O regulador: sempre um passo atrás

carrothO FMI prepara mais um conferência, intitulada “Rethinking Macro Policy III: Progress or Confusion?”, que, para lá do notável feito de admitir o elevado grau exploratório da actual política monetária, tudo resumido, serve para justificar a sua própria existência. Olivier Blanchard deu o mote, lançando algumas questões no blog do FMI.

Talvez mais interessante do que as questões lançadas sejam as respostas implícitas: as actuais políticas monetárias são tão experimentais que o próprio FMI não as entende bem. Note-se que a ideia de taxas de juro negativas era nada mais que um limite inferior teórico, teoricamente inalcançável, cujo único propósito era caracterizar uma armadilha de liquidez, ou em parlance menos keynesiana, a Zero Lower Bound (ZLB). Sem grandes teorias explicativas, os Bancos Centrais, entre os quais o BCE, avançaram, ainda assim, nesse sentido.

Outro ponto igualmente interessante é a questão da regulação financeira. Desta vez é diferente, ou assim acredita o planeador central. Para seu desaire, e tal como a experiência bem comprova, a tarefa do regulador é análoga à do burro atrás da cenoura — sempre um passo atrás, mas sempre ali tão perto. Isto porque de nada serve a acção do regulador quando os incentivos não estão alinhados. Colocar um chocolate no quarto de uma criança e pedir-lhe que não o coma é naif, isto para ser brando. A regulação eficaz não é decretada, monitorizada ou supervisionada por uma qualquer entidade que se julga omnisciente — é o resultado da inexorável acção das regras de mercado, onde se inclui a falência e a tomada de risco. Assim como são os limites da tomada de risco: se os bancos desejam arriscar, que o façam com os seus próprios capitais. Não se pode criar um mecanismo que dependa da boa fé e esperar que ninguém o explore para seu próprio proveito. Que o FMI ainda não tenha percebido isto, e que, em 2015, ainda tente encontrar o Santo Graal da regulação sob a forma de melhores instituições regulatórias, revela o nível de desorientação da instituição.

9 pensamentos sobre “O regulador: sempre um passo atrás

  1. Luís Lavoura

    a tarefa do regulador é análoga à do burro atrás da cenoura — sempre um passo atrás

    Isto é uma verdade quase tautológica, uma vez que a inovação é função da economia privada, não do Estado. Potranto, os privados introduzem novos produtos e serviços e só depois é que o Estado os regula.

    Mas isto não pode constituir um argumento contra a regulação. O facto de a regulação vir sempre atrás da inovação não significa que ela não seja imprescindível.

    Veja-se o célebre caso da morte de duas crinaças no Aquaparque no Restelo. Os parques aquáticos foram, como é natural, introduzidos em Portugal sem que houvesse legislação específica para eles. Mas mais tarde essa regulação legislativa tornou-se essencial, sob pena de haver uma desresponsabilização como houve nesse caso do Aquapargue.

  2. Luís Lavoura

    A regulação eficaz […] é o resultado da inexorável acção das regras de mercado, onde se inclui a falência

    Pois. Só que a falência de instituições financeiras tem custos económicos muitíssimo elevados. Imagine por exemplo se o Banco Espírito Santo tivesse sido deixado falir – quantas empresas, que tinham o seu dinheiro nesse banco, ficariam insolventes por causa disso?

  3. k.

    Os Bancos Centrais estão “confundidos” porque com a expansão monetária que temos tido, deviamos estar a assistir a um aumento da inflação – a questão é mesmo essa, porque é que mesmo com os Bancos Centrais a imprimir dinheiro à toa, não temos inflação – ou investimento, que me parece mais crítico.

    Afinal, com taxas de juro iguais a zero, os agentes económicos deviam achar investimentos rentáveis – mas não os encontram – aqui já caimos no argumento da “Secular stagnation”, algo que tecnicamente nunca foi observado nas economias modernas. Portanto não me parece ser justo censurar o FMI, Bancos centrais, ou quem quer que seja por estar… em águas não navegadas.

  4. Luís Lavoura,

    Não é preciso legislação específica para tudo e todos os casos. Quando tudo é específico, como a estupidez do direito romano que levámos ao ridículo induz, nada é geral.

    Não é necessário dizer que tudo tem que ficar gradeado, já que os manuais dos fabricantes dos equipamentos têm sempre as recomendações de segurança de cada máquina. Basta isso para responsabilizar os fabricantes. De qualquer forma, o facto de existirem gradeamentos e de eles não estarem colocados implica que há negligência de segurança.

    A lei não deve regular todas as minudências. basta estabelecer princípios gerais e deixar que os fabricantes de equipamentos ou (no caso financeiro) as organizações sectoriais publiquem manuais de boas práticas. Um roubo é sempre um roubo. Com muitas leis, um roubo pode não ser um roubo (se não estiver legislado aqui e ali e na máxima especificidade).

    E isso lembra-me uma ANEDOTA SOVIÉTICA:

    Nos Estados Unidos tudo é permitido, até o que é proibido. Na Alemanha, tudo é proibido, excepto o que é permitido. Na França tudo é permitido, especialmente o que é proibido. Na União Soviética tudo é proibido, especialmente permitir o que deve ser proibido.

  5. k.,

    Para haver inflação ou hiperinflação, tem de se ter indexação automática dos salários. Tem de ter um mecanismo de retroacção, que é esta indexação, presente na República de Weimar e no Zimbabué. Como não há indexação automática dos salários, o novo dinheiro simplesmente não entra na economia real.

    Neste momento, o dinheiro criado está a ir para as bolsas de valores, aumentando a bolha.

  6. Caro Luís Lavoura, confirma então que é uma tarefa inglória esta de perseguir a cenoura. Assim sendo, altere-se o enquadramento: que regras e princípios deverão existir no mercado para que haja uma penalização implícita dos abusadores e não seja estar consecutivamente a tentar regular tudo e mais alguma coisa? Eu sei as que não devem existir: possibilidade de os bancos se alavancarem com dinheiro que não é deles; taxas de juro negativas que beneficiam o curto-prazo em detrimento do longo-prazo, etc.

  7. antonio

    Antigamente havia muitas nações, era dificil todas serem irresponsaveis e falirem ao mesmo tempo. E ainda havia espaço, havia outro, o qual combater, violar, roubar, para pagar as contas de quem andava a gastar acima da suas possibilidades. Havia por aí muitos países e zonas menores…fraquinhas.

    Agora já só há uns 6 ou 7 grandes blocos. Quando os 3 mais ricos (EUA; EU e JAPÃO, que são mais ricos que o resto do mundo todo junto) falem ao mesmo tempo, e ja se chupa o médio oriente (embora seja cada vez mais dificil e caro) e já não é possivel contar com a fraqueza da China, ou do Brasil e Argentina, ou da Indónesia e India, etc, que são pobres, mas fortes o suficiente para não os podermos invadir…só sobra fechar os olhos e seguir em frente, fingindo que não falimos.

    O Experimentalismo não é do FMI. É dos governos que mandam nos bancos centrais (nos EUA, na UE, no Japão) que não têm outra saida.

    Algum governo desses podia dizer: devemos o impagavel, não pagamos! Não era só os EUA, ou Japão, ou UE que iam à bancarrota…

    Quando a Grécia admite fazer isso, aqui no blogue crucificam-nos, por anticipação.

    Não é uma questão de regulação ou mercado. neste momento é maramente uma questão de sobrevivencia.

  8. Mário Amorim Lopes,

    Lembre-se que para se chegar ao longo-prazo é necessário passar pelo curto-prazo. Dito isto, não tenha ilusões de ver as taxas de juro negativas se prolongarem por mais de um lustro: a guerra está a ser provocada por todos os meios pelo Ocidente (os tais das taxas de juro negativas) e, de uma forma ou doutra, terão a guerra para ter a desculpa.

    A economia está em overdrive.

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