Baralhar e dar de novo

O Luís Naves comentou as minhas considerações sobre o esgotamento do regime confundindo-as com o 25 de Abril. A contrário do que sugere o Luís, não escrevi que o 25 de Abril não serviu para nada. O que disse foi que os objectivos do 25 de Abril se esgotaram 12 anos depois, em 1986. Porquê? Simplesmente porque o regime saído de 1974 não foi capaz de evoluir. Claro que se vive melhor. Aliás, só não se viveria melhor se o país tivesse caído nas mãos do partido comunista. Uma verdade tão óbvia como a dos dados estatísticos que nos mostram os índices do crescimento económico durante a década de 60 e início dos anos 70.

Claro que não há presos políticos e cada um é livre de dar a sua opinião. Mas se a grande maioria pensar da mesma maneira isso não basta. E o Luís deve conhecer os malefícios do politicamente correcto que, aliás, utiliza no seu texto. Quando digo que não há debate, o Luís comprova-o, dirigindo a conversa para outro assunto, o 25 de Abril, e não o tema que referi, ou seja, a pouca evolução política do regime e das suas elites desde 1974.

Há um outro ponto, demasiado duro para que muitos o olhem de frente e antes prefiram baralhar e dar de novo: a melhoria de vida que se conseguiu nos últimos 40 anos, que foi impressionante e de saudar, não tendo sido acompanhada por um crescimento económico capaz de a financiar por muito mais tempo, forçou este governo, como forçará os próximos, a medidas que limitarão essa mesma qualidade de vida.

Confundir quem chama a atenção para isto com alguém que não valoriza nada é baralhar e dar de novo. Não é debater, porque não leva a lado nenhum. Pode tranquilizar a consciência por uns momentos, mas não muda nada.

27 pensamentos sobre “Baralhar e dar de novo

  1. Sei que o autor do post não subscreve o comentário que se segue.
    Apenas quis (eu) aproveitar o pretexto.
    Aí vai:
    Nasci, formei-me e trabalhei ainda três anos no antigo regime.
    O que passo a escrever é, portanto, de experiência feito:
    1. A ditadura sem partidos deu lugar à ditadura de partidos.
    2. O “Deus, Pátria e Família” deu lugar ao “Dinheiro, Mercado e Redes Sociais”.
    3. A riqueza é cada vez mais concentrada e o desemprego é cada vez maior.
    4. A soberania foi alienada a favor de entidades supranacionais que, através dos media e das novas tecnologias, controla e manipula as sociedades com uma eficácia infinitamente maior do que aquela de que a PIDE dispunha.
    Conclusão: Tem de haver uma 3ª via, porque qualquer uma destas duas só nos pode conduzir ao inferno!

  2. tina

    O que falta lembrar é que grande parte da melhoria de vida se deu ao endividamento de Portugal, que começou logo a seguir a 1974. Ou seja, a grande melhoria de vida resulta da conquista de Abril de permitir que Portugal se endividasse e não ao crescimento económico em si.

  3. Tina,

    Não tem razão. Os principais indicadores de crescimento têm a primeira derivada a descer (II derivada negativa, portanto) depois do 25 de Abril. O Estado Novo, de entre todos os defeitos, que eram muitos, não tinha a falta de crescimento económico como um deles.

    A dívida não fez crescer Portugal. A dívida fez crescer fortunas em alguns portugueses, o que é totalmente diferente. A dívida é necessária para sustentar os funcionários inúteis que movem papéis de um lado para o outro, a versão sioviética de abrir e fechar buracos. Miseravelmente esquecemo-nos de que melhor seria abrir o buraco, colocar lá todos os socialistas chupistas e depois, no fim, fechar o buraco. Isso seria verdadeiro investimento público.

    É impossível crescer quando:

    1) 40% do produto vai para sustentar o Estado;
    2) 50% do produto é o próprio Estado, ficando eu por saber porque é que as despesas do Estado fazem parte das contas nacionais (soma nula);
    3) 20% do produto — menos, agora — vem em forma de aumento da dívida para pagar o que o Estado tem de comer;
    4) Com uma carga fiscal média de 40% e máxima de 75% (soma dos vários impostos no último escalão) alguém se faça de tolo e: a) queira dar-se ao esforço de trabalhar a sério para ganhar dinheiro ou b) não faça manigâncias para transferir o dinheiro para forma de Portugal sob a capa de compras ou de subsidiárias, pagando impostos em regimes fiscais mais simpáticos;
    5) O código fiscal muda de tal forma que os fiscalistas admitem que têm de comprar um novo código todos os anos, já que não é prático actualizá-lo com recortes, como se fazia há vinte anos atrás.

    A Tina dar-me-á razão ao dizer que o PS é responsável por mais de 100% da dívida (nos diversos governos PSD recuperámos dívida pública e esta encontra-se estacionária em mais ou menos 105% (a líquida, a que interessa) do PIB desde 2012, conforme a série do Banco de Portugal.) De 8% no fim do governo Cavaco Silva passámos os 110% (com a dívida escondida que teve depois de ser incorporada) no governo de José Sócrates, com recuperação ligeira no governo de Durão Barroso e estabilização no de Santana Lopes. Mais: o PS hipotecou o nosso futuro ao colocar nas mãos dos amigos contratos que oneram o Estado por décadas, num dos casos até 2075. Dívida futura a ser remida quando estivermos todos a tirar lições de harpa.

    Números são números e palavras leva-as o vento.

  4. Luís

    «A dívida não fez crescer Portugal. A dívida fez crescer fortunas em alguns portugueses, o que é totalmente diferente. A dívida é necessária para sustentar os funcionários inúteis que movem papéis de um lado para o outro, a versão sioviética de abrir e fechar buracos. Miseravelmente esquecemo-nos de que melhor seria abrir o buraco, colocar lá todos os socialistas chupistas e depois, no fim, fechar o buraco. Isso seria verdadeiro investimento público.»

    Um dos maiores cancros da nossa economia foi e é a construção civil. E é um sector que já tinha um certo peso relativo no final da Monarquia e no Estado Novo.

    Este sector gerou fortes diferenças sociais decididas arbitrariamente pelo Estado. Como? Decidindo o que pode ser urbanizado: e o que não pode.

    Tema demasiado complexo para ser abordado aqui. Consta que uma elevadíssima percentagem da nossa dívida externa está em «cimento»: do crédito à habitação às obras públicas.

    Em 2001 já éramos o país da antiga Europa a 15 com maior área urbana face à nossa densidade populacional.

    Ocupamos demasiado espaço, temos excesso de área urbana, excesso de obra pública e tal acarreta custos brutais para o contribuinte e para a Economia.

    Por exemplo, as áreas despovoadas e abandonadas no Grande Porto e Grande Lisboa têm esgotos, água canalizada, ruas, iluminação pública, e manter esses espaços que não estão aproveitados tem um custo incomportável para um país pobre.

    O dinheiro que deveria ter fluido para a Indústria e para a Agricultura foi para cimento.

    Com um mercado de arrendamento dinâmico e com um mercado de reabilitação forte as rendas seriam muito, muito mais baratas e os portugueses teriam mais poder de compra. Para além disso se acabasse a especulação de secretaria em torno do que é urbano e do que não os enriquecimentos súbitos decididos pelo Estado teriam um fim.

    Este é apenas um dos mecanismos que o Estado usa para criar diferenças sociais e gerar empobrecimento da maioria.

  5. Luís

    «O que falta lembrar é que grande parte da melhoria de vida se deu ao endividamento de Portugal, que começou logo a seguir a 1974. Ou seja, a grande melhoria de vida resulta da conquista de Abril de permitir que Portugal se endividasse e não ao crescimento económico em si.»

    Essa melhoria já estava a ocorrer a todo o gás no Estado Novo. A mortalidade infantil já descia vertiginosamente não por intervenção do Estado mas devido ao crescimento económico.

    No Estado Novo conseguimos crescimento e melhoria das condições de vida sem endividamento e isso é notório pois em democracia ninguém resolveu de forma duradoura o problema económico.

  6. O 25 de abril é o maior embuste da historia moderna portuguesa. Se tivessem esperado no máximo 5 anos a revolução não faria qualquer sentido. Talvez percebendo isso houve uns quantos “revolucionários” que tomaram coragem de deitar abaixo um regime que então já começava a dar evidentes sinais de senescência. Com isso ganharam protagonismo histórico, político e… financeiro…

  7. tina

    Obrigada pela explicação, Francisco.

    A Republica Cadáver:
    “O 25 de abril é o maior embuste da historia moderna portuguesa.”

    Se virmos bem, a conquista de Abril mais simbólica é o facto de os funcionários públicos levarem de reforma 2000 euros por mês enquanto os pobres levam 200. Mostra como os “democratas” se aproveitaram tão bem do sistema.

  8. Francisco

    Realmente ao fim de 5 anos o problema português estaria resolvido e era o problema ultramarino. Sem duvidas que MC daria a autodeterminação às ditas províncias com a consequente independência programada. Seríamos salvos da “descolonização exemplar” 1976 e então a dita democracia poderia ser dada a comer ao povo português.
    Mas, as forças do mal, desconfiaram, pagaram a uns capitaezecos e cá estamos a mendigar e a suportar o lote de políticos incompetentes e corruptos principalmente situados na dita esquerda.

  9. Luís Marques

    Mais 5 anos e eu, provavelmente, teria ido malhar com os ossos na guerra do ultramar a defender uma causa perdida.

  10. Francisco,

    O 25 de Abril foi uma revolta castrense por melhor rancho que acabou por dar para o torto. Posso-lhe dizer com confiança que o Marcelo Caetano teve nas mãos parar a revolta e escolheu não o fazer. Porquê? Ninguém o sabe. Talvez estivesse farto disto tudo, como o Manuel Teixeira Gomes, presidente na I República.

  11. Luís,

    «No Estado Novo conseguimos crescimento e melhoria das condições de vida sem endividamento»

    Peca um pouco por defeito. No Estado Novo conseguimos isso tudo a recuperar a dívida que os socialistas salafrários e caceteiros da I República nos haviam legado.

  12. Joao Bettencourt

    “Se virmos bem, a conquista de Abril mais simbólica é o facto de os funcionários públicos levarem de reforma 2000 euros por mês enquanto os pobres levam 200. Mostra como os “democratas” se aproveitaram tão bem do sistema.”

    Obviamente, deviam levar 200 euros para casa como os pobres.

  13. tina

    “Obviamente, deviam levar 200 euros para casa como os pobres.”

    É esta a atitude típica do mamão do estado: nas tintas se não sobra nada para os outros.

  14. Francisco

    Luis Marques “Mais 5 anos e eu, provavelmente, teria ido malhar com os ossos na guerra do ultramar a defender uma causa perdida”
    As províncias ultramarinas já tinham um exercito próprio em 1975 e que iriam dispensar soldados da metrópole (excepto os verdadeiros voluntários). Em consequência da descolonização, em que muitos portugueses que agora se dizem solidários se acobardam, morreram milhares de pessoas africanas pela guerra, a fome e as doenças. É bom que essas mortes pesem nas consciências dos que agora dizem que não iriam “defender uma causa perdida”. Falar e criticar é fácil, mas na verdade eles que se lixem…pois…

  15. Luís Marques

    Francisco, o meu pai e os meus dois tios eram militares do quadro permanente do exército. A última comissão do meu pai, em Angola, terminou em Fevereiro de 1974, não me recordo de ele falar em tropas constituídas, maioritariamente, por malta das províncias ultramarinas. E um cunhado meu foi comando em Moçambique, era natural de lá, tão pouco havia muitos “moçambicanos”. Creio que está equivocado, neste site, vale o que vale, está a descrição do dispositivo militar em Angola em 1974, nunca a malta de lá teria efectivos para preencher, sequer, 1/4 das vagas.

  16. Francisco

    O exercito angolano (milicianos naturais ou residentes em Angola) era uma realidade. A guerra em Angola estava dominada pelo exercito português. O efetivo português poderia ser reduzido aos quadros (que até eram voluntários por questões monetárias) e a outros voluntários (por conveniência). O processo da inserção de oficiais milicianos no quadro era exatamente para preencher a lacuna do possível exercito angolano (não havia escola superior do exercito) e repito, em cinco anos (1980) a autonomia seria uma realidade e inclusive o exercito angolano.
    Depois seria uma independência multirracial e verdadeiramente democrática com a defesa das condições económicas angolanas e dos valores portugueses…
    Mas essa possibilidade tinha de ser evitada não fossemos constituir a Comunidade Económica da Africa Austral…..

  17. O 25 de Abril não tem culpa(senão fosse o 25 era outro dia qualquer)mas sim os personagens e partidos que “tomaram conta” do regime saído do imbróglio pós abrilesco(começando logo a 25 de Abril até ao 25 de Novembro)tendo nós como consequência um Estado semi-falhado(para ser simpático)que nem é Socialista nem é liberal-capitalista,(talvez falte um verdadeiro partido social-democrata)e onde se criou as condições para a instalação da corrupção,da mentira e da mediocridade.—(postei este mesmo texto no post do Delito de Opinião)

  18. Joao Bettencourt

    “É esta a atitude típica do mamão do estado: ”
    Engana-se, desde Outubro que o Estado não me da mama.

  19. Eduardo

    Francisco Miguel Colaço,
    A sua afirmação, “De 8% (de dívida pública) no fim do governo Cavaco Silva…” é um lapso, espero.

  20. Eduardo, não é lapso. A dívida pública líquida estava a 8% no fim do goveno Cavaco Silva (na verdade este mínimo foi atingido uns meses depois de o Guterres ter tomado posse, e antes que este deixasse a pandilha PS por as patas no tesouro. A Fonte é o Banco de Portugal, através das suas séries.

    A dívida era cerca de 50% do PIB, mas havia contrapartes em mais de 40% do PIB. Se coisa boa houve na governação Cavaco Silva, esta era uma delas.

  21. Eduardo:

    Cito um articulista, já que o Bando de Portugal, inexplicavelmente, deixou de ter série desde 1996, tendo apenas desde 1999.(o início do Euro, ainda a 200,482 escudos, e sem notas).

    Qual é então o seu valor actual? No final do primeiro trimestre de 2014 – últimos dados disponíveis – a PII portuguesa era qualquer coisa como -205 mil milhões de Euros, ou -123% do PIB . Dito de outra forma, Portugal devia ao exterior, em termos líquidos, 1,2 vezes toda a sua produção anual. A par da Grécia (e com valores praticamente idênticos), era, tão simplesmente, a maior dívida externa líquida entre todos os países da União Europeia . Mas nem sempre foi assim. No final do primeiro trimestre de 1996, quando tem início a série longa do Banco de Portugal, a PII ascendia apenas a -6,8 milhões de Euros, ou qualquer coisa como -8% do PIB de então. O buraco do endividamento externo foi progressivamente cavado desde essa altura : -22% em 1998, -47% em 2001, -65% em 2005, -110% no final de 2009.

    Ler mais: http://expresso.sapo.pt/a-maquina-de-criar-divida=f875066#ixzz3YaoEIYEY

  22. Eduardo

    Francisco Miguel Colaço,
    Obrigado.
    Bom, quer-me parecer que o FMC está a aplicar valores e definições da PII, e da dívida externa à dívida pública. No próprio artigo (muito interessante) que cita, o autor diz que: “Há, por isso, uma relação importante entre a dívida pública e a dívida externa, mas não é o facto da primeira determinar a segunda.”
    Dizer que “A dívida (no fim do governo Cavaco Silva) era cerca de 50% do PIB (de memória creio que seria mais nos 58%), mas havia contrapartes em mais de 40% do PIB” implica dizer que o Estado português era na altura credor, no exterior, de um montante equivalente a mais de 60 vezes o empréstimo que fizemos à Grécia em 2010! Acredita mesmo nisso? Repare que digo Estado e não bancos e outras empresas e particulares.
    Independentemente dos motivos que levaram a esse resultado, a verdade é que nos últimos 30 anos só houve um 1º ministro que, quando deixou o poder, nos deixou um bocadinho menos de dívida pública do que aquela que tinha encontrado quando lá chegou. Não foi Cavaco Silva.

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