De quem é a culpa

Começo com uma inconfidência. Perguntavam os editores d’O Economista Insurgente, em uma fase que se estava a desenhar o que seria o livro: As pessoas querem saber de quem é a culpa da crise. Quem são os culpados? A resposta que ouviram, depois de alguns segundos que pareceram largos minutos não foi a esperada: Os culpados somos nós, os Portugueses. Os que elegeram quem governou e legislou que nos levaram onde estamos. Quem acreditou em promessas e caminhos fáceis sem questionar a validade das premissas ou as consequências dos actos. Os que se recusam a colocar em causa o status quo do seu ambiente económico mais próximo ao mesmo tempo que colocamos em questão tudo o que nos é alheio. Que não querem ver a incoerência entre o prometido e o possível e mais tarde o realizado.

O povo grego, com ou sem milagre, está apenas a sofrer as consequências de ter eleito o Syriza. Com a democracia vem a responsabilidade. Não existem ditadores paternalistas a quem apontar o dedo. A responsabilidade é de todos os que participam no processo eleitoral. Incluindo os que nada fizeram, que nem sequer votaram ou intervieram nas eleições. Participam por omissão.

Dentro de poucos meses vamos ter eleições em Portugal. Espero que estes últimos anos de sacrifícios para tantos, tenham servido para que cada um de nós entenda a sua responsabilidade. Esta responsabilidade inclui informar e consciencializar as pessoas que nos ouvem para as consequências de elegermos partidos e políticos populistas. Se formos no caminho da Grécia a culpa será apenas de todos e de cada um de nós.

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15 pensamentos sobre “De quem é a culpa

  1. ricardo

    A pergunta “de quem é a culpa ?” vem normalmente de quem tem esperança de que o tempo volte para trás.
    Encontrar o culpado seria a melhor forma de manter tudo na mesma e fugir à nossa responsabilidade colectiva.
    Aqueles que procuram e apontam “os culpados” são os que se recusam a compreender que a crise não é causa mas sim consequência.
    Querem acabar com a crise mantendo tudo na mesma….
    A crise ainda não foi suficientemente catastrófica para que as coisas possam começar a mudar verdadeiramente..

  2. Dervich

    “O povo grego (…) está apenas a sofrer as consequências de ter eleito o Syriza”

    Não, fundamentalmente está a sofrer as consequências de ter eleito Karamanlis, Papandreou, etc

  3. Ricardo G. Francisco

    Dervich. E todos os outros antes. Nas últimas eleições estava em questão qual o caminho e posição em relação à saída da crise. (Quase) Todos se lembram das loas da nossa iluminada esquerda às posições e tácticas propostas pelo Syriza. Que sorte que as nossas eleições serem quase um ano depois das gregas.

  4. Dervich

    Ricardo Francisco,

    Como é que você sabe se a saída da crise para os gregos (a longo prazo) não está precisamente no que eles estão a fazer?
    Você não leu, ou não percebeu, o significado do que disse acima o outro Ricardo (o das 10.45h)?

    Em relação à situação portuguesa, não deixo palavras, deixo um desenho

    http://henricartoon.blogs.sapo.pt/tragedia-grega-921817

  5. Fernando S

    Dervich : “fundamentalmente [o povo grego] está a sofrer as consequências de ter eleito Karamanlis, Papandreou, etc”

    Se, em tempos de vacas mais gordas, tivesse eleito um partido de extrema-esquerda, como o Syriza, ideologicamente muito mais estatalista e intervencionista, a situação seria hoje muito pior.

    De notar que os syrizas de hoje não criticam nem recusam o despesismo e o endividamento de ontém.
    Querem que continue !

  6. José Gonçalves

    Tenho de pedir ao articulista o favor de me acompanhar à cabina de voto, nas eleições que se avizinham, para ele me ajudar a evitar fazer alguma asneira. Até porque não quero que um mau voto canalize automaticamente para mim a responsabilidade de todos os que estiveram no governo do país nas últimas décadas.

  7. jo

    Em vez de andar à procura de culpados, talvez desse jeito analisar a presente política e ver se ela é sustentável.
    Mas aí teria alguém de se chegar à frente e responsabilizar-se pela governação.

    Se eu sou responsável por tudo o que o governo faz, mesmo quando é formado por uma camada “irrevogável” de mentirosos, então exijo que o primeiro ministro venha a despacho a minha casa pelo menos uma vez por semana. Ou então que se demita antes de aplicar medidas que jurou que não aplicava.

  8. Ricardo G. Francisco

    José Gonçalves,

    O voto é de cada um. Assim como a liberdade de expressão. E com a liberdade vem a responsabilidade. Pelo voto ou falta dele e pela intervenção política ou falta dela.

  9. Ricardo G. Francisco

    Será difícil convencer o Jo de que um partido à la Syriza não seria o melhor para Portugal. Felizmente existem muitos que sabendo as consequências desse tipo de linha não o farão.

  10. rrocha

    “Os culpados somos nós, os Portugueses”

    Nada mais errado a culpa e de ALGUNS Portugueses

    Nao vivo a cima dos meus redimentos , pago as minhas dividas e mando a M***** os moralistas que tem a mania que sabem o que e melhor para os outros.

  11. Fernando S

    rrocha : “Nao vivo a cima dos meus rendimentos , pago as minhas dividas”

    O facto do pais no seu conjunto viver acima dos seus meios e estar sobre-endividado não significa que cada português ou sequer a maioria deles viva acima dos seus respectivos rendimentos e tenha dividas por pagar.
    No limite, poderiam até estar todos os portugueses com uma situação financeira familiar equilibrada que isso não impediria o desequilibrio global do pais.
    Mais ainda. A maioria dos portugueses até poderia ter individualmente uma posição credora face a outros portugueses ou entidades nacionais : face ao Estado (certificados do tesouro, etc), face aos Bancos (depositos, etc), face às empresas (aplicações financeiras). Mesmo assim, independentemente de existir um maior ou menor equilibrio financeiro interno, o pais no seu conjunto poderia estar desequilibrado face ao exterior.
    Foi o pais no seu conjunto que se endividou face ao exterior.
    Como ? Endividou-se o Estado, endividaram-se os Bancos, endividaram-se as empresas.
    Para onde foi esse rendimento adicional ?
    Serviu para aumentar os rendimentos dos portugueses. Rendimentos monetarios (dinheiro) e poder de compra real (bens e serviços abaixo do preço de custo ou gratuitos).
    Aumentaram os rendimentos dos portugueses que dependem do Estado, quer directamente, como os funcionarios publicos, os pensionistas, os beneficiarios de subsidios, etc, quer indirectamente, como é o caso dos trabalhadores e accionistas de empresas essencialmente fornecedoras do Estado ou de grupos e categorias sociais mais dependentes do Estado.
    Aumentaram em termos reais por via dos bens e serviços publicos que, graças ao endividamento e aos impostos elevados sobre uma parte da população e das empresas, são prestados gratuitamente ou abaixo do preço de custo (saude, educação, “cultura”, etc).
    Aumentaram directamente os rendimentos dos trabalhadores e accionistas de empresas que, em vez de se reestruturarem e reduzirem custos, graças ao crédito facil e barato, mantiveram e até aumentaram salarios e regalias.
    Aumentaram indirectamente os rendimentos dos portugueses que beneficiaram de créditos internos faceis e a taxas de juro muito baixas (crédito à habitação, consumos, etc).
    Etc, etc…
    Ou seja : um grande numero de portugueses não viveu acima dos seus rendimentos mas beneficiou de rendimentos maiores do que seria normal pelo facto do pais ter vivido acima dos seus recursos proprios !

  12. João Vasco

    Sou um bocado antigo e gosto de dar nome às dívidas, dou quatro exemplos: carreira da função pública; submarinos; parcerias; BPN. Nenhuma destas pode ser atribuída a um só partido. Do ponto de vista da crise internacional parece-me mas posso estar enganado, que o excesso de liberalismo preconizado pelo FMI tem destruído muitas economias: a maior economia do mundo nos Estados Unidos é deficitária, o Brasil não tem classe média, a Coreia do Sul teve de recuperar algum protecionismo para resistir à crise asiática; o Japão caiu na crise asiática depois de liberalizar os seus mercados financeiros; os países africanos com apoio do FMI que obriga a abolir a barreira alfandegárias como forma de estimular as empresas, têm milhares de pessoas a atravessar o mediterrâneo para fugir à falência das suas empresas; e por último podemos nós os portugueses questionarmo-nos que espécie de sistema de saúde é que existia na Grã-Bretanha pós Thatcher para terem lugares disponíveis para tantos portugueses que para lá vão. Mas claro isto é conjetural.

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