verão chinês 2.0: sem a Revolução Cultural não se entende a China destes dias

shanghai redemption

É um cliché chinês dizer que sem Revolução Cultural não teria havido as reformas capitalistas de Deng Xiaoping da década de 80 (porque por um lado a RC escaqueirou a burocracia chinesa, que precisou de ser reconstruida e, por outro, horrorizou tanto a quase totalidade da população que ficaram todos mais que predispostos a aceitarem as soluções opostas às de Mao; da política até à literatura, os anos 80 chineses foram uma rejeição do coletivo e uma ode ao indivíduo). Mas não é só o capitalismo chinês que precisa da RC para ser entendido. Xi Jinping é também ele um rebento da RC, e o caído em desgraça Bo Xilai likewise (e a ‘nova esquerda’ que Bo liderava, então, era maoismo até à medula). Pormenor que eu adoro, porque ando por estes dias a escrever furiosamente sobre esta geração de jovens adolescentes que tiveram a sua vida revirada pela RC (os chineses de 3ª geração). É uma geração complexa, que, por ter levado com as maluquices maoistas, foi privada de educação formal. Primeiro as aulas das escolas foram suspensas para que os adolescentes se pudessem dedicar a espancar, torturar e até matar professores, secretários partidários e colegas das classes contrarrevolucionárias. E depois – porque o sucesso do socialismo é sempre inevitável e não havia empregos para tanta gente nas cidades, nem lugares nas escolas ou, sequer, livros escolares – foram enviados para ‘subir à montanha e descer à aldeia’ para se tornarem camponeses para o resto da vida nas zonas rurais chinesas. A consequência desta falta de educação formal foi o desemprego massivo desta geração nos anos 90 (porque não tinham qualificações para concorrer no mercado de trabalho da China capitalista). Depois de sacrificados pela RC, foram sacrificados pelas reformas capitalistas. Tough luck. Tirando uns poucos que escaparam a esta sorte e que tiveram destino oposto, tornando-se empresários multimilionários, artistas internacionalmente reconhecidos, autores de sucesso. Muitos expatriaram-se e vingaram nos países de acolhimento. Agora, são os senhores da política chinesa. E nota-se. Se Bo foi extirpado do PCC, na verdade Xi Jinping também tem muitos tiques maoistas.

Isto tudo a propósito do mais recente livro de Qiu Xiaolong, Shanghai Redemption, sobre a queda do neo-maoista Bo Xilai. Qiu escreve romances policiais. Eu sou fã do género, mas não é a qualidade do enredo que me faz ler Qiu Xiaolong desde aquele momento que comprei o Death of a Red Heroine na Waterstones de Guildford (sim, eu preservo estas memórias relacionadas com os meus livros). O que me vicia em Qiu é a forma como conta os meandros da vida de Shanghai, os pântanos políticos em que o Inspetor Chen se move para resolver os mistérios que lhe são muitas vezes impostos pelas autoridades partidárias, a descrição dos petty city dwellers das cidades chinesas, todos aqueles pormenores muito chineses que dificilmente um ocidental conseguiria descrever com a mesma autenticidade.

Um tema que perpassa por todos os livros de Qiu (sobretudo em Death of a Red Heroine) é o da classe social e da aristocracia partidária que o comunismo (oh, surpresa) criou. Que não é nada de novo da era da reforma, porque a classe social e os benefícios que advinham de se fazer parte de uma família da elite partidária comunista são assunto que também atravessou esse movimento de suposta igualitarização radical da sociedade que foi a Revolução Cultural. Em suma, os romances policiais de Qiu Xiaolong são uma muito boa introdução à estrutura social que o Partido Comunista Chinês criou.

Um bocadinho de uma entrevista de Qiu Xiaolong sobre Shanghai Redemption: ‘What really alarmed me was his grab for more power through the “Chongqing model,” which was informed with Maoist discourse and practice, including governmental directives for people to sing “red songs” in praise of Mao and the party in the pre-reform years. I shuddered at the memory of me standing helpless beside my father, who was ruthlessly beaten by Red Guards as those songs were originally sung. But my feelings had to do with much more than personal remembrance.’

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