Sobre o emprego e emigração

Falei aqui de alguns mitos sobre o desemprego e respectivos sinais de preocupação. Tendo desmistificado a histeria reinante demonstrando que afinal o “verdadeiros números do desemprego” não tinham tido uma evolução assim tão diferente dos números oficiais, houve quem se insurgisse (e ainda bem, este é o sítio certo para isso) contra a não inclusão do impacto da emigração no desemprego.
Compreendo perfeitamente que o façam, afinal a atenção mediática ao tema tem sido grande. Há bons motivos para não o fazer, no entanto. O primeiro dos quais é básico: os emigrantes estão, na sua maioria, empregados. Considerar emigrantes empregados nas estatísticas do desemprego ainda é mais deslocado do que contar, como eu fiz, com os trabalhadores em part-time. Segundo motivo é que os emigrantes são apenas um lado da história. Há também que contar com os imigrantes e os emigrantes que regressam. Se aqueles que saem do país ajudam a baixar a taxa de desemprego (na verdade, só têm um efeito de curtíssimo prazo), então aqueles que entram ou regressam deveriam fazê-lo a subir. Temos que olhar então para o saldo migratório:

saldomigratorio2Entre os que entraram e saíram do país ao longo destes quatro anos, houve um saldo negativo de 128 mil. Valor elevado, mas longe dos 500 mil que alguns falam.

Falemos então no emprego: a economia destruiu emprego nos últimos 4 anos desde a entrada da Troika. Mais precisamente, temos hoje menos 200 mil empregos no país do que em Maio de 2011 quando o país precisou de pedir ajuda internacional:

emprego2

No gráfico podem ver a evolução no número de empregados. Destaquei 5 pontos que merecem alguma atenção para compreender exactamente o que se passou com o emprego:

– O ponto 1 corresponde a Janeiro de 2010. Para quem não se lembra, o ano de 2010 foi um ano record na história portuguesa em termos de despesa pública e défice (batendo o anterior record que tinha sido 2009). O que aconteceu ao emprego com essa avalanche de investimento público? Caiu a pique. Entre Janeiro de 2010 e Maio de 2011, o país perdeu cerca de 5781 empregos por mês. Foram 93 mil empregos em 17 meses. Para efeitos de comparação, nesta legislatura perderam-se 4097 empregos por mês.

– O ponto 2 corresponde ao início desta legislatura. Desde o início da legislatura até hoje perderam-se 200 mil empregos. Este ponto é, obviamente, apenas simbólico. Ninguém no seu perfeito juízo esperaria que um país que tem que pedir ajuda financeira internacional não passasse por uma crise. Quem quer que governasse, iria assistir a uma queda no emprego. Mesmo que assim não fosse, o governo tomou posse apenas em Junho de 2011. As primeiras medidas relevantes de corte de despesa aconteceram meses depois e os seus efeitos na economia também só se sentem algum tempo depois. Em terceiro lugar, porque nesses primeiros meses ninguém apresentou uma alternativa ao que estava a ser feito. O PS chegou nuncou chumbou nenhuma medida do governo na AR. Ou seja, qualquer governo não syrizico teria feito o mesmo. Atribuir responsabilidade políticas por acções sobre as quais não existia qualquer opção, faz pouco sentido.

O ponto 3 corresponde a Março de 2012, 9 meses depois do governo tomar posse. Este ponto é importante porque marca o fim de toda a perda líquida de empregos da legislatura. Todos os empregos perdidos a partir deste ponto foram reconquistados mais tarde. Ou seja, toda a perda líquida de empregos nesta legislatura aconteceu nos primeiros 9 meses após a tomada de posse.

– O ponto 4 corresponde ao ponto mais baixo em termos de emprego, 18 meses depois do início da legislatura. Nessa altura, tinham sido perdidos 400 mil empregos. Destes, metade foram reconquistados nos 2 anos e meio que se seguiram.

– A velocidade de recuperação a partir de 2013 foi impressionante, mas houve uma travagem na recuperação, correspondente ao ponto 5. O ponto 5 coincide com o aumento do salário mínimo nacional. O país andava a ganhar 8 mil empregos por mês há 20 meses. Nos 4 meses a seguir ao anúncio do aumento do salário mínimo nacional, o país perdeu 10 mil empregos por mês antes de retomar a trajectória ascendente. Se há um erro a apontar a este governo em termos de política de emprego, é este.

12 pensamentos sobre “Sobre o emprego e emigração

  1. Basico

    Os graficos deviam comecar em 2008, bem durante o mandato do 44, e que foi quando comecou a grande queda no emprego em Portugal.

  2. José Lourenço

    Esta esquerda MINAZ esteve, está e vai continuar como é de esperar, a fazer pouco da inteligência dos Portugueses. Finalmente apareceu o Carlos Guimarães Pinto a repor a verdade !
    Um desenvolvimento perfeito sobre a emigração que é exactamente a minha opinião. Como pode haver inteligências quadradas que consideram os emigrantes como desempregados ???!!! Os emigrantes estão a trabalhar na sua maioria na União Europeia onde a circulação e o trabalho é livre !!!!! Quere queiram ou não estamos na UE onde o método de apuramento do desemprego é comum a todos os países !!! E mais, a emigração não é só de Portugueses desempregados, tenho conhecimentos de casos, e não são poucos, de Portugueses a trabalhar em Portugal e que emigraram para ganhar mais !!!! Livre circulação !!!!

  3. ricciardi

    CGP,

    O valor que refere (recorrendo ao INE) do n de emigrantes é anual. São 138 mil q sairam só em 2014. Não é um valor acumulado. De resto, a emigração total (acumulada) é de cerca de 20% da população, mais ou menos 2 millhoes de pessoas.
    .
    Rb

  4. Carlos Guimarães Pinto

    Ricciardi, como digo no post, o que interessa para valiar efeito no desemprego (se existir) não é a emigração. É a diferença entre a emigração e a imigração (incluindo retornados). Essa diferença nunca passou dos 40 mil em nenhum ano. No total, em 4 anos foram 128 mil.

  5. ricciardi

    Os valores anuais da emigração batem certo, de resto, com a diminuição da pop activa. Há um estudo no observatório para a emigração q pode consultar.
    .
    Dizer ainda q o facto de tecnicamente o desemprego ter baixado não significa q as políticas implementadas não tivessem conduzido a mais de 300 mil pessoas para fora do país. No limite, levando a coisa ao ridículo, se toda a gente emigrasse a TX de desemprego podia ser nula.
    .
    Por outro lado, estima-sr q cerca de 30% de quem trabalha no estrangeiro não está formalmente emigrado porque recorre a expedientes de vistos ordinários.
    .
    Rb

  6. Carlos Guimarães Pinto

    Ricciardi, sugiro que releia o texto.

    A população em idade activa caiu 200 mil: 130 por via da emigração e 70 por via do saldo natural. Se há emigrantes que não foram registado como tal, quererá dizer que a população activa portuguesa está artificialmente alta? Nesse caso, a taxa de desemprego é ainda mais baixa do que se pensava, certo?

  7. Riccardi

    CGP,

    Afinal de contas, a emigração da estatística do INE é anual. Quer dizer, desde 2011 até 2014 saíram 491 mil portugueses devido ao recorde de falências no período. Seria estranho q assim não fosse.
    .
    Se a pop activa diminuiu apenas 230 mil pessoas, significa q cerca de 190 mil estão emigrados não oficialmente (recorrem a vistos ordinários) e 70 mil de saldo natural.
    .
    O q interessa relevar não são as taxas oficiais de desemprego, mas sim o resultado de políticas aplicadas na vida dos portugueses.
    .
    Se 491 mil emigraram fizeram-no porq foram despedidos ou as empresas faliram ou, numa pequena percentagem, aqueles q já emigraram fosse qual fosse a situação do país.
    .
    Não interessa muito os valores da imigração. Um Imigrante não substitui um Emigrante. Um estrangeiro q entra não é propriamente a mesma coisa q um Português q sai. Em todo caso a Imigração tb diminuiu.
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    É como lhe digo, se o fluxo de emigrantes for mais intenso, se saíssem mais 500 mil emigrantes, a TX de desemprego desceria para níveis de emprego absoluto.
    .
    De resto, a próxima estátitisca do observatório para a emigração irá certamente dizer q a população portuguesa emigrada passou de 1,9 milhões de emigrantes em 2011 para 2,3 milhões em 2014.
    .

  8. ric

    Todos nós conhecemos os “cursos”, “estágios” e “medidas activas” que servem apenas para retirar gente dos números do INE, enganar os tolos e dar que fazer aos fiéis que se ocupam deste diz que disse.
    Também sabemos como obrigaram a registar-se como agricultores os donos de meia dúzia de galinhas e de couves, como se abatem aos desempregados aqueles que já não têm direito a subsídio de desemprego, os que acabam a escola e não trabalham, os pequenos empresários arruinados que não têm direito a subsídios, etc
    Os “números” do INE desde o desemprego ao PIB, passando pela inflacção, não são mais que propaganda e andam ao sabor das conveniências.
    Quando mudar o governo a pouca vergonha e o embuste vão continuar.
    Enquanto houver dinheiro para político e burocrata gastar, nada vai mudar….

  9. Joao Bettencourt

    “É como lhe digo, se o fluxo de emigrantes for mais intenso, se saíssem mais 500 mil emigrantes, a TX de desemprego desceria para níveis de emprego absoluto.”

    Se a taxa de desemprego e T=B/(A+B) em que B e o numero de desempregados e A o numero de empregados, sendo A+B a população activa, então não e liquido que um aumento da emigração faca descer T. Dependera de donde sai essa emigração, de A ou B. Ou estarei errado?

  10. A beleza das estatísticas está na facilidade com que permitem leituras e análises ao gosto do freguês e da sua honestidade ou falta dela. Olhando para a realidade (e esquecendo quem é o partido que em dado momento detém o poder) é bom de ver que a economia está uma bosta, há menos emprego, mais miséria, mais gente à beira do abismo, agudizando-se as desigualdades e iniquidade apontadas e bem no memorando (o da troika…). Todo este “presente” decorre da incapacidade política para gerir o país no quadro da moeda única. Desde que o Euro chegou nunca mais houve crescimento efetivo (a não ser da despesa e da dívida…). O Coelhismo (pseudo liberal e fiscalmente socialista) com a sua disfunção reformadora (e clientelismo propagandista) apenas tem agudizado a situação. Daí a preocupação frenética em manipular as interpretações da realidade para que alguns acreditem no milagre das rosas, ou das laranjas…

  11. José Lourenço

    Luís FA – Não há dúvida que será preciso fazer um desenho para ter uma visão certa do que se está a passar em Portugal. Uma ida aos portos de embarque veria mais miséria a embarcar para o estrangeiro em férias e muita gente a desistir de cair no abismo ao criar PME’s. Pessimismo é um factor terrível ! precisamos de nos unir e combater os resultados da bancarrota socialista ! Só dizer mal sem soluções é uma imagem triste de parte do Povo Português de que não se pode esperar qualquer ajuda. Tenho que admitir que este Governo fez um trabalho extraordinário devidamente comprovado com os resultados positivos que tem sido publicados. Pela Pátria Lusitânia Portvgalliae !

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