Grécia: revisão da matéria dada – O resgate e o ajustamento

Escrevi ontem aqui sobre os anos anteriores à crise da dívida soberana na Europa. Nos 7 anos anteriores à crise, a economia grega tinha crescido bastante acima dos seus pares europeus graças a uma injecção brutal de dívida. Chegados a 2007, uma boa parte da economia grega estava dependente da capacidade do governo continuar a acumular dívida indefinidamente. Mesmo sem a crise de 2008, este acumular de dívida algum dia teria que parar. Algum dia a economia teria que ajustar, e a parte da economia que sobrevivia apenas à custa da dívida pública teria que desaparecer. Esse momento foi despoletado com a crise de 2008.

O lento resgate

Muitos comentadores, mesmo alguns mais moderados, afirmam que o nível de austeridade imposto à Grécia foi demasiado severo e rápido. Se a austeridade fosse mais suave a aplicada lentamente, afirmam os comentadores, teria tido um efeito menos devastador e o país teria recuperado mais rápido. Mas será mesmo assim? Para testarmos esta hipótese, poderemos olhar para o que aconteceu em 4 outros países que atravessaram uma crise semelhante, mas fora do Euro: os 3 países bálticos e a Islândia. Em baixo, podemos ver a evolução do consumo das famílias (um bom indicador do padrão de vida) nos 5 países.

consu

Como podemos ver no gráfico, todos os países ajustaram brutalmente logo em 2009. Enquanto o consumo na Grécia caía um pouco mais de 1% em 2009, na Islândia caiu 10% e nos países Bálticos mais de 15%. Mesmo nos anos seguintes, nunca a Grécia teve um ano de ajustamento tão forte. O máximo que o consumo caíria num ano seria 11% em 2011. Terá isto causado danos irreversíveis nas economias dos países bálticos e na Islândia? O gráfico demonstra o contrário: depois de terem sofrido um nível de austeridade mais forte e rápido, estes países recuperaram rapidamente. Um ajustamento rápido e violento permitiu que a economia eliminasse a distorção acumulada sem levar a economia saudável atrás. Já a Grécia demoraria 5 anos a voltar a crescer. O problema do ajustamento lento versus “front-loading” é sentido particularmente na questão do desemprego. No gráfico em baixo, pode-se ver a evolução da taxa de desemprego nos anos de crise.

desemp

A Grécia, poupada a uma austeridade tão brutal como a da Islândia e países bálticos não teve um aumento tão rápido do desemprego no início da crise. O resultado disso foi um crescimento constante do desemprego durante 5 anos. Quem perdeu o emprego nos primeiros dois anos tem grandes probabilidades de estar ainda desempregado 3 anos depois. Quando os trabalhadores ficam desempregados por mais de 3-4 anos, não perdem apenas o emprego, perdem a profissão. Não é grave que uma economia tenha temporariamente taxas de desemprego de 25%-30%, se puder rapidamente baixá-las para 10%. É bem mais grave para os indivíduos afectados pelo desemprego que uma economia tenha de forma permanente taxas de desemprego nos 15-20%. Uma economia com taxas de desemprego altas e estáveis condena os seus desempregados à incapacidade profissional.

O problema da Troika não foi ter imposto demasiada austeridade, mas sim não ter imposto uma austeridade mais violenta logo no início do ajustamento, que resolvesse o problema da economia mais rapidamente, de uma vez por todas, e que permitisse que o crescimento viesse mais cedo.

O ajustamento

O ajustamento demorou, mas em 2014 tinha sido atingido em boa parte. Depois de 5 longos anos de recessão, a Grécia começou a crescer de forma ténue. Com boa parte do ajustamento já feito, o crescimento da economia saudável já permitia compensar o pouco ajustamento que ainda havia a fazer. Foi isso que aconteceu em 2014 quando a Grécia apresentou um ténue crescimento económico. Apesar de ténue, este crescimento era sustentável. Ao contrário da fase de crescimento entre 2001-07, este crescimento era feito sem aumentar défices públicos e acumular dívida externa.

Mas afinal, onde é que o ajustamento levou a Grécia? O gráfico abaixo, com a evolução do PIB grego em democracia, ajuda-nos a ter alguma perspectiva sobre a evolução da economia grega:

PIBevo

A austeridade trouxe a economia grega de volta ao ponto onde estaria se tivesse seguido a sua tendência de crescimento de longo prazo. O ponto onde estaria uma economia com grandes deficiências estruturais (como admitem economistas de esquerda e de direita) se nunca tivesse tido acesso fácil à dívida.

Foi com a economia a crescer, sem défices primário e externo, e com boa parte do ajustamento já feito que o Syriza assumiu o poder. Veremos o que faz com ele.

15 pensamentos sobre “Grécia: revisão da matéria dada – O resgate e o ajustamento

  1. Luís

    «A austeridade trouxe a economia grega de volta ao ponto onde estaria se tivesse seguido a sua tendência de crescimento de longo prazo. O ponto onde estaria uma economia com grandes deficiências estruturais (como admitem economistas de esquerda e de direita) se nunca tivesse tido acesso fácil à dívida.»

    E por cá também iremos para esse ponto, ainda não fomos mas iremos. A mais recente bancarrota começou logo no primeiro mandato de Guterres (embora Cavaco tenha lançado algumas «sementes»).

  2. Georgina Santos Monteiro

    Ao autor do artigo. Estamos conversados. Esta Grécia, com este modelo económico (da esquerda), esta (novamente) falida.

    Argumentos existem muitos, mas o cerne é este. Foram políticas da esquerda que levaram mais uma vez à bancarrota.

    Pelo menos um Papandreou estudou nos Estados Unidos em Harvard economia política marxista, uma das coisas mais estúpidas do mundo, sem a menor dúvida, para quem é da matéria e percebe a mesma. Isto não é normal. E esse mesmo Papandreou, no papel de político, elevou a dívida grega de níveis quase inexistentes para alturas perigosas, prometendo tudo a todos. Ele tinha a obrigação de saber, que isso não pode funcionar, nunca. E os outros continuaram com essa droga.

    O país está ingovernável e a única medicina é sair da moeda do euro. Só que isso, outros não querem. Não querem ainda. Mas o momento há de vir.

  3. José

    A explicação está muito boa, mas falta um pormenor essencial, a Grécia esta cativa do euro, não pode desvalorizar a moeda como os outros fizeram, por isso invalida a comparação. A única comparação que pode ser feita será com Portugal que está em situação idêntica. Mas concordo com uma austeridade um pouco mais violenta ao inicio de modo a colocar as contas em ordem.

    Cumprimentos

  4. Luís Lavoura

    O problema da Troika foi não ter imposto uma austeridade mais violenta logo no início do ajustamento, que resolvesse o problema da economia mais rapidamente, de uma vez por todas

    Há aqui um passe de lógica. Nada demonstra que uma “austeridade violenta logo de início” possa resolver os problemas de uma economia rapidamente e de uma vez por todas. O facto de isso ter funcionado nalguns países não demonstra que funcione em todos. O raciocínio indutivo não é, como se sabe, rigoroso.

  5. Pingback: Mises sobre um boom como o da Grécia | O Insurgente

  6. Fernando S

    José : “a Grécia esta cativa do euro, não pode desvalorizar a moeda como os outros fizeram, por isso invalida a comparação.”

    O que importa é que a desvalorização tem de ser feita, seja ela externa (fora do Euro) ou interna (dentro do Euro).
    O exemplo de Portugal mostra que a desvalorização interna também deu resultados positivos.
    A Grécia, por razões politicas (instabilidade) e de mentalidade colectiva (oportunismo), apesar de ter tido condições ainda mais favoraveis, não aplicou de forma sistematica e coerente o conjunto das medidas dos programas de resgate e por isso perdeu pelo menos 2 anos.
    Mas quando, a partir de inicios de 2013, foi constituido um governo mais estavel e a austeridade foi aplicada de modo mais consistente, o ajustamento foi mais rapido e os resultados começaram a aparecer, a partir da segunda metade de 2014 : crescimento, saldo orçamental, balança externa, juros da divdida, etc.
    É verdade que a desvalorização interna ao Euro é mais dificil de realizar politicamente. Pela simplesrazão de que não existe a ilusão monetaria. Mas é também mais eficaz e pode ser menos brutal em termos reais.
    O exemplo dos outros paises mostra sobretudo que um ajustamento mais rapido e socialmente mais duro é mesmo assim mais facil de aplicar e dá resultados mais rapidamente..

  7. Ricardo

    O exemplo dos outros paises não é de que o ajustamento rápido e socialmente duro é melhor. Apenas mostra que o poder da desvalorização cambial não deve ser subvalorizado. É completa cegueira não conseguirem interpretar isso dos gráficos. E é estonteante ver um artigo a usar uma comparação daquelas para justificar austeridade agressiva. Absolutamente ridículo.

  8. Fernando S

    Ricardo,
    A desvalorização cambial produz inflacção interna e portanto austeridade.
    Que pode até ser socialmente tão ou mais “agressiva” do que a desvalorização “real” (com moeda estavel).
    Quem se lembra dos ajustamentos em Portugal a seguir às crises de 1977 e 1983, da inflacção de 30%, dos salarios em atraso nas empresas, no Estado sem dinheiro suficiente para executar as suas funções basicas, da fome na peninsula de Setubal, etc, etc ???!…
    O ajustamento baseado apenas na desvalorização cambial e na inflacção não é sequer mais rapido e é socialmente mais injusto : são mais afectadas as categorias com rendimentos fixos e sem capacidade negocial ; os aforradores (internos) perdem e ganham os devedores ; etc.
    Porque ?
    Porque a desvalorização e a inflacção abrem normalmente a porta a ajustamentos incompletos, sem reformas na economia e na estrutura do Estado. Por isso é que depois da recuperação a economia volta a ter os mesmo desequilibrios, volta a crise, e assim sucessivamente.
    A desvalorização real, com austeridade do Estado e das classes médias, com reformas estruturais na economia e no Estado, é por isso mais eficiente e pode ser gerida com um efeito socialmente mais controlado e justo.
    Os exemplos dos paises apontados no artigo teem interesse também por serem casos em que o ajustamento não dependeu apenas da desvalorização cambial mas esteve igualmente associado a reformas estruturais internas.

  9. Ricardo

    Então vá ver a inflação interna dos EUA com a desvalorização cambial que fizeram durante o QE. Ooops, não houve? Então veja a do Japão. Ooops, não houve ? Bolas….

  10. Fernando S

    Por sinal, quando o dollar desvalorizava relativamente ao Euro a inflacção americana subia e era superior à europeia. As duas curvas seguem-se. Por exemplo, em 2010 e 2011, o dollar desvalorizou 12,5% relativamente ao Euro e a taxa de inflacção americana passou de 1,2% para 3,7%, um aumento de … 200% !
    Ou seja, quando os EUA ajustam graças à desvalorização cambial a inflacção também sobe.
    Mas os EUA não tiveram de fazer um ajustamento brutal com base numa desvalorização brutal da respectiva moeda.
    O post refere-se a pequenos paises que fizeram ajustamentos rapidos e violentos com fortes desvalorizações cambiais.

  11. Pingback: Grécia: revisão da matéria dada – Onde tudo começou | O Insurgente

  12. Pingback: Como estava a Grécia antes do Syriza? | O Insurgente

  13. Pingback: Como estava a Grécia antes do Syriza? | Ricardo Campelo de Magalhães

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.