Catch 22

O pensamento liberal reconhece a dificuldade política de defender a liberdade. Da tocqueviliana tendência da democracia para criar um rendilhado de regras que tudo controla à buchananiana tendência para o estado não parar de crescer por consequência das vontades circunstânciais dos eleitores. Passando pelo tullockiano paradoxo de como sai barato tirar benefícios do estado fazendo pressão e pela misesiana frustração de estar rodeado por socialistas.

Os liberais estão, portanto, genericamente de acordo que o estado não tem grande remédio e que o seu caminho inexorável é o da erosão da liberdade. O melhor que se pode fazer é ir resistindo, dificultando a tarefa aos colectivistas e estatistas, obtendo a ocasional vitória numa batalha de uma guerra perdida à partida.

Neste contexto, os liberais costumam estar entre a espada e a parede. Por um lado tendem a criticar os erros sucessivos dos governantes. Por outro, muito raramente se chegam à frente para fazer melhor, dada a impossibilidade teórica de o fazer. Reformar o estado? Impossível. Lutar contra a burocracia sem cara? Impossível.

No século XIX houve quem usasse a expressão “liberal de poltrona” (armchair liberal) para descrever a tendência liberal para ficar sentado no sofá a dizer mal da situação, nada fazendo para mudá-la. Em vários momentos ao longo da vida, todos os liberais se sentam na poltrona; uns mais tempo, outros menos.

10 pensamentos sobre “Catch 22

  1. João Pereira da Silva

    É o que pretende fazer o novo partido libertário. Concorrer para não governar. Liberais de poltrona.

  2. Henrique

    Os liberais, frustrados com a impossibilidade de mudar as mentes dos socialistas, tornam-se nos individualistas egoístas de que são acusados. Escondem-se, fogem, vão para paraísos fiscais.
    É a escolha inteligente a se fazer.

  3. Manolo Heredia

    O liberal defende a inexistência de Estado, como o anarquista. O Estado é um empecilho à liberdade, dizem. E quando lhe respondemos que os homens deixados à sua própria autodeterminação comem-se uns aos outros, ou melhor, que os mais fortes atiram os mais fracos para a valeta, para que morram lá em paz, respondem-nos que é assim mesmo, à Darwin.
    Por isso só se encontram verdadeiros liberais nas classes mais abastadas, ou junto de grupos que pensam servir essas classes, ajudando-os nas suas trafulhices, para se salvarem da valeta.

    Os liberais de renome mais conhecidos ultimamente deixam muito a desejar: Ricardo, Rendeiro, etc.

  4. Rodrigo

    Um liberal é alguêm que tendo solida e sustentada opinião sobre algo, sabe também que pode estar errado. Ele conhece humildemente a dimensão da sua ignorância. Isto é incompativel com o exercício do poder politico como o conhecemos. Nada tem a ver com inacção ou incapacidade. É por isto que cada vez mais estamos cercados de socialistas e sociais democratas; gente que – com poder – sabem bem o que fazer com as vontades e desígnios dos outros. Tu ne cede malis sed contra audentior ito.

  5. Manuel Coquim

    A defesa da liberdade, seja ela no plano político, religioso, social ou económico, deve ser o desígnio de qualquer pessoa evoluída. A melhor maneira maneira de defender o valor da liberdade é sempre através do combate de ideias. Como dizia alguém, não há nada mais prático do que uma boa teoria e nada mais poderoso do que uma boa ideia!
    Para os menos familiarizados com este conceito, talvez valha a pena recordar a sua evolução:
    Cervantes, no seu D. Quixote, dizia que um liberal era uma pessoa culta, educada e de boas maneiras. No século seguinte, no tempo dos iluministas, o vocábulo adquire novo significado: os liberais passam a combater a escravidão e o intervencionismo exagerado do Estado, ao mesmo tempo que defendem o comércio livre, a concorrência, a responsabilidade individual e manifestam-se contra todos os dogmas do absolutismo. Na primeira metade do século XIX um liberal é sobretudo um livre pensador: defende o Estado laico, a separação da Igreja do Estado e quer emancipar a sociedade do obscurantismo religioso.
    Já na segunda metade o conceito ganha novas conotações: perante o avanço das ideias comunistas e socialistas, que defendem o colectivismo e o estatismo, os liberais defendem o capitalismo como sistema económico e a democracia como sistema político. No que toca à economia, a defesa da livre iniciativa, do livre comércio e a fixação de preços segundo a lei da oferta e da procura passam a ser as suas principais bandeiras.
    Esta deambulação pela evolução do pensamento liberal só reforça o melhor método de actuação: o combate pelas ideias. De resto pergunta-se: não são as ideias que devem comandar as nossas acções?

  6. Pingback: 22 formas de gradualismo | O Insurgente

  7. Manolo Heredia

    O exercício do liberalismo só não é negativo num ambiente de livre debate de ideias e de livre concorrência, como diz acima Manuel Coquim. São dois pressupostos cada vez mais dificeis de implementar nas sociedades democráticas ocidentais, de matriz anglo-saxónica. Primeiro porque a livre ventilação de ideias pressupõe liberdade nos meios de comunicação (cada vez é menor essa liberdade devido à influência dos patrões, que jogam em vários tabuleiros ao mesmo tempo), em segundo lugar porque a concentração do capital em empresas cada vez mais poderosas e abrangentes tende à formação de monopólios nas empresas que são estratégicas para as economias dos países mais pequenos. Sempre gostava de saber como é possível formar os preços praticados pela REN com base na livre concorrência.
    Mas é assim, até aqui se nota; quando um mensageiro traz para este espaço uma ideia que não interessa ao patrão, ele salta detrás do cortinado com insultos e não com algum contraditório que se veja… não é verdade Sr. Miguel Botelho Moniz?

  8. Não, não é Sr. Manolo. Contraditório reservo para quem pelo menos usa as definições correntes das palavras e não variantes delirantes feitas à medida das suas ideias disparatadas.

  9. PedroS

    ” São dois pressupostos cada vez mais dificeis de implementar nas sociedades democráticas ocidentais, de matriz anglo-saxónica. Primeiro porque a livre ventilação de ideias pressupõe liberdade nos meios de comunicação”

    Não compreendo como pode dizer a partilha de ideias é “cada vez mais difícil de implementar”
    Nunca como hoje foi tão fácil e barata a livre ventilação de ideias: criar um blog é gratuito, e qualquer pessoa com um portátil (cada vez mais barato) o pode fazer. Há vinte anos, se quisesse espalhar as suas ideias tinha de imprimir panfletos (e assim alcançar meia dúzia de pessoas, já que a maioria os deitaria ao lixo sem sequer os ler) ou fundar um jornal (ligeiramente mais caro do que comprar um portátil)

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