as virtudes do socialismo

Terminei a leitura de um livro de Victor de Sá, chamado A Crise do Liberalismo e as Primeiras Manifestações das Ideias Socialistas em Portugal (1820-1852), que me interessa porque eu próprio ando há alguns anos (inicialmente por desporto e, agora, em princípio, também com intenções académicas) a tentar perceber por que razão as ideias liberais clássicas nunca singraram em Portugal, apesar da nossa ligação histórica à cultura e à política anflo-saxónicas. É certo que o liberalismo é uma doutrina que se generaliza, na política, no século XIX, e que Portugal, apesar de ter tido uma má relação com os ingleses no princípio desse século e nunca ter deixado de ter uma profunda ligação a França, onde o liberalismo* era verdadeiramente um estatismo legalista, defensor dos direitos do cidadão e não exactamente dos direitos do indivíduo, manteve no ciclo do seu primeiro constitucionalismo ligações à cultura e à política de Inglaterra, sendo muitos dos liberais triunfadores de 1834 emigrados nesse país, como Palmela e Saldanha.

Victor de Sá era um velho comunista intelectualizado, daqueles de quem Álvaro Cunhal costumava desconfiar e pôr na reserva do partido. O gramscianismo nunca entusiasmou o velho líder comunista e os «intelectuais orgânicos» eram avis raras no paraíso comunista. O melhor era evitar misturas. Contudo, Victor de Sá foi sempre muito considerado no partido, tendo mesmo sido o primeiro deputado comunista eleito no norte do país. Esse curriculum, se não lhe acrescenta méritos, também não lhe retira a qualidade de ter sido um bom escritor e, na medida do que é possível num comunista adepto do «marxismo científico» e da análise da história pela dialética da luta de classes, o que escreveu lê-se muito bem e tem mérito. Tal como as cebolas ou as matrioskas (que ele certamente muito apreciaria), retirada uma primeira camada ou aberta uma primeira boneca (a luta de classes como método «científico» de interpretação da História), o que fica por baixo tem interesse e proveito. E é bem escrito.

Ora, se Victor de Sá não contribui, por aí além, para esclarecer as dúvidas que pretendo resolver com o aprofundamento do século XIX português, ele foi-me, todavia, muito útil noutros dois aspectos. O primeiro, na caracterização do socialismo pré-marxista, ou «socialismo romântico», «utópico» ou «pequeno-burguês», por contraposição ao socialismo dito «cientìfico», de Marx e de Engels, sobretudo, nos motivos da sua origem e nas finalidades que pretendiam alcançar. O segundo, pela revelação de algumas facetas curiosas de António d’Oliveira Marreca, um economista e político liberal do nosso século XIX, que ignorava e que o aproximam da Escola Clássica de Economia, o mesmo é dizer, de algumas posições de laissez-faire, coisa raríssima nesse tempo, em Portugal.

Sobre o primeiro socialismo, o de Robert Owen, Saint-Simon, Charles Fourrier ou Proudhon (este último, o mais odiado de todos, graças aos seus conflitos com Marx), Victor de Sá retira uma conclusão na linha da escola política a que pertence, mas que não deixa de ser interessante: eles eram essencialmente pensadores conservadores («pequeno-burgueses»), com receio da Revolução Industrial e das consequências que o progresso que ela trouxesse pudesse vir a ter. Sá cita, a este propósito, Ernest Labrousse, um historiador económico francês, também muito próximo do marxismo, que é conclusivo sobre os socialistas primitivos: «Eles desconfiam do progresso económico e aceitariam de bom grado um recuo, o retrocesso a uma sociedade económica mais primitiva, a título de compensação de uma sociedade mais justa». As finalidades desta «panaceia preventiva» dos malefícios do progresso industrial, como Sá designou os primeiros socialistas, eram quais, afinal? E responde: «Era uma reacção contra a tendência dos grandes capitais em esmagar os pequenos, das grandes manufacturas em arruinar as pequenas oficinas de artesanato, dos grandes armazéns em suprimir as lojas». Ora, descontando aqui as influências latentes da teoria da «concentração capitalista», o que Victor de Sá afirma sobre as origens do socialismo é que ele pretendia, tão-só, garantir o mercado de livre-concorrência. Ou seja, no fim de contas, o socialismo nasceu por temor do fim do capitalismo e não para o destruir. O socialismo acaba por ter as suas virtudes.

Sobre António d’Oliveira Marreca (1805-1889) não me alongarei muito. Direi apenas que foi um político e economista que sofreu uma evolução contrária à que seria desejável, já que passou da defesa quase integral do laissez-faire, da industrialização, do empreendedorismo empresarial e do livre-cambismo, tendência que o marcou quase até ao final da década de 40, quando faz uma inflexão no sentido exactamente oposto ao que tinha vindo a defender até aí. Marreca publicou, em 1838, umas Noções Elementares de Economia e de Estatística, mantendo também colaboração regular no periódico O Panorama, onde escrevia Alexandre Herculano, que tinha por Marreca consideração intelectual, como liberal, historiador e romancista histórico. Naquelas lições publicadas em 38, Marreca, que se dizia próximo de Adam Smith e David Ricardo, escrevia: «dizer que os direitos [alfandegários] tendem a proteger a indústria é quase o mesmo que dizer que os vermes tendem a prolongar a vida; a indústria só pode prosperar pela abundância de capitais, pelo melhoramento dos processos, pela actividade da produção, pela formação de estradas e canais, pela multiplicidade das saídas, pelo aperfeiçoamento do sistema monetário, pela difusão dos conhecimentos úteis e pela certeza da segurança social e da propriedade». Perante os que defendiam o proteccionismo das fronteiras nacionais, tema muito em voga no século XIX, até por causa do caminho-de-ferro, Marreca respondia: «Uma nação ganha tanto mais quanto importa, (…) porque exportar e importar não são operações diversas; são partes integrantes da mesma operação. Se a nação importa um produto estrangeiro é porque esse produto lhe saía mais caro fabricado nas suas próprias oficinas; ora a nação não pode comprá-lo senão com outros produtos nacionais. Se exporta estes para haver o outro, eis aí um fomento à exportação». Apesar de alguma ingenuidade e de um certo desconhecimento das «maravilhas» que o crédito pode operar, Marreca revelava-se um espírito verdadeiramente liberal e aberto, que não andava muito distante do espírito liberal clássico que marcava muitos economistas da época, embora quase nenhum em Portugal. A verdade é que, num documento de 1848-49, escrevia ele já o exacto contrário disto e condenava expressamente o «laissez-faire». Nada de novo, nem de muito original, nem nesse século, nem nos dois seguintes. Portugal do século XIX não teve genuínos liberais clássicos, e os poucos que se aproximaram de o poder ser cedo o abandonaram. É quase um mistério de cuja solução me gostaria de aproximar. Por enquanto, apenas uma conclusão: de facto, não é fácil ser liberal em Portugal.

__________________________________________________________________________* Ou os liberalismos, se considerarmos as duas tendências liberais, claramente distintas, patentes na Revolução Francesa, embora a primeira, de influência inglesa e norte-americana, tenha sido rapidamente ultrapassada pelo racionalismo jabobino.

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22 pensamentos sobre “as virtudes do socialismo

  1. Pingback: as virtudes do socialismo | BLASFÉMIAS

  2. 12graus

    Até me assustei
    Mas finalmente percebi que estão a falar de gente e de coisa do tempo da Maria Cachucha

  3. PiErre

    “Victor de Sá era um velho comunista intelectualizado, daqueles de quem Álvaro Cunhal costumava desconfiar e pôr na reserva do partido. O gramscianismo nunca entusiasmou o velho líder comunista e os «intelectuais orgânicos» eram avis raras no paraíso comunista.”
    .

    Não percebo o que é que as ideias de Victor de Sá têm a ver com o gramscianismo ou gramscismo, que é a corrente ideológica de raíz marxista, mas muito mais perigosa, que está a dominar todo o mundo ocidental.

  4. ecozeus

    “Esta coligação vai sofrer uma grande derrota ,ainda por cima com as manifestações que estão marcadas para o fim da campanha eleitoral e a GNR também vai marcar presença”
    Será que alguns iluminados já sabem quem é que vai ganhar as eleições, não deixa de ser estranho marcar manifestações no fim da campanha contra quem vai perder as eleições!

  5. lucklucky

    Obrigado pelo texto.

    Aqui um texto interessante do fim do Século XIX
    http://www.gutenberg.org/ebooks/24701

    A dissolução do regimen capitalista by Teixeira Bastos

    Demonstra a critica socialista aos empregos no estado por oposição aos pequenos negócios vistos como nobres! os perigos do crédito fácil. Até o defice a divida e aborto é criticado.

    Socialismo não Marxista. O socialismo que ainda não queria destruir a civilização.

  6. Euro2cent

    > Inglaterra, sendo muitos dos liberais triunfadores de 1834 emigrados nesse país

    Isto aqui. Os Quislings (“avant la lettre”) que essa invasão estrangeira impôs a Portugal nunca foram senão um enxerto mal amado no jardim à beira mar plantado.

    Não há liberalismo em Portugal porque os tugas são uma cambada de anarcas irredimiveis, benza-os Deus, e o liberalismo só grassa onde os donos fabricam o consentimento, e obediência entusiasta, do gado com facilidade.

    (Escapa-me um bocado a razão destas ânsias acerca da forma exacta como o gado é vareado. Parecem aqueles entusiastas dos carros que se preocupam se o motor é a gasolina ou diesel. Eventualmente seria mais interessante debater o rumo das viagens, conforto dos passageiros, etc.)

  7. Gil

    Rui a:

    Faz muito bem em recorrer a “historiadores económicos” como Victor de Sá (ou Armando de Castro, já agora), independentemente de terem opções políticas diferentes. O mais importante é a qualidade da investigação de suporte. E aí, tornam-se evidentes as perversões de base da constituição das nossas elites económicas, essencialmente rentistas e protegidas. Um dos acontecimentos ilustrativos da sua mentalidade, já em meados do séc. XX, foi aquando da discussão do 1º Plano do Fomento, o conflito entre os chamados “engenheiros” (adeptos duma maior abertura da nossa economia) e os agrários. Houve debates “épicos” e esclarecedores na então Assembleia Nacional que estão registados no diário das sessões.

  8. Roseta,

    «Esta coligação vai sofrer uma grande derrota ,ainda por cima com as manifestações que estão marcadas para o fim da campanha eleitoral e a GNR também vai marcar presença ……»

    As manifestações cheiram a TIRO NO PÉ. Um grito patético de desespero. Um motivo de chacota.

    Agradeço que façam protestos à brava. Sejam muito ruidosos e até violentos. Farão uma maioria absoluta à coligação ao levarem às urnas em protesto contra os protestos quem ficaria comodamente em casa.

  9. Justiniano

    Caro Rui A. apenas para o corrigir. Vitor Sá não foi o primeiro comunista a ser eleito, pelo PCP, norte do País. Isto pressupondo que os distritos do Porto e Braga são norte do País!!

  10. Spartacus Thraex

    Talvez o problema resida no facto de a “nossa ligação histórica à cultura e à política anglo-saxónicas” quase não existir de facto. Durante o todo o séc. XIX e XX nós estivemos ligados, isso sim, à cultura francesa. Não nos fez nada bem.

  11. “gramscianismo ou gramscismo, que é a corrente ideológica de raíz marxista, mas muito mais perigosa, que está a dominar todo o mundo ocidental.”

    Gramscianismo é simplesmente o nome usado, em referência aos meios marxistas, para referir aquilo que nas outras ideologias políticas é considerado “senso comum” – tentar ganhar influência política atravez de ganhar primeiro influencia intelectual; entre liberais, conservadores, anarquistas, fascistas, etc., isso nem precisa de um nome, porque parece evidente; mas no marxismo (que acha que a infraestrutura determina a superestrutura) é uma heresia, logo têm que ir buscar o avalo do Gramsci; imagino que o que Rui A. queira referir é que o Cunhal não ia muito à bola com esse desvio de dar muita importância aos intelectuais (como o referido historiador)

  12. d.m.

    É interessante que não conheça o Oliveira Marreca, que vai aparecendo quando se lê coisas do/sobre o séc XIX o que confirma a minha impressão sobre a geração dos vinte e muitos até aos 40: não conhecem bem a história de Portugal, nem a política nem a económica, nem a cultural. Quem não ler o ensaio de Eça sobre o francesismo não percebe minimamente o séc. XIX português. A ligação cultural a Inglaterra era de uma élite de algumas dezenas (sic) de pessoas. Nem sequer se falava inglês.

  13. d.m.

    O que Labrousse escreve sobre os socialistas franceses (não esquecer) primitivos assenta como uma luva a Salazar que via a industrialização como algo parecido com um mal necessário.

  14. PiErre

    Caro Miguel Madeira,
    Não partilho da sua ideia do “senso comum” das diversas ideologias para tentarem ganhar influência política. Os factos não confirmam essa asserção.
    Quanto à 2ª parte, ” imagino que o que Rui A. queira referir é que o Cunhal não ia muito à bola com esse desvio “, foi isso mesmo que eu entendi. Mas como o Rui A. me convidou a reler, eu fiz isso e ainda estou a pensar melhor no assunto.

  15. Simão

    Existem, sobretudo desde a Revolução Francesa, duas grandes ideologias dominantes: o Liberalismo e o Socialismo.
    Ambas de grande complexidade e de com bastantes variantes e interpretações.
    Ambas apaixonantes (pela complexidade, origem ocasionais “justaposições”, etc, etc) quando se faz uma análise profunda e no debate, sempre animado.
    Ambas, na prática, não existem em vigor em nenhum sítio do Mundo. Apenas graduações. Se alguém me disser que os EUA e a Inglaterra são essencialmente Liberais e que Cuba ou a Coreia do Norte são essencialmente marxistas rebolo-me a rir pela roncante ignorância (que é sempre atrevida e própria dos idiotas) de quem assim pensa.
    O ex Bloco de Leste (que bem conheço) foi Marxista na verdadeira acepção do termo ou não?!
    Claro que não: foi, essencialmente (e conforme o caso) Leninista.
    A Jugoslávia de Tito é um caso diferente.

  16. Simão

    Na realidade…..mais socialista que os EUA ou que o Reino Unido, assim de repente, não me ocorre…….nem a Grécia 🙂
    É só constatar a realidade anglo-saxónica que faz a Alemanha (berço histórico do Socialismo) parecer uma país ultra-hiper-mega-liberal………….embora continue a ser (pelo generosíssimo Estado Social que mete o nosso “num bolso”) um bando de perigosos socialistas. As ideologias e suas nuances são lixadas.
    A vida não é preto e branco.

  17. Marx escreveu tanta coisa (exemplo: comparar o “Manifesto do Partido Comunista” com “A Guerra Civil em França”, nomeadamente no que diz respeito ao Estado), que há muito que me convenci que é uma perda de tempo essas discussões sobre se o país A é/foi ou não “marxista” (facilmente se arranja uma citação algures para provar qualquer das opiniões)

  18. rui a.

    d.m., 19:12:

    «pela revelação de algumas facetas curiosas de António d’Oliveira Marreca, um economista e político liberal do nosso século XIX, que ignorava e que o aproximam da Escola Clássica de Economia, o mesmo é dizer, de algumas posições de laissez-faire» é o que está escrito no post, e não que não conhecia Oliveira Marreca. O que ignorava, se ler bem o texto, eram as tais «facetas curiosas» do homem, enquanto economista, a saber, as que o aproximaram , num curto período da sua vida, da Escola Clássica de Economia. Tão só.

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