O País dos Fachos

O País dos Fachos por Ricardo Lima:

O português é aquele tipo que questiona o porquê de determinado fulano – ou entidade – não pagar taxas ou licenças e nunca o porquê dessas mesmas taxas ou licenças existirem. Vivemos numa luta de classes distópica em que grupos de interesses se tentam, diariamente, enterrar uns aos outros. Os fumadores que não bebem estão-se marimbando para as taxas sobre o álcool, quem bebe e não fuma aplaude as taxas sobre o fumo. Os taxistas querem ver a Uber pelas costas mas ai de quem taxe os turistas que a clientela voa – e não é para cá. Não nos entendemos. Com o mal do outro convivemos nós bem ..

Vivemos num país maioritariamente católico mas não nos amamos uns aos outros, longe disso, quanto mais respeitar a vontade do próximo. Somos chicos-espertos socorrendo-nos do nosso chico-espertismo para entalar o próximo, que tomamos sempre como um chico-esperto a tentar entalar-nos com o seu chico espertismo.

O que presentemente ocorre com a Uber em relação aos Táxis é o que se vem passando com as bancas de cerveja e as garrafeiras em relação aos bares, com os hostels em relação aos hotéis, com as tascas típicas em relação a alguns restaurantes, com as low-cost em relação à TAP, com os produtos da China e com outros infindáveis casos. É a treta da certificação e dos padrões de qualidade. É a história do cumprimento exímio da lei, da protecção do consumidor, da monitorização e do raio que nos parta. Somos um país de pequenos fascistas. A concorrência é uma coisa chata.

Se para pagar impostos um tipo quase precisa de uma pós-graduação em contabilidade, a burocracia é uma coisa aborrecida, medonha, quase kafkiana. Mas se o vizinho do lado precisa de meia dúzia de requerimentos para pintar as paredes ou mudar o portão do quintal acha-se muito bem. Era o que mais faltava o indivíduo fazer o que lhe apetece com a própria casa .. há sempre um energúmeno a bater palmas ..

.. Enquanto nos acharmos no direito de intervir no espaço do próximo, através do Estado – de outra forma seria uma agressão – estamos a legitimar que este mesmo Estado intervenha no nosso. A história provou que os precedentes que abrimos são perigosos e a última década vem mostrando que cada vez menos existem limites para a esfera interventiva dos governos .. de facto, em Portugal, a burrice tem um passado glorioso e um futuro promissor.”

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9 pensamentos sobre “O País dos Fachos

  1. bump

    Muito bom! Falhou apenas dizer que a maioria destes energúmenos portugueses também não se exprime nas eleições.
    São estes alguns dos motivos pelos quais emigrei.

  2. Pedro Antunes

    Justificar a reação dos taxistas a algo intrínseco português é não ter viajado ou lido imprensa internacional.
    Funciona assim em todo o lado. E ainda bem. As pessoas tentam defender os seus interesses.
    Os taxistas não gostam do serviço Uber porque mais têm defesa para ele. Isso é normal!
    O problema é quando o estado se envolve em vez de permitir uma batalha de mercado, mais eficiente e responsiva à vontade dos consumidores!
    Nada disto é intrinsecamente português!

  3. jo

    Também não se preocupou com os impostos que os taxistas pagam até agora.
    Se quiser ser coerente em vez de estar aqui a defender o Uber devia estar a defender a abolição de regras e impostos para os taxistas.
    Eu sei que os “fogareiros” não são apelativos e que os semartphones é que estão a dar, mas o processo todo da Uber parece-me apenas um esquema.

  4. Ricardo Monteiro

    Enquadra o facto de haver gente a querer que os funcionários públicos recebam menos e tenham menos regalias, nesse chico-espertismo ? Ou aí já é completamente diferente?

  5. anônimo

    No Brasil está acontecendo algo parecido, o Uber acabou de ser proibido pela justiça, ainda é uma decisão provisória, mas grande chance de virar definitiva…E aqui os taxistas também não falam em menos taxas e regras para eles, mas sim em mais taxas e regras para todos…

    Obrigado.

  6. Ricardo Monteiro,

    A maioria de nós está mais preocupada com o número de desfuncionais públicos que com o seu estipêndios, mesmo sendo este vez e tal superior ao do privado.

    Há demasiados bodes para o tamanho do pasto.

  7. Anónimo,

    Lá como cá. O comunismo não tem dogma, é apenas um projecto de acesso ao poder. A primeira parte da afirmação passada fê-la Lenine e a segunda é a única conclusão que se pode tirar.

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