A Coragem de José Sócrates

João Miguel Tavares no Público

Claro que, hoje em dia, Sócrates já não é defendido da mesma maneira, mas as reacções à sua decisão de recusar a pulseira electrónica foram sintomáticas daquilo que vai no interior dos articulistas que sempre sentiram simpatia por ele. De Miguel Sousa Tavares a Daniel Oliveira, de Nicolau Santos a Pedro Marques Lopes, fartei-me de ouvir e ler elogios à opção de Sócrates, seguindo uma linha de argumentação que reforça a mitologia do “animal feroz” e do político que quebra mas não torce, como se ele fosse um Churchill do Alto Alentejo em vésperas da Batalha de Inglaterra.

Escreveu no Expresso Nicolau Santos, num artigo vitaminado com versos heróicos de Rudyard Kipling: “Goste-se ou odeie-se José Sócrates, há um mínimo que se deve a um homem: respeito pela sua dignidade, pela sua coerência e pela sua coragem.” Também no Expresso, Daniel Oliveira colocou a “coragem” de Sócrates nos píncaros: “o que obriga as pessoas, independentemente das suas convicções sobre a culpa ou inocência de Sócrates, a reconhecer-lhe pelo menos essa qualidade”. Ora, parece-me extraordinário que duas pessoas inteligentes não se apercebam dos perigos de uma argumentação 100% carismática, onde coerência e coragem surgem como qualidades puras, sem qualquer ligação à culpa ou à inocência. Caros Nicolau e Daniel: desligadas da sua dimensão moral, a coerência e a coragem não só não são qualidades, como podem ser terríveis defeitos, próprios dos fanáticos.

O mesmo Expresso onde trabalham Nicolau Santos e Daniel Oliveira distribuiu recentemente a história da Segunda Guerra Mundial de Martin Gilbert. Deitem uma espreitadela: do kamikaze ao oficial japonês que abre a barriga com um sabre, para evitar a rendição, passando pelo nazi que se suicida com cianeto, o que mais há por ali são homens corajosos e coerentes. Digam-me: devemos elogiar essas suas qualidades, “independentemente da culpa ou da inocência”?

6 pensamentos sobre “A Coragem de José Sócrates

  1. JP-A

    Foram algumas destas criaturas do nosso panorama político à pressão que andaram a justificar em publicações uma vida faustosa com uma magnífica fortuna familiar, que entretanto desapareceu como justificação, como se de vapor se tratasse. São os mesmos que em directo enterram Cavaco Silva no BPN e Dias Loureiro em negociatas, mas que agora que se fala numa quinta inconveniente de um também já publicamente julgado e condenado do PSD, ficam muito caladinhos, como se estivesse a acontecer coisa nenhuma, tal é o enredo da história e do circuito que por acaso acaba sempre por cair em cima da cabeça do mesmo mártir. São os mesmos da tempestade por uns poucos milhares de euros pagos atrasados à segurança social, que agora se confundem todos, tantos são os zeros à direita. O país é tão patético, que até dá para esta gente assistir à argumentação conveniente sobre a fuga ao segredo de justiça sem perceberem sequer a quem convém e ainda aplaudir as vítimas e sua vitimizações. Tenho até a sensação que não querem que se lhes explique, não vá perceber-se que perceberam perfeitamente.

  2. tozesito

    Excelente artigo. De uma clareza cristalina e de uma lógica imbatível. Espero que os ilustríssimos senhores jornalistas e comentadores visados tenham a coragem de responder. Junto mais esta pergunta: ao ensinar História, deverá um professor, perante os seus alunos, sublinhar ou elogiar, a coerência e a coragem de Goering e de Himmler?

  3. Como é possível apelidar de coragem e coerência uma atitude que, vindo de quem vem, mais não é que uma reiterada ofensa à inteligência de todo um povo!…

  4. Rogerio Alves

    Desde cedo que o pensei, e julgo nunca ter sido o único: o homem é um sociopata e, portanto, sem consciência e com a mania das grandezas. Claro que se julga (se proclama) um mártir para a eternidade e que essas suas tiradas de pacotilha ficarão para a História!

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