O que significa a palavra “investimento”

Um dos grandes mantras apresentados há vários anos pela esquerda contra a “austeridade” é que é necessário fomentar o “investimento” para que se promova a “recuperação da procura interna” e o “crescimento económico”. A palavra “investimento” é apresentada numa formulação vasta, nunca se explicando o que é que, em bom rigor, ela significa.

O investimento que resulte da poupança privada, das empresas e das famílias, poderá ter um efeito positivo na economia portuguesa. Já o investimento que resulte de endividamento tem o condão de criar de novo um crescimento artificial, que será rapidamente anulado pela fatura a pagar, impondo uma correspectiva contracção.

Por outro lado, o crescimento da procura interna poderá ter um efeito positivo sobre a economia, se resultar do crescimento efectivo do rendimento das famílias ou das disponibilidades de caixa das empresas e do Estado, no quadro de orçamentos equilibrados, e não da criação de bolhas provocadas por injecções massivas de crédito. No panorama atual – e pese embora este elemento seja discutível – o crescimento da procura interna só é positivo se não conduzir a um crescimento das importações que torne de novo negativo o saldo da balança de pagamentos (fora juros) com o exterior.

Qualquer tentativa de fomentar artificialmente o investimento e a procura interna terão necessariamente consequências negativas, a prazo. Pelo que é aconselhável que os portugueses fujam, na hora de votar, dos que acenam de forma acrítica estas bandeiras, como se um imperativo de governo se tratassem. Devemos sempre olhar com desconfiança para os que consideram que o Estado deve ter um papel liderante na promoção do investimento e na recuperação da procura interna, que não se limite à desoneração da poupança e do rendimento das empresas e das famílias, e à remoção da burocracia.

6 pensamentos sobre “O que significa a palavra “investimento”

  1. Luís Lavoura

    o investimento que resulte de endividamento tem o condão de criar um crescimento artificial

    Grande parte do investimento privado resulta de endividamento. As empresas pedem dinheiro emprestado para investir. É normal. O RAF pretende condenar tal investimento?

  2. Tiro ao Alvo

    Ouvi o António Costa insistir na baixa da TSU, também como forma de aumentar o consumo e, dessa forma, favorecer o crescimento. Ele explicou que uma baixa da TSU era melhor do que uma baixa no IRS, uma vez que nem toda a gente paga IRS, ao contrário do que acontece com a TSU, que atinge praticamente todos os que trabalham. Não sei quem lhe fez as contas, mas uma baixa da TSU não favorece os reformados, o que pode estragar as contas.
    O mais estranho, para mim, é que, em nome desse eventual crescimento, os agora beneficiários de uma baixa na TSU, vão sofrer agravamentos nas pensões de reforma. Será que a malta alinha nisso?

  3. Fernando S

    O crescimento excessivo dos gastos do Estado, tanto em investimento como em despesas publicas, determinou uma procura (interna) mais importante de bens e serviços não transaccionaveis.
    Como é natural, estes sectores, com mais procura e melhores preços de venda, investiram mais e cresceram.
    Para financiar o crescimento dos seus gastos, o Estado agravou a carga fiscal e endividou-se. Este crescimento do sector publico e do respectivo endividamento fez-se em parte à custa das empresas em geral. Ou seja, desviando recursos do privado para o publico.
    Mas, de entre as empresas, fez-se sobretudo à custa das empresas dos sectores produtores de bens e serviços transaccionaveis. Enquanto que as empresas dos sectores não transaccionaveis beneficiavam de uma procura interna sustentada, de preços de venda mais elevados, e até de beneficios e subvenções estatais, que lhes permitiam suportar uma carga fiscal mais pesada e outros custos de contexto mais elevados, ja as empresas dos sectores transaccionaveis, sujeitas à concorrencia externa, não tinham esta possibilidade e acabaram por ter menores rentabilidades.
    Muitos dos investimentos, feitos pelo Estado directamente e feitos pelas empresas dos sectores não transaccionaveis, muito embora tivessem contribuido para o crescimento destes sectores, implicaram um desvio de recursos em prejuizo dos sectores transaccionaveis e, no final, um desequilibrio no rescimento relativo dos diferentes sectores.
    O desequilibrio estrutural nas contas externas explica-se em grande parte por estas razões.
    Ou seja, o investimento não é todo igual e, consoante as circunstancias e os sectores, pode ser mais ou menos produtivo e virtuoso.
    Para equilibrar o modelo economico, é necessario que nos proximos anos as politicas economicas não continuem a favorecer mais o investimento, publico e privado, nos sectores não transaccionaveis, e permitam antes libertar progressivamente recursos que se dirijam mais para os sectores transaccionaveis.
    Nada disto exige qualquer forma de discriminação positiva, nomeadamente fiscal, a favor dos sectores transaccionaveis.
    Basta que o Estado consolide as suas contas e gaste estruturalmente menos !

  4. Buiça

    Se o foco for colocado no RETORNO do investimento deixa logo de haver essa luta ideológica de se o investimento é público ou privado. O investidor exclusivamente privado faz as suas contas e decide – se decide mal sofre na pele as consequencias.
    O investidor que investe os impostos futuros dos contribuintes tem obviamente obrigação de o fazer com o máximo rigor e exigência quanto ao retorno. Não bastam discursos bonitos sobre externalidades positivas e a felicidade que os projectos vão trazer, tem que se quantificar a partida o que se procura obter e quando, e medir rigorosamente o que se atingiu. Isto é especialmente crucial se houver parcerias publico-privado onde a regra são os tremendos conflitos de interesses entre quem negoceia em nome do Estado e os parceiros. Uma coisa é o Estado não atrapalhar e atrair investidores que invistam em projectos tão lucrativos quanto possível e que de preferência retenham esses lucros no país. Outra coisa bem diferente é os privados só aparecerem quando vêem no Estado, ou seja nos contribuintes, a fonte dos seus lucros.

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