as economias de escala, áreas onde nós não temos facilidade. As correcções de mercado são dolorosas e devem ser respeitadas, mas não se resolvem com tabelamentos de preços.

  2. Revoltado

    Tenho pena que outras áreas não se possam liberalizar. Como seria bom para o consumidor português poder contratar um advogado romeno para fazer um parecer ou representá-lo num tribunal online? E os médicos? Termos acesso a um clínico na roménia (onde recebem 300€/mês) para nos dar uma consulta? Ah, se estes serviços fossem fluidos como o leite….

  3. ric

    Mais um impostozinho a juntar aos da electricidade, da água, das Scuts, dos combustíveis, das tartarugas, do buraco do ozono….
    Uma mina para alguns, sempre à custa dos mesmos.

  4. Luís

    «Por outro, o livre mercado e o recente fim das quotas de produção premeia quem é mais eficaz, bem como as economias de escala, áreas onde nós não temos facilidade. As correcções de mercado são dolorosas e devem ser respeitadas, mas não se resolvem com tabelamentos de preços.»

    A região com mais potencial para a produção, o Noroeste de Portugal, tem um problema de Ordenamento e de tamanho da propriedade, aliado à falta de dinamismo do mercado fundiário, às heranças indivisas e ao desordenamento urbano (cuja culpa, sublinhe-se, é toda do Estado).

    A Ministra ao invés de se preocupar com a regulação dos preços deveria andar preocupada com a solução para o problema das heranças indivisas, com medidas fiscais que fomentem o dinamismo do mercado de arrendamento e de venda de solos, medidas fiscais que fomentem muito mais o mercado de arrendamento e já agora facilidades burocráticas para processos de renaturalização de terrenos (já viram a brutalidade de casas, fábricas e armazéns em ruínas no Litoral Norte?).

    O leite de vaca é um caso perdido, a explosão do consumo de leite deu-se devido a fortes campanhas de marketing nos anos 80 e 90, mas agora os consumidores mais informados e com mais poder de compra estão a desistir por causa da associação ao acne ou ao cancro da mama, e estão a optar por outros produtos, como o leite de cabra e as bebidas de soja, amêndoa, arroz ou aveia. Sendo assim a tendência nos próximos anos será para continuação da queda do consumo.

    Recordo que antes dos anos 80 em boa parte do país consumiam-se apenas queijos de cabra ou de ovelha, e não leite. Conheço aldeias onde as pessoas nunca beberam leite de vaca e recusam-se a beber, mas consumiam queijos cabra. A bebida do pequeno-almoço era café (apenas com água).

    O consumo maciço de leite foi uma moda. Passou. Habituem-se e mudem de vida.

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