bitDracma

Hoje, com a provável decisão do Banco Central Europeu em não alargar o ELA (Emergency Liquidity Assistance) à banca grega, será cada vez maior a dificuldade da população helénica em aceder aos seus euros depositados. Consequentemente, uma saída da Zona Euro não necessita de ser “oficializada” pelo Eurogrupo. Basta não haver euros durante algum tempo para o governo de Tsipras ser forçado a emitir uma nova moeda.

Perante a impossibilidade de emitir, a curto prazo, notas e moedas de outra denominação, fala-se já da emissão de IOUs (títulos de dívida) negociáveis, como ponto intermédio para o “novo dracma”.

Eu tenho cenário ainda mais obscuro:  nacionalização da banca, emissão de uma moeda electrónica (o bitDracma) e proibição de todos estabelecimentos comerciais aceitarem euros. A acontecer, este cenário teria como consequência um “incentivo” para os gregos depositarem os euros que levantaram neste anterior semestre (se o combate ao mercado negro de euros for eficaz), a obrigação daqueles usarem apenas cartões electrónicos para pagamentos e, com o controlo estatal do sistema bancário, acesso mais facilitado ao real rendimento dos contribuintes (para ajudar a máquina fiscal). Além de, claro, o governo do Syriza desvalorizar facilmente a moeda, implementando assim uma austeridade politicamente correcta.

As crises são sempre aproveitadas, por socialistas de todos os partidos, para aumentar o poder do Estado.

21 pensamentos sobre “bitDracma

  1. “As crises são sempre aproveitadas, por socialistas de todos os partidos, para aumentar o poder do Estado.”

    Always and everywhere!

    “You never let a serious crisis go to waste. And what I mean by that it’s an opportunity to do things you think you could not do before.” –Rahm Emanuel (paraphrased from Saul Alinsky’s Rules for Radicals).

  2. Edgar Madureira

    Eu estou satisfeito com a vitória do NÃO no referendo assim o governo Syriza tem ” toda a legitimidade democrática” para implementar as suas medidas na Grécia, que são absolutamente uma mão cheia de nada.

    O resultado é que o controlo de capitais vai ser ainda mais apertado não por decisão do governo, mas por falta de dinheiro físico para colocar nas caixas multibanco e com os bancos fechados, não existe forma de arranjar euros, apesar de eles constarem no extracto bancário.

    O resultado vai ser que todos os pagamentos em lojas “essenciais” (supermercados, farmácias, bombas de gasolina etc) vão apenas aceitar numerário como forma de pagamento, os fornecedores dos “essenciais” vão apenas aceitar como forma de pagamento numerário.

    Havendo falta de numerário disponível não vai ser possível reabastecer os supermercados e com menos alimentos disponíveis o preço aumenta… (lei da procura e da oferta) e temos a ruptura da cadeia de distribuição.

    Ou seja dentro de 1 mês vai haver fome, porque não existe comida disponível e a pouca que há não existe dinheiro para a comprar.

    A situação vai se tornar insustentável e os gregos com fome vão acabar a derrubar o governo e convocar eleições dentro de pouco tempo.

    É difícil acreditar em amanhãs que cantam quando a nossa barriga doí com fome.

    O novo governo que sair das eleições como primeira medida vai retomar as negociações com os credores para pedir um plano de resgate e apoio humanitário.

    Eu não fico feliz pelo facto dos gregos irem passar fome, o que me deixa feliz é poder ver a distancia o resultado das politicas de esquerda (BE, Livre, PCP e PS) sem que seja muito afectado por elas.

    Pode ser que sirva de abre olhos para o povo português deixar de acreditar em vendedores de banha de cobra.

  3. Edgar, com o cenário que aqui explicitei não faltará dinheiro para pagar alimentos, nem haverá qualquer “ruptura da cadeia de distribuição”. Mas, tendo em conta a desvalorização da nova moeda, os preços dos bens terão de subir.

  4. rhianor, se for difícil impedir a Grécia de imprimir euros então terá de descer o valor real dessas notas (letra Y na série) e moedas (com figuras diferentes dos outros países). Começa a verificar tua carteira!

  5. Surprese, o valor de uma nova moeda dependerá, também, das reservas que possui…
    Mas se, por exemplo, papel higiénico custa hoje €2 pode (depois do Syriza converter €1 em 1bDr) passar a custar 5bDr 😉

  6. FilipeBS

    Visto que quase tudo o que é consumido e produzido na Grécia está dependente de importações, o bitDracma só funcionaria se fosse aceite pelos países que exportam para a Grécia.

  7. FilipeBS, por isso disse (no meu comentário anterior) que o valor da nova moeda grega dependerá das reservas que possui.

  8. FilipeBS

    Sim BZ. Mas lá está, aquilo que se estima é que as reservas sejam baixas, o que levará o valor do bDr para níveis muito baixos, agudizando a crise generalizada. Em todo o caso, bom post!

  9. Obrigado FilipeBS.
    Essa foi uma das razões porque, no cenário acima publicado, equacionei a proibição de pagamentos em euros. Obrigaria os gregos a depositarem os euros que levantaram, aumentando depois as reservas em divisa no Banco Central grego.

  10. Lamento Bz mas não concordo, basta olhar para o Zimbabwe ou para a Venezuela.

    Eu neste momento se comprar algo a um fornecedor na Eu pago em Euro fora da EU tenho de pagar em Dólares que continua a ser a moeda usada nas transações internacionais.

    Qual vai ser o fornecedor interessado em receber em BitDracmas? Mesmo pegando no exemplo do papel higiénico custa hoje €2 pode (depois do Syriza converter €1 em 1bDr) passar a custar 5bDr

    O fornecedor do papel higiénico vai querer receber em nota de Euro ou em Dólares e neste momento é possível que ainda existam notas de Euros ou Dólares disponíveis para as primeiras compras, mas como não entram Euros novos na Grécia, deixa de haver notas de Euro disponíveis

    É esse foi o problema do zimbabwe em que o dinheiro deles simplesmente não comprava nada e chegaram a imprimir uma nota de 100 000 000 000 000 dolares zimbauanos.

    Convém não esquecer a balança comercial Grega é muito desequilibrada com exportações no valor de 27.2 billion e importações de 47.8 billion (fonte wikipédia)

  11. BZ Mesmo que os Gregos depositem os poucos euros que tem disponíveis em casa o cenário não se altera pois continuam a não entrar euros na Grécia só saem.

    É apenas uma questão de semanas até se esgotarem as notas de Euro nos cofres.

  12. Edgar, uma desvalorização da nova moeda tenderá a reduzir as importações. E as exportações poderão aumentar com o “imposto” da inflação nos salários dos trabalhadores. Este maior equilíbrio da balança comercial permitiria banco central ter mais reservas. Exemplo: o real não é uma moeda apetecível para reserva de divisas mas, mesmo assim, a economia brasileira consegue funcionar com ela.

    O Zimbabwe não tinha suficientes receitas fiscais para pagar as despesas públicas e decidiu imprimir. Com apropriação de terras também já pouco tinha de sector exportador.
    Venezuela desvalorizou moeda (ou seja, imprimiu) mas limitou o consequente crescimento dos preços resultando na escassez de bens. No meu cenário teria de haver livre definição de preços, o que, considerando a ideologia do Syriza, não é totalmente real…

    Sobre os euros que os gregos levantaram nestes seis meses, terão de ser eventualmente usados para consumo/investimento. No meu cenário teriam de ser anteriormente depositados. Claro que com a livre circulação de pessoas os gregos podem decidir fazer compras nos países fronteiriços.

  13. Tiro ao Alvo

    Eu espero ganhar uma aposta que fiz com um meu amigo em como a Grécia, dentro de pouco tempo, vai emitir moeda virtual, que poderia chamar-se, como escreveu, bitDracma, mas não concordo com algumas das medidas que preconizou.
    Concordo que dentro de poucos dias a Grécia vai nacionalizar a Banca e que o Banco Central Grego vai inventar uma moeda virtual para pagar salários à Função Pública, as pensões aos reformados, e as dívidas aos fornecedores, mas não vai proibir a circulação do Euros. Vai, isso sim, é tentar que os comerciantes e os exportadores (que recebem em euros ou outra moeda – dólares, p.e) depositem esses valores na Banca (nacionalizada), recebendo em contrapartida em moeda nova, a um câmbio “favorável” que, nos primeiros tempos poderia ser equivalente ao euro, ou indexado a um cabaz de moedas, “obrigando” os comerciantes a receberem nessa moeda, através de cartões de débito/crédito.
    Se assim fosse, os euros circulariam “livremente” dos colchões para os comerciantes, dos comerciantes para a Banca, da Banca para pagar importações.
    Outros que puxem pela cabeça que eu já fui longe…

  14. Tiro ao Alvo

    Esqueci-me de um pormenor muito importante: os depósitos bancários que restam na Banca Grega, seriam automaticamente convertidos para a nova moeda. Simples e eficiente, como nunca se viu…

  15. Tiro ao Alvo, seria mais fácil proibir o pagamento em euros. Assim, quem os tivesse teria de os depositar antes de poder fazer qualquer compra.

  16. Tiro ao Alvo

    BZ, essa sua ideia de “proibir” os euros não tem pernas para andar – pense no turismo, indústria muito importante naquele país. Nem proibir os euros, nem os dólares, nem as libras, nem qualquer outra moeda forte. Tentar que os comerciantes depositem essas moedas na Banca (nacionalizada), isso sim, era o que tentariam fazer a todo o custo. Falta é saber se teriam êxito…

  17. BZ uma desvalorização de moeda reduz as importações e potencia as exportações, o problema é que isso demora tempo.

    E neste momento a Grecia não tem tempo, tem dias até entrar em colapso por falta de alimentos.

    Neste momento os vendedores não conseguem vender os seus productos porque toda a gente encheu as despensas quando começou o controlo de capitais, mas já entramos na segunda semana de controlo de capitais e as despensas devem estar a ficar vazias, e quando começarem a voltar as compras não vai haver nada para comprar, ou então vamos assistir a senhas de racionamento…

    http://www.theguardian.com/business/2015/jul/07/eurozone-calls-on-athens-to-get-serious-over-greece-debt-crisis (ver com especial atenção a partir dos 2.55 minutos)

    Vou dar o exemplo de Portugal:
    Em Portugal existe uma reserva estratégica de combustiveis que deve garantir o abastecimento durante 3 meses, mas não existe nenhuma reserva de alimentos…

    Em 2006(?) houve uma greve de camionistas Espanhois que bloquearam as estradas durante meia duzia de dias, e foi o suficiente para se começar a notar falhas de abastecimento nos supermercados portugueses…

    E foi afectado apenas um canal de distribuição a carga maritima e aérea continuavam a chegar.

    Para abastecimento a Lisboa as grandes cadeias de distribuição tem armazens gigantescos na zona da Azambuja, mas se deixarem de entrar productos, em menos de uma semana estão vazios.

    Neste momento nenhuma empresa faz stocks para mais que uns dias.

    No caso Portugues importamos cerca de 50% dos alimentos (80% dos cereais iamos ficar sem pão).

    No caso Grego a situação é ainda mais grave, li algures que os gregos importam 75% dos alimentos que consomem.

    E neste momento todos os canais de distribuição alimentar estão praticamente fechados (apenas a mercadoria em transito maritimo continua a chegar normalmente porque saiu do porto de origem antes da crise de controlo de capitais) o resto das importações esta reduzida ao minimo e tem tendencia a desaparecer.

    O risco de fome na Grecia se nada se alterar é bem REAL.

    Mas não é nada que deva surpreender alguem todos os paises que adotaram politicas de esquerda, acabaram sempre a distribuir fome e miséria por toda a gente.

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