Efeito de histerese na política

A plasticina, para além de flexível, mantém as suas propriedades na ausência das forças que a deformaram.
A plasticina, para além de flexível, mantém as suas propriedades na ausência das forças que a deformaram.

A histerese é um fenómeno físico frequentemente usado em economia como modelo teórico para estudar efeitos permanentes que tendem a perdurar mesmo na ausência do estímulo que inicialmente os causou. O princípio é simples, mas com importantes implicações: um sistema que tenha sido sujeito a um determinado tipo de choque pode manter as propriedades decorrentes desse choque, mesmo na ausência do estímulo que as gerou. Uma ilustração teórica: reunindo-se condições de pressão e temperatura suficientes para transformar carbono simples em diamante, as moléculas assumirão de forma definitiva esta nova forma, mesmo que a pressão e temperatura voltem ao normal.

Em economia, este fenómeno é usado para, por exemplo, descrever efeitos permanentes do desemprego no mercado de trabalho. Tanto quanto julgo saber, este fenómeno ainda não foi condignamente estudado em ciência política, pese embora as evidências que se amontoam e que sugerem que poderá existir um efeito análogo. A título de exemplo, a reinvindicação do sindicato dos pilotos da TAP. Segundo os próprios, estes reclamam a aplicação de uma cláusula de salvaguarda prometida por António Guterres, em 1999, e que lhes garantia 20% da empresa em caso de privatização. Ignorando as questões de justiça social de tal promessa, ou a clara falta dela, a lição latente é que a acção de um determinado político pode ter efeitos permanentes, e com severas consequências no futuro, ainda que esse político já não tenha qualquer poder executivo ou legislativo, como é o caso. E levanta outra questão: até que ponto poderão os políticos ter o poder discricionário para prometer coisas como esta? Seja como for, e 16 anos depois, sentimos bem as consequências de péssimas decisões políticas.

Anúncios

4 pensamentos sobre “Efeito de histerese na política

  1. PiErre

    Se um governante toma uma decisão errada, nada impede que, mais tarde, outro governante tome uma decisão contrária e corrija o erro. Tem a mesma legitimidade que o anterior para o fazer, como é óbvio.

  2. JP-A

    Criminalmente, a oferta de uma coisa pública em favor ou benefício de alguém deve ter nome, imagino eu.

  3. Segundo os pilotos, não. Segundo a Constituição, não sei, dependerá do dia da semana para o Tribunal Constitucional. Será que o princípio da confiança se aplica aqui? Afinal, foi-lhes prometido algo. Inverter isso não seria defraudar «expectativas futuras»?

  4. Rui Silva

    Em democracia (tal como pelos vistos alguns a entendem) é fácil legitimar o poder discricionário de alguém tirar a Pedro para dar a Francisco, basta que isso tenha sido prometido em campanha e devidamente sufragado.
    A constituição ( que foi feita por entes sagrados que nunca se enganam) legitima a situação.
    Viva a democracia.

    cumps

    Rui Silva

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.