Do custo das boas intenções

Lisboa vai ter rede de 1.200 bicicletas partilhadas

Isto tudo parece muito lindo mas como todas as ideias geniais vai acabar muito mal. O que acontece em Barcelona, cidade bem menos acidentada e com malha rodoviária bem mais redundante do que Lisboa, é que o custo do sistema é um absurdo. Sumariamente, sim há todo o tipo de viagens de bicicleta, mas em termos de gestão do sistema essas anulam-se; o padrão constante é a malta descer as encostas. Todos os dias, e a toda a hora, há que trazer dezenas, centenas de bicicletas das zonas baixas para as zonas mais altas. E mesmo assim é uma aflição arranjar bicicleta numa zona alta, e uma aflição arranjar onde a deixar numa zona baixa. Esta logística implica uma frota de carros que andam a recolher bicicletas em excesso nas zonas baixas (zonas turísticas, ruas estreitas e sentidos únicos, carros taxis e eléctricos, tudo a estorvar), e vão deixar às zonas altas (tipicamente com estações mais afastadas umas das outras), e depois voltam vazios para baixo. Como isto é um buraco financeiro, é altamente subsidiado a partir de outras fontes de rendimento, nomeadamente tarifas de estacionamento. Alguém acha que em Lisboa a coisa vai ser mais fácil? Ou mais barato? Em Lisboa vai ser a história do costume. Uns meses de operação e a EMEL vai berrar que a coisa não dá, e entram em vigor novas concessões, novas tarifas, mais caça à multa, e tolerância zero, condições aliás com certeza já negociadas porque esta malta não dá ponto sem nó. E quem apanha é quem não usa as “bicing” — a monstruosa maioria da população residente e pendular de Lisboa — incluindo idosos, crianças, famílias, negócios, fregueses, suburbanos, visitantes, etc.

(Fonte: comentário de um gajo qualquer numa rede social)

24 pensamentos sobre “Do custo das boas intenções

  1. Nuno

    Mesmo Vila Moura que é plana tem problemas semelhantes. Vou à praia de bicicleta. Tenho bicicleta ao pé de casa, mas na praia não tenho lugar (demasiada gente a vir de N sítios diferentes para o mesmo sítio). Se por acaso há lugar, quando quer voltar fiquei sem ela, porque alguém que não tinha vindo de bicicleta a levou. Mas ao menos em Vila Moura apesar de ser inconveniente para quem usa (não se pode contar com a bicicleta ou com o lugar), há menos tendência para se acumularem as bicicletas todas no mesmo sítio.

    Já o Rio de Janeiro tem exactamente o mesmo problema. Se estiver à espera do autocarro há algum tempo, e aparecer numa zona alta uma bicicleta (miragem), e estiver bom tempo, pego nela e rezo às alminhas que haja um slot na zona baixa para a deixar (o mais provável é não haver). Em qualquer outra situação (subir, chuva, etc) usam-se outros transportes. Os parques de cima estão sempre vazios, os de baixo sempre cheios. Se não andarem a transportar bicicletas de baixo para cima rapidamente deixa de ser possível andar de bicicleta (mesmo entre parques da zona baixa, porque rapidamente não há quaisquer lugares para as devolver).

  2. Luís Lavoura

    Bem, em princípio isto é simples de resolver: fazem-se dois sistemas de bicicletas diferentes, umas que só podem ser guardadas em parques da zona baixa, outras que só podem ser guardadas em parques da zona alta. As pessoas que pedem emprestada uma bicicleta num parque de uma zona têm que a entregar noutro parque da mesma zona.

  3. Luís Lavoura

    Nuno, isso deve ser porque o sistema de Vilamoura está mal planeado. Por exemplo, uma prima minha que vive numa cidade suíça usa, tal como centenas de outros cidadãos dessa cidade, bicicletas públicas para se deslocar todas as manhãs para a estação de comboios da cidade, onde toma o comboio para o seu local de trabalho. O sistema de bicicletas da cidade está dimensionado para que todas as pessoas da cidade as possam utilizar para ir de manhã para a estação de comboios e à tarde para voltar para casa.
    Em Vilamoura é preciso dimesionar o sistema para que todas as pessoas possam encontrar local para estacionar junto à praia. Tão simples (ou tão complicado) quanto isso.

  4. Nuno

    Para se poder usar estes sistemas costuma haver uma caução. Ou é preciso dar um cartão de crédito. Em Vila Moura como é só para moradores, fica ligado à conta da água (os hotéis ficam responsáveis pelos seus hóspedes e resolvem como entenderem; outros turistas não têm acesso).

    Geralmente os roubos não são um problema. Se não são um grande problema no Rio não vão ser em Lisboa.

  5. Nuno

    Em Vila Moura o problema era resolúvel aumentando a capacidade (número de bicicletas e tamanho do parque da praia que devia ser 50x maior que os outros).

    Isso significava que, no resto do ano, estavam centenas de bicicletas ao ar a enferrujar à beira mar. Na prática, é muito mais simples e muito melhor investimento fazer parques e deixar as pessoas usar as suas próprias bicicletas.

  6. Luís Lavoura

    é muito mais simples e muito melhor investimento fazer parques e deixar as pessoas usar as suas próprias bicicletas

    Pois, mas há muitas pessoas que, por diversos motivos, não têm bicicleta. (Por exemplo, eu não tenho bicicleta porque não tenho sítio onde a guardar dentro do meu prédio.) Ou então, há pessoas que querem andar de bicicleta ocasionalmente. É para esse tipo de pessoas que as bicicletas públicas se destinam.

    Como o Nuno bem observa, parece haver em Vilamoura grande procura para as bicicletas públicas. Se há procura, então ela deve ser satisfeita. A solução não é mandar as pessoas utilizar as suas próprias bicicletas.

  7. Luís Lavoura

    Isso significava que, no resto do ano, estavam centenas de bicicletas ao ar a enferrujar à beira mar.

    Que disparate. No inverno as bicicletas excedentárias serão guardadas num hangar. Não permanecem em utilização. Da mesma forma que só há salva-vidas nas praias no verão – no inverno vão fazer outros trabalhos.
    É evidente que numa povoação como Vilamoura o número de bicicletas públicas disponíveis tem que ser menor no inverno do que no verão.

  8. Andre

    Concordo com o comentário mas então que se faça apenas em zonas planas. Entre o Campo Grande e Saldanha (Norte/Sul) e Alameda/Corte Ingles.

    Neste circuito não prevejo que isto aconteça muitas vezes.

  9. Miguel A. Baptista

    Sou um adepto das bicicletas. Penso que elas ajudam a criar uma dimensão de cidade muito interessante. De bicicleta já me “apropriei” de muitas cidades, inclusive de Lisboa. Em Paris sou cliente do Velib. É uma experiência que recomendo.

    Mas como diz o título as boas intenções têm um custo. Que por sinal neste caso nem é barato. Uma bicicleta em “livre-serviço” custa, em Paris 4000 €/ano, um automóvel particular custa 3300 €/ ano. Dá que pensar.

    Recomendo a leitura do artigo:

    http://www.huffingtonpost.fr/2015/05/19/velo-cout-libre-service-paris-lyon-marseille-velib-velov_n_7311086.html

  10. Luís Lavoura

    que se faça apenas em zonas planas

    É precisamente isso o que a Câmara de Lisboa pretende: um sistema na zona ribeirinha da cidade, que é plana, e outro na zona do planalto (que vai do Saldanha para norte, incluindo Avenidas Novas, Carnide, Benfica, Campo Grande, Alvalade), que tem declives geralmente pequenos.

    Toda a gente está de acordo que é difícil andar de bicicleta na zona intermédia da cidade, que tem declives acentuados e, muitas vezes, ruas empedradas. Mas nem toda a cidade é assim.

  11. Luís Lavoura

    Uma bicicleta em “livre-serviço” custa, em Paris 4000 €/ano

    É sabido que os níveis de vandalismo são muito elevados em França. Julgo que em Portugal não o são tanto.

    Teremos que experimentar para ver.

  12. nuno granja

    Luis Lavoura,

    Há o “cresça e apareca” e a variante “pedale e depois fale”.

    Deixe-se de desculpas e comece a andar de bicicleta, eu faço-o à seis anos em Lisboa e já antes o fazia no Porto, cidade que também não é plana e tal como Lisboa e ao contrário de por exemplo Berlim, os prédios não tem uma zona para as bicicletas.

    Estou é farto de gente com desculpas para não andar de bicicleta a emitir sentenças e planear como se deve andar de bicicleta.

    É extremamente irritante ter uma prática real na vida com um impacto ambiental e nos recursos reduzida ao minimo e depois ter de aturar “gente com desculpas” a planear a nossa vida.

    Quando estas modas de cor verde começam a dar créditos na imprensa a quem as promove começam aparecer os oportunistas a cavalgar a tendência e não tarda muito começam aplanear e infernizar a vida de toda a gente, os que já andavam de bicicleta e os que poderiam vir a andar.

    O Boris Jonhson em Londres anda mesmo de bicicleta, por cá é mais;

    O Costa “que se o rid’culo mata-se não tinha sobrevivido às fotos em que sempre que pode aparece montado em bicicletas” a pagar com nosso dinheiro pontes sobre a 2ª Circular, que fazem publicidade à GALP e a implementar ZERs e afins.
    A ZERs são medidas ecologicamente egoistas que mandam a poluição para os quintais do outros, leia-se os locais onde são produzidos os tais carros novos que não poluem e isto para não falar nos desgastes nos recursos inerentes à produção continua de novos automóveis.

    Outra falácia ecologicamente egoista, são os carros electricos da CML como se energia hidrica, solar e éoliica alguma vez pudessem suprir as necessidade de locomoção da população de Lisboa sem recorrer às centrais termo electricas.

    Estas medidas pensadas nas longas horas de solidão passadas em deslocações no carro ofical de grande cilindrada, ficam bem junto de uma imprensa normalmente acéfala sempre que aparece alguem com uma badge “eu sou verde”

    Outro que “que se o rid’culo mata-se não tinha sobrevivido às fotos em que sempre que pode aparece montado em bicicletas” é o Sá Fernandes.

  13. Luís Lavoura

    nuno granja,

    meta-se na sua vida e não dê sentenças sobre a minha.

    Eu no dia a dia ando a pé, que, no meu caso particular, é mais prático do que andar de bicicleta.

  14. nuno granja

    Luis Lavoura,

    Agradeço que não se meta na minha vida a dizer como o dinheiro dos meus impostos deve ser gasto a dar bicletas aos outros.

  15. Nuno

    Lavoura, diz que guarda as bicicletas num hangar. O que faz aos parques sobre dimensionados, com leitores de cartões, sistemas electromecânicos de segurança, etc, que são os verdadeiros custos do sistema? Ficam na praia ao pé da areia, da humidade e do sal 10 meses do ano sem serem usados e mantidos?

    E acredito que na Suiça haja restrições de espaço em casa, e as pessoas estejam dipostas a pagar mais para alugar uma bicicleta. Mas em Vila Moura são tudo vivendas e/ou prédios com arrecadação e/ou garagem. Como é um sítio de veraneio, o sistema tem tudo que ser rentabilizado em 3 meses do ano. Mesmo pagando ao mês (mais barato que ocasional), 2 mensalidades pagam uma bicicleta nova no Jumbo. Acha mesmo que a malta vai nisso? Eu usei algumas vezes (em situações em que havia mais pessoas que bicicletas) fiquei escaldado com a cena da praia, e não conto com os sistema. Mesmo no sítio ideal (plano, com pouco trânsito, onde dá real prazer andar de bicicleta), o uso é sempre residual e ocasional.

    Em Lisboa vai correr pior, a não ser que sejam particularmente criativos. Caso contrário é mais útil para todos que façam parques de bicicletas seguros e abertos ao público (em Lisboa, nenhuma estação de metro/comboio devia passar sem isso). Só que isso não dá espalhafato, não se lança uma app mobile “inovadora”, etc. O que seria interessante era testar um sistema qualquer que dê vantagem a quem leva uma bicicleta para um lugar alto. Do estilo, sempre que se leva uma bicicleta para um parque com falta crónica de bicicletas não só não pagamos a viagem, como recebemos créditos que pagam outras viagens.

  16. Em Aveiro as bugas (bicicletas com moeda) não tiveram um fim muito feliz. Tinham um chip GPS escondido no quadro, e mesmo com esse aviso uma delas foi encontrada em Albergaria. Roubavam-lhes peças e faziam fato-sapato delas.

    Há um movimento no Livro das Fuças para a sua reimplantação.

    A Câmara Municipal de Aveiro, sabe-se lá porquê, não parece querer repetir a experiência.

  17. Manuel Costa Guimarães

    Isto é muito simples de se resolver: façam um pequeno referendo aos lisboetas a perguntar se querem pagar essa palermice.
    Eu, que estou no Porto, sugiro que andem a pé, que não enjoam.

  18. Luís Lavoura

    Nuno Granja,

    eu não estou aqui, nem nunca estive em lado nenhum, a defender esta coisa que a Câmara de Lisboa agora pretende implantar, e da qual só tomei conhecimento por este post esta manhã. Não me “acuse” de estar a defender esta proposta da Câmara de Lisboa.

  19. Luís Lavoura

    Nuno,

    eu não ponho os pés em Vilamoura há mais de 20 anos e não fazia ideia de que lá houvesse um sistema de bicicletas públicas. Nem, obviamente, estou a defender que esse sistema seja adequado ou desejável. Só afirmei que um sistema de bicicletas públicas é útil para algumas pessoas – o que não quer dizer que deva ser instalado. Como eu disse ontem a propósito de outra coisa, é um sistema benéfico – mas pode ter uma relação custo-benefício desfavorável.

  20. Nuno

    O sistema será útil para algumas pessoas, obviamente. Mas se a utilização do sistema não cobrir sequer os custos de operação (andar a levar bicicletas de baixo para cima), vai acabar por definhar e morrer. Nesse caso, o investimento era mais bem aplicado noutra infrastrutura qualquer. Já dei o exemplo: uma porcaria duns aros de metal para prender bicicletas ao pé de todas as estações de metro e de comboio. Simples, barato, devia haver, mas não é espalhafatoso o suficiente.

    Não permite escrever frases bonitas como: “Promover o desenvolvimento dum sistema universal e integrado de pagamento de mobilidade (Cartão da Mobilidade), através do qual o cidadão possa aceder a todos os serviços de transportes públicos, estacionamento, portagens, aluguer de veículos em sistemas partilhados ou carregamento de veículos elétricos.”

    Ao que eles (PS) chamam “Cartão da Mobilidade” eu chamo cartão de débito/crédito. Já foi inventado, todos temos um, basta que o aceitem. Se eu consigo pagar IAPs de 0.50€ no Candy Crush com o cartão de crédito, porque é que preciso de comprar um cartão novo todos os anos (e perder parte do dinheiro que carreguei, etc) para andar de metro?

  21. Luís Lavoura

    Nuno

    Ao que eles (PS) chamam “Cartão da Mobilidade” eu chamo cartão de débito/crédito.

    Há diversos países (Dinamarca, Finlândia, Reino Unido) que, na linha, daquilo que você escreveu, estão a considerar seriamente deixar de usar dinheiro físico e passar a apenas usar dinheiro sob a forma de cartões. (O que tem as enormes vantagens de que todas as transações ficam registadas nos sistemas eletrónicos dos bancos, dificultando a fuga ao fisco, a corrupção e outras atividades ilícitas.) Porém, esse desejo tem que ter em conta o facto de que muitas pessoas, mesmo nesses países, mas ainda muito mais em Portugal, são “infoexcluídas” e não têm nem sabem usar cartões, muitos menos coisas como o Candy Crush.

    Um recente estudo (veja o blogue Economia Info) mostra que em Portugal mais de metade das pessoas nem sequer tem cartão de débito. Quanto mais um smartphone com aplicações como o Candy Crush. E muitas dessas pessoas utilizam transportes coletivos…

  22. anonymous

    Luis Lavoura,

    Fugir aos impostos é bom, porque se não houver dinheiro não se podem concretizar estas ideias que só servem para destruir dinheiro dos contribuintes, cuja consequência a longo-prazo é a subida de impostos…

  23. Nuno

    Oh Luís, sinceramente. Não é preciso cartão de crédito nenhum. A CGD tem um cartão de débito que funciona nos transportes de Lisboa da mesma forma que funciona o 7 Colinas; o dinheiro sai da conta.

    Isso é “complicado” para os “info-excluídos”, mas andamos a vender por 50cts cartões de papel que servem para tudo mas não podem ter viagens do Metro e da CP ao mesmo tempo e outras confusões semelhantes? E para resolver esse problema temos que inventar de raíz um sistema paralelo que também dá para pagar portagens e carregamento de veículos eléctricos mas não parquímetros?

    Tenham santa paciência, e deixem-se de inventar parvoíces. Os velhotes conseguem carregar o telemóvel na PayShop mas não conseguem usar um cartão de “crédito” pré-pago para pagar o autocarro? Já está tudo mais que inventado, dá é menos frases feitas.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.